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Se eu fosse redator chefe, essa seria a
manchete do meu jornal, na 2a. feira passada: “Povo
unido ri e chora, esquecidas as diferenças.“ Foi isso
que me emocionou. Não foi o Penta. O “Penta“ não
passa de um lindo fogo de artifício que ilumina o céu
por alguns segundos. Mas a alegria do povo, por coisa tão
efêmera, isso me comove.
Entusiasmo ecumênico maior eu nunca vi. Católicos,
evangélicos, candomblê, umbanda, protestantes e
quantas religiões haja, todas, cada uma a seu modo,
acendiam velas aos seus deuses, primeiro pedindo ajuda,
e depois, ao final, por pura alegria... Não sei se os
deuses ligam para essa tolice humana chamada futebol.
Pois não é uma tolice? Uma brincadeira? Alegria porque
uma bola passou uma linha branca? Que diferença na vida
isso faz? Nenhuma. Mas o fato é que nós nos comovemos
com tolices assim. Não me peçam explicações...
Talvez os deuses liguem sim. Se eles forem do jeito como
imagino eles se comovem com as emoções dos tolos corações
dos seres humanos.
As emoções, riso e choro misturados, estão
guardadas na alma do povo, à espera. Quando a ocasião
chega elas se incendeiam como fogos de artifício, sobem
aos céus assobiando e explodem em chuvas de estrelas.
Os fogos de artifício se parecem com a alma... Gostaríamos
de morrer daquele jeito, naquela exibição de potência,
subindo aos céus assobiando, para terminar num orgasmo
de cores que ejacula jatos de prata, fogo, estrelas e
cometas...
O que o Chico disse na Banda se aplica
direitinho:
“A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor...“
O velho fraco, a moça feia, o faroleiro, a moça
triste, o homem sério, a meninada, todo mundo parou pra
ver “a banda passar
cantando coisas de amor...“
Foi isso que aconteceu.
Uma coisa eu não entendo, acho que nem a
psicologia e nem a psicanálise entendem: Como explicar
esse fato incrível, que essa queima linda e efêmera de
fogos de artifício possa provocar tanto entusiasmo nas
pessoas e não haja entusiasmo que se lhe compare quando
o que está em jogo são as questões sérias da vida
real? Que causa provoca entusiasmo semelhante? A
preservação da natureza? A educação? A luta política
por uma sociedade mais feliz? A luta contra o crime?
Onde se encontra a emoção do futebol? Será
na sua beleza? Sim, é bom ver uma partida que se parece
com um balê. Mas esse espetáculo coreográfico não
faz o torcedor feliz. Uma partida que termina zero a
zero é um tédio. O grito vem quando o gol acontece. É
no gol que mora a alegria e... o sofrimento... A alegria
do torcedor cujo time fez o gol é simétrica do
sofrimento do torcedor do time que sofreu o gol. Cada
gol que se faz é uma afirmação de potência enquanto
cada gol que se leva é uma afirmação de impotência.
E o gol é, fundamentalmente, um ato sádico. Um
estupro. Um gol é um time que enfia a sua bola no
buraco do outro – dolorosamente - embora o outro tenha
feito tudo para impedir que isso acontecesse.
A emoção do futebol, suas alegrias e
tristezas, vêm do fato de que futebol é guerra. Uma
copa do mundo é uma guerra estilizada entre muitos países.
Daí a importância das bandeiras e dos hinos nacionais.
Quem está em campo é um país em guerra contra um
inimigo. A seleção são seus melhores heróis
guerreiros, como na guerra de Tróia. O campeão é o
vencedor da guerra. Os outros são os vencidos. Medalha
de prata não tem graça. O vice-campeão é também um
vencido.
O povo unido, esquecidas as diferenças,
esquecidos os partidos políticos, esquecidas a crenças
religiosas: todos sentindo igual, todos cantando igual,
todos gritando ao mesmo tempo, uma única bandeira. O
entusiasmo do futebol provoca a união. Essa unanimidade
de sentimentos e ações é característica dos tempos
de guerra. Diante de um inimigo comum que ameaça, os
conflitos internos perdem o seu sentido. As esquerdas
argentinas, inimigas da ditadura militar, se esqueceram
da sua inimizade e se uniram ao povo e aos militares nas
praças, quando as ilhas Malvinas foram invadidas. A
guerra faz esse milagre: ela transforma as inimizades
internas em amizade. Campeonato mundial de futebol é a
guerra que dissolve todas as oposições internas.
Imagino que até os inimigos do Felipão que o
hostilizaram por causa do Romário, ao ver a seleção
em campo se esqueceram da sua raiva, torceram por ela e
gritaram a cada gol.
