Quarto de badulaques (X) 



* Para aperfeiçoar o casamento e torná-lo mais feliz, nossos legisladores criaram o casamento com separação de bens. Mas falta ainda um passo para que a felicidade dos cônjuges seja completa: a criação do casamento com separação de males.

* Meu pai me contou que, quando era menino, no início do século passado, guardava seus brinquedos num saco. Os brinquedos que meu pai menino guardava no saco: latas vazias, pedaços de barbante, sementes, sabugos de milho, botões, pedaços de pau, pedrinhas e todo tipo de coisas inúteis. Quando alguém aparecia para visitar minha avó ele pegava o saco de brinquedos e o esvaziava diante da visita. Certamente achava seus brinquedos interessantíssimos! A mãe dele ficava furiosa e lhe aplicava o devido corretivo de chineladas depois que a visita ia embora. A chinela era um dos itens favoritos que minha avó guardava no saco de brinquedos dela. As crianças continuam as mesmas. Ainda gostam de mostrar brinquedos. A gente cresce e continua criança. “Em todo homem há uma criança que deseja brincar...“ (Nietzsche). E todos temos o nosso saco de brinquedos. A fala somos nós abrindo o saco e despejando brinquedos... O saco de brinquedos: isso é de fundamental importância, quando o amor está em jogo. A paixão acontece quando, fascinados por uma imagem – pode ser um jeito de olhar, um jeito de sorrir, um jeito de falar... - imaginamos que dentro daquele corpo de imagem fascinante estão guardados os brinquedos com que gostamos de brincar. O que vemos é a imagem da pessoa amada, mas o que imaginamos são os brinquedos que julgamos guardados dentro dela. A imagem, sozinha, logo se transforma em monotonia. Ninguém consegue ficar o tempo todo contemplando a pessoa amada, por bonita que seja. O que alimenta a paixão não é a imagem mas os brinquedos que ela guarda... Hermann Hesse dizia que a pessoa objeto do nosso amor é apenas um símbolo, uma lagoa onde o rosto da “Outra“ aparece refletido. Que Outra? Aquela que imaginamos. Veja esses versos de Fernando Pessoa. Mas leia bem devagar...

“Amamos sempre, no que temos,
O que não temos quando amamos.
O barco pára, largo os remos
E, um a outro, as mãos nos damos.
A quem dou as mãos? À Outra.
Teus beijos são de mel de boca,
São os que sempre pensei dar,
E agora a minha boca toca
A boca que eu sonhei beijar.
De quem é a boca? Da Outra...“

E assim vai. Mas chega um tempo em que nos cansamos de dar as mãos, nos cansamos de olhar, nos cansamos de beijar. E dizemos: “Vamos brincar?“ Hora de abrir o saco, hora da verdade... Os brinquedos espalhados pelo chão, descobrimos que não eram os brinquedos que imaginávamos. O saco era lindo! E a beleza do saco nos enganou. Uma relação amorosa, para ser duradoura, tem de ser uma relação de brincar. Ela dura enquanto os dois brincam. Um gosta de brincar com bilboquê ou de ouvir música sertaneja, enquanto o outro detesta bilboquê e prefere ouvir música clássica... Aí o jeito é brincar sozinho. O Outro, quando aparece, é um desmancha-prazeres... Pergunta que os parceiros deveriam se fazer: “Temos prazer em brincar juntos? Ficamos felizes só em pensar que vamos brincar juntos?“ Se a resposta for negativa é melhor ir procurar outro saco...

* Na Escola da Ponte havia um computador com dois arquivos: “Acho Bem“ e “Acho Mal“. Qualquer pessoa podia escrever neles os acontecimentos que davam alegria e os acontecimentos que davam tristeza. Sugestão: que os jornais sejam divididos em duas seções. Uma de nome “Acho Bem“, em cores alegres. Outra, de nome “Acho Mal“, em cores sinistras. Assim, o leitor poderia escolher o seu menu: ou comidas de cheiro bom ou pratos em decomposição. Coisa que não entendo é a preferência do povo por notícias putrefatas. “Menino de onze anos trabalha como engraxate para sustentar a avó paralítica“: isso jamais seria manchete. “Menino de onze anos mata a avó paralítica para roubar dinheiro“: isso seria notícia que todos leriam avidamente. Um filósofo chamado Feuerbach disse que nós somos o que comemos. De tanto comer comida suína chegamos a nos parecer com os porcos. Meu amigo Brandão, na época do escândalo dos “anões do orçamento“, há muito esquecidos, se queixava: “Lendo os jornais a gente tem a impressão de que o Brasil é formado por bandidos. Mas há coisas lindas acontecendo de forma silