Quarto de badulaques (XII) 



PATATIVA DO ASSARÉ: Foi o Dr. João Alberto, doutor de olhos, que me abriu os olhos para ver o que eu não havia visto: o Patativa do Assaré. O livro estava no consultório dele. Patativa, se é que vocês não sabem, é o nome de um pássaro de canto mavioso, já quase desaparecido. Pois ele, o Patativa do Assaré, Antônio Gonçalves da Silva, acabou de morrer, aos 93 anos. Poeta do nordeste, sem estudo, doutor honoris causa em várias universidades, assim explicava sua poesia que jorrava como fonte: ”Eu faço o que quero, porque Deus é que quer, não sou eu...” Fernando Pessoa, estudado e culto, também dizia que sua poesia nascia do querer de Deus: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce...” Poesia é a vontade de Deus tornada escrita. O Patativa do Assaré fazia poesia por inspiração divina... Pois vão aí alguns dos seus cantos: “É glória bastante fria/ a daquele que estudou,/ formou-se em filosofia/ mas nunca filosofou.” “Eu acho melhor falar errado dizendo a coisa certa do que falar certo dizendo a coisa errada.” “Sem ver as grandes cegueiras/ da sua própria pessoa/ vive o homem sempre às carreiras/ atrás de uma coisa boa./ Quando a coisa boa alcança/ ele ainda não descansa./ Sente um desejo maior./ Esquece aquela ventura/ e corre logo à procura/ de outra coisa melhor./ Se a segunda ele alcança/ aumenta mais a canseira./ Fica sem se conformar/ correndo atrás da terceira./ Vem a quarta, a quinta, a sexta,/ e ele sendo a mesma besta./ Correndo atrás da ventura/ assim esta vida passa/ e o desgraçado fracassa/ no fundo da sepultura.”

JOELMA: Vocês devem se lembrar da Joelma, aquela moça que 18 anos que me escreveu pedindo ajuda. Sofrendo de uma degeneração progressiva do sistema nervoso, os seus movimentos estavam ficando cada vez mais difíceis, a caminho da paralisia. Pensei que uma coisa boa seria se ela tivesse um computador ligado à Internet. Isso permitiria que ela viajasse pelo mundo sem sair do seu quarto. E poderia entrar em contato com pessoas que sofriam de doença parecida. Fiz um apelo através dessa coluna. E ela ganhou um computador e recursos para pagar os custos da Internet. Isso deu vida nova à Joelma que até encontrou um namorado... Pois a Joelma fez um concurso para um emprego público e passou. Mas para poder trabalhar ela vai precisar de uma cadeira de rodas que custa R$900,00 (pelo menos esse era o preço, antes da disparada do dólar). E agora estou eu aqui de novo perguntando se você não querem ajudar. Se você puder fazer uma doação – não importa que seja pequena – é só fazer o depósito em nome de Joelma Batista da Silva, CPF 285.249.538-45, Banco Nossa Caixa, Agência 0463, conta corrente 190154181, Itaquaquecetuba, SP.

 Um amigo, educador ambiental, levou um grupo de adolescentes para ver uma mina. Uma mina é algo assombroso. É lá que a água nasce. Se a pressão da água é forte, a água jorra para cima, levantando a areinha que estava no fundo. Beber a água da mina, ajoelhado, mãos em concha; é uma experiência mística. Os adolescentes ficaram pasmos, nunca haviam imaginado que era assim que a água nascia. Para eles a água ou nascia das torneiras ou vinha em garrafas. Mas houve um deles que não ficou pasmo diante da mina. Pôs-se a andar, olhando atrás de pedras e árvores, como se estivesse procurando algo. Meu amigo lhe perguntou: “O que é que você está procurando?” Ele respondeu: “Estou procurando o lugar onde se desliga a água...”

A música clássica foi e é uma fiel companheira na solidão. Na verdade, é só na solidão que ela pode ser sentida. Porque é na solidão que existe o silêncio. A música clássica é intolerante com os conversadores. Amante ciumenta, ela exige exclusividade e atenção total. Não dá os seus prazeres a quem não se entrega a ela, no momento em que ela está se entregando... Uma das minhas alegrias gratuitas tem sido o programa “Quem tem medo da música clássica?”, apresentado pelo senador Artur da Távola, na TV Senado. Se eu não soubesse, jamais suspeitaria que ele é um político. Porque política é coisa de poder. Mas música é coisa de amor... É um prazer vê-lo, seu rosto sorridente. E é um prazer ouvi-lo: sua voz mansa, inteligente e sensível. O Kama-Sutra é um livro de sabedoria oriental onde se ensinam as sutilezas e delícias do amor sexual. Pois eu diria que o senador Artur da Távola é um mestre do Kama-Sutra musical. Ele conhece os múltiplos prazeres da música, suas infinitas posições e deseja que os outros tenham a mesma experiência, especialmente as crianças. E ele, sorridente, repete sempre o moto: “Música é vida espiritual. E quem gosta de música nunca está sozinho...” Faça uma viagem. Transporte-se para os mais maravilhosos teatros do mundo. Ouça as orquestras mais famosas e os melhores intérpretes. “Quem tem medo da música clássica?” vai ao ar pela TV Senado aos sábados às 10 e 18 horas. Aos domingos: 10, 18 e 24 horas.

 O plantador de jardins: Contaram-me de um homem que, cansado com a cidade, resolveu mudar-se para a região montanhosa onde vivera quando menino. Tinha saudade das matas! Mas qual não foi a sua tristeza ao ver que os homens, com seus machados e serras haviam cortado as árvores. As encostas das montanhas estavam agora peladas e tristes, sem pássaros, sem borboletas, e os antigos riachinhos, sem as matas que os protegessem, haviam secado. Pois ele disse para si mesmo: “Essa será a minha missão, pelo resto da minha vida: sairei todos os dias com um saco de sementes das árvores que aqui havia e irei pelas encostas nuas plantando de novo. Se, de cada dez sementes que eu plantar uma vingar, estarei recompensado. E assim ele fez. Viveu mais dez anos. Morreu feliz! Da janela de sua casinha ele olhava para as montanhas – e ele parecia vê-las sorrir, quem sabe cantar de felicidade! As árvores que ele semeara estavam crescendo, os pássaros haviam voltado, os bichos estavam de volta. Existirá maneira mais linda de morrer? Contei essa estória para as crianças de Caldas, município de Minas, onde está Pocinhos do Rio Verde. Em tempos idos aquela região foi coberta de araucárias, os pinheiros do Paraná. Onde estão os milhões de pinheiros do Paraná que formavam florestas? A ganância e a falta de amor pela terra os transformaram em dinheiro e tristes pastos sem árvores. Contei e sugeri que elas, crianças, como parte de suas atividades escolares, deveriam plantar um pinhão num saquinho, regá-lo, e cuidar da mudinha, até que ela estivesse no tamanho certo. Chegaria então o dia em que todas elas, com suas professoras, seus pais e todo mundo que quisesse, iriam plantá-las nos campos nus. Sugiro que as pessoas religiosas, ao invés de prometerem sacrifícios e repetições de rezas a Deus – Deus não gosta de sacrifícios e quanto às rezas, sempre as mesmas, ele já as sabe de cor; não precisando de nossas repetições – bem que poderiam prometer plantar árvores... Acho que Deus, Jardineiro Supremo, haveria de aprovar. Acho que isso teria de ser atividade obrigatória em toda escola...

 Não existe ideal político mais bonito que a Democracia! Porque ele se baseia na idéia de que o povo tem o direito de decidir sobre os rumos desse barco em que navegamos, e que se chama país! É preciso cuidar dele porque há suspeitas de que seu casco esteja furado... Os partidos políticos são as várias tripulações que disputam o controle do barco. O problema é que todas as tripulações dizem a mesma coisa. Todas prometem consertar os furos do barco, todas prometem navegar na direção do mesmo porto! E é o povo que deverá escolher a tripulação que vai cuidar do barco e fazê-lo navegar na direção do porto prometido. Se o povo escolher a tripulação errada, ai de nós: barco furado, naufragado, o povão se afogando... O que os partidos estão dizendo não faz diferença, porque todos prometem a mesma coisa. A coisa se complica quando a gente examina a composição das tribulações. Meus Deus! Que lapso freudiano acabo de fazer! Minha cabeça queria escrever “tripulação” mas meus dedos escreveram “tribulação”... Com quem estará a verdade? Com a cabeça ou com os dedos? O futuro dirá... O fato é que se consumam alianças que se acreditavam impossíveis: lobos pastando grama com cordeiros, gaviões chocando ovos de rolinhas, antigos piratas abraçados a pacíficos navegantes... Coisa complicada é a Democracia, fácil de ser louvada, difícil de ser executada. No final das contas o ideal da democracia entra pelo esgoto. O fato é que os eleitores nem sabem o que está acontecendo e nem sabem quem é quem. O que eles sabem são as montagens que aparecem na televisão, produzidas segundo a psicologia das massas, a mesma que se usa para vender cerveja, sabão em pó e absorventes higiênicos. Aquilo que o povo sabe é o que as imagens produzidas mostram. O resultado das eleições vai ser, na realidade, a entrega do “Oscar” ao melhor filme: ganha o melhor ator, o melhor roteiro, o melhor diretor... Cumpre-se o dito por Maquiavel: o que importa na política não é que o governante seja justo, mas que ele pareça ser justo.

(Correio Popular, 04/08/2002)