Mas o fim da Banda é triste.
“Mas para meu desencanto
o que era doce acabou,
tudo tomou seu lugar
depois que a Copa acabou...“
Terminada a guerra contra o grande inimigo, começam os
conflitos entre os irmãos. Passada a Copa os torcedores
tiram a camisa verde-amarela e cada um veste a camisa do
seu time. Retorna, então, a guerra antiga...
Diante do perigo do gato os ratos se unem e
sonham sonhos de fraternidade em que todos repartirão
socialisticamente o queijo inacessível, guardado pelo
gato. Morto o gato os ratos se esquecem da solidariedade
socialista e começam a brigar entre si por causa do
queijo.
O futebol é um jogo que ensina muito sobre as
relações humanas porque todos os relacionamentos
humanos são jogos. Faz tempo eu escrevi que as relações
de um casal podem ser compreendidas segundo o modelo do
jogo de tênis e o jogo do frescobol. O tênis: dois
jogadores, duas raquetes, uma bola, o objetivo é tirar
o outro da jogada, um ganha e o outro perde, um ri e o
outro chora. Quem perde não fica feliz. Por isso quem
perde sempre acaba por procurar um outro parceiro...
Casamentos tipo tênis sempre terminam mal. O frescobol:
dois jogadores, duas raquetes, uma bola, o objetivo é
manter o outro na jogada, ou os dois ganham ou os dois
perdem, ou os dois riem juntos ou os dois choram juntos.
Nas duas possibilidades eles continuam amigos.
Casamentos tipo frescobol são duradouros. Assim também
acontece com o jogo de peteca: todos, na roda, batem a
peteca para o alto, de forma a permitir que o
companheiro bata também. Daí a regra: “não deixar
cair a peteca...“
O filme Uma mente brilhante conta a história
de John Nash, um matemático que ganhou o prêmio Nobel
por haver colocado em fórmulas matemáticas um certo
tipo de jogo econômico do tipo frescobol, isso é, um
jogo baseado nas relações de cooperação e alianças,
por oposição ao conflito e à destruição.
O futebol é uma combinação de tênis e
frescobol. Em relação ao time adversário o futebol é
tênis, guerra, o adversário tem de ser derrotado. Se
eu não o derrotar, ele me derrotará: ou um ou outro...
Mas, para que o meu time derrote o adversário,
é preciso que os seus jogadores joguem, entre si, o
jogo do frescobol. Há de haver cooperação,
entrosamento, harmonia. Ou todos ganham ou ninguém
ganha: “um e outro“...
Pode acontecer – e frequentemente acontece
– que um jogador seja roído pelo rato chamado
“inveja“. E a inveja não consegue jogar o jogo da
cooperação. A inveja instaura, então, o jogo da
“sabotagem“. O objetivo do jogo da sabotagem é
destruir o companheiro que me causa inveja (ele joga
melhor, é mais bonito, é mais amado...) Assim, ao invés
de lhe passar a bola para que ele faça o gol – ele
está livre, sozinho diante do goleiro! – o invejoso
prefere driblar os três adversários que se encontram
à sua frente para ele fazer o gol e se transformar em
herói. O resultado: ele perde a bola e o seu time perde
a partida. O time perdeu a partida mas o invejoso está
feliz: ele não deixou que o outro, que ele inveja,
fizesse o gol... A esse tipo de jogador eu dou o nome de
“sabotador“.
Há um ditado nas Sagradas Escrituras que diz:
“Basta uma mosca para pôr a perder o pote de mel“.
Eu digo: basta um sabotador para derrotar o próprio
time. Nem precisa do adversário...
Os empresários e todos aqueles que lidam com
grupos humanos deveriam estudar o futebol. Teriam muito
a aprender. Toda empresa é um futebol, todo agrupamento
humano é um futebol. Conselho: olho nos invejosos! Olho
nos sabotadores. Não deixem que a mosca estrague o pote
de mel... Se houver um sabotador, pode estar certo, sua
empresa não ganha a taça...
***
A propósito do sabotador, sugiro uma leitura
deliciosa: o número do Asterix que leva o nome de Cizânia.
É sobre um sabotador verde que tem o nome de Tulius
Detritus. Se você não está familiarizado com o
Asterix, trate de familiarizar-se enquanto é tempo. No
Juízo Final lhe será perguntado: “Leu o Asterix?“
Outro número do Asterix que deveria ser lido por todos
os que trabalham em empresas é o Obelix & Cia.
(Correio Popular, 07/07/2002)

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