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| Quarto de badulaques (XIV) |
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Terminando
a minha crônica do último domingo eu me referi a Ravel
que, ao final da vida, dizia, como um lamento: “Mas há
tantas músicas esperando ser escritas!” E acrescentei
um comentário meu: “Com certeza o tempo não se detém
para esperar que a beleza aconteça...” Disse essas
palavras para mim mesmo porque naquele domingo, 15 de
setembro, eu estaria “desfazendo” mais um ano: 69!
Escrevi meu texto no meio da semana. A vida é como a
vela: para iluminar é preciso queimar. A vela que
ilumina é uma vela alegre. A luz é alegre. Mas a vela
que ilumina é uma vela que morre. É preciso morrer
para iluminar. Há uma tristeza na luz da vela. Razão
porque ela, a vela, ao iluminar, chora. Chora lágrimas
quentes que escorrem da sua chama. Há velas felizes
cuja chama só se apaga quando toda a cera foi
derretida. Mas há velas cuja chama é subitamente
apagada por um golpe de vento... Como poderia eu
imaginar que naquele dia preciso um golpe forte de vento
iria apagar a chama do Dr. Escudero? Ele tinha um rosto
de criança... Médico de projeção mundial, foi um dos
primeiros a usar o lazer nas cirurgias de ouvido. O
ouvido, o mais fascinante de todos os órgãos dos
sentidos, era um dos mundos por onde ele andava com
desembaraço. Desembaraço e competência. Competência
e seriedade. Seriedade e bondade. Mas ele andava também
por um outro mundo que não o do ouvido: o mundo dos
olhos. Era pintor. Pintava quadros lindos! Quem visse os
quadros que o Dr. Escudero pintava ficava tranquilo. Ele
era um pintor de tranquilidades. Lembro-me de um quadro
que vi no seu consultório: um caminho por entre campos
e árvores. E ele me disse: “Caminho da peregrinação
a Santiago de Compostela.” Era um amigo. Por isso vou
deixar o “doutor” de lado: Escudero, simplesmente
Escudero. Vez por outra aparecia no grupo de poesia
“Canoeiros” que se reúne comigo às 3as feiras para
ler poesia, tomar sopa com pão e vinho. Se o Escudero
soubesse ele teria dito, como Ravel: “Mas há tantos
quadros esperando ser pintados...!" Mais
que a minha própria morte e a morte das pessoas que
amo, o que me dói é a possibilidade da morte prematura
da nossa terra. Porque é certo que ela vai morrer. Tudo
o que nasce, morre. O trágico será se ela morrer antes
da hora, assassinada por nós mesmos, os seus filhos.
Escrevi uma série de crônicas para as minhas netas,
contando como era a minha vida de menino, na roça. A crônica
de domingo passado foi a última. Escrevi para as minhas
netas: avô contando estórias... Mas o divertido foi
que aqueles que mais gostaram foram os velhos. Eles
sabiam aquilo sobre que eu estava falando. Existe sempre
a fantasia de que, num momento do futuro, será possível
criar uma máquina que nos permitirá viajar através do
tempo, da mesma forma como existem máquinas que nos
permitem viajar através do espaço: bicicletas, carros,
navios, aviões... Mas acontece que a dita máquina do
tempo já existe. Só que ela não é feita com plástico
e metais e nem é movida a gasolina. A máquina do tempo
é feita com palavras. E ela se chama “literatura”.
A palavra nos transporta através do tempo: ela nos faz
viajar por mundos que não mais existem. E a prova de
que estamos viajando pelo passado está em que
“reconhecemos” os lugares por onde passamos e
sentimos as mesmas emoções que sentíamos quando estávamos
vivendo neles no presente. Agora estou preparando minha
máquina do tempo para uma outra viagem. Entrei no livro
O universo: seu início
e seu fim (Lloyd Motz, The
universe: its beginning and end, New York, Charles
Scribner’s Sons, 1975) e comecei viajar pelo tempo. O
livro me levou para 15 bilhões de anos atrás. A
temperatura era da ordem de um bilhão de graus. Foi então
que aconteceu a grande explosão, o Big Bang, com a qual
o universo se iniciou. E pensando sobre esse evento fantástico
enquanto caminhava – é preciso cuidar do coração
– meus pensamentos foram interrompidos pelas
sibipirunas floridas, o amarelo contra o verde das
folhas e o azul do céu... E me assombrei de que coisas
tão lindas e mansas tivessem nascido de uma explosão há
15 bilhões de anos... Do caos nasceram ordem, vida e
beleza, da mesma forma como uma bolha de sabão sai,
perfeita, do canudinho que o menino sopra... Aí fiquei
com medo que a bolha estourasse antes da hora. Porque é
isso, precisamente, que essa coisa a que damos o nome de
progresso está fazendo. Todos os candidatos a
presidente, todos, indistintamente, de direita e de
esquerda, prometem “progresso”. Mas nenhum deles
promete preservar a natureza. Qualquer menino sabe que a
bolha de sabão é frágil. Não pode crescer sempre. Se
crescer além do limite ela estoura. E nossa terra é
precisamente uma bolha frágil que navega pelos espaços
vazios, bolha onde apareceram, miraculosamente, as condições
para que a vida viesse a existir. Mas, se essas condições
desaparecerem, a vida deixará de existir. Muitas críticas
justas já se fizeram ao capitalismo, de um ponto de
vista ético, em virtude de sua tendência de produzir
pobreza e concentrar riqueza. Mas raramente se fala
sobre o capitalismo como um sistema autodestrutivo que,
para existir e gozar saúde, tem de estar num processo
de crescimento constante: mais empregos, mais trabalho,
mais devastação da natureza, mais monóxido de carbono
no ar, mais lixo – seis bilhões de quilos de lixo por
dia! – mais exploração dos recursos naturais, mais
florestas cortadas, mais poluição dos mananciais... Até
quando a frágil bolha suportará? Assim, em celebração
ao início da Primavera eu desejo oferecer a vocês a
oração abaixo, que é a mais bela orações pelo nosso
mundo que conheço. Seria bonito se as escolas, as
empresas, as fábricas, as igrejas celebrassem o início
da Primavera com a leitura dessa oração: POR
ESTE MUNDO Ó
Deus, nós te damos graças por este universo, nosso
lar; pela sua vastidão e riqueza, pela exuberância da
vida que o enche e da qual somos parte. Nós te louvamos
pela abóbada celeste e pelos ventos, grávidos de bênçãos,
pelas nuvens que navegam e as constelações, lá no
alto. Nós
te louvamos pelos oceanos, pelas correntes frescas,
pelas montanhas que não se acabam, pelas árvores, pelo
capim sob os nossos pés. Nós te louvamos pelos nossos
sentidos: poder ver o esplendor da manhã, ouvir as canções
dos namorados, sentir o hálito bom das flores da
primavera. Dá-nos,
rogamos-te, um coração aberto a toda esta alegria e a
toda esta beleza, e livra as nossas almas da cegueira
que vem da preocupação com as coisas da vida e das
sombras das paixões, a ponto de passar sem ver e sem
ouvir até mesmo quando a sarça, ao lado do caminho, se
incendeia com a glória de Deus. Alarga em nós o senso
de comunhão com todas as coisas vivas, nossas irmãs, a
quem deste esta terra por lar, juntamente conosco. Lembramo-nos,
com vergonha, de que no passado nos aproveitamos do
nosso maior domínio e dele fizemos uso com crueldade
sem limites, tanto assim que a voz da terra, que deveria
ter subido a ti numa canção, tornou-se um gemido de
dor. Que
aprendamos que as coisas vivas não vivem só para nós;
que elas vivem para si mesmas e para ti, que elas amam a
doçura da vida tanto quanto nós, e te servem, no seu
lugar, melhor que nós no nosso. Quando
chegar o nosso fim, e não mais pudermos fazer uso deste
mundo, e tivermos de dar nosso lugar a outros, que não
deixemos coisa alguma destruída pela nossa ambição ou
deformada pela nossa ignorância. Mas que passemos
adiante nossa herança comum mais bela e mais doce, sem
que lhe tenha sido tirado nada da sua fertilidade e
alegria, e assim nossos corpos possam retornar em paz
para o ventre da grande mãe que os nutriu e os nossos
espíritos possam gozar da vida perfeita em ti. (Orações
por um mundo melhor, Walter Rauschenbusch, PAULUS,
1997) (Correio Popular, 22/09/2002)
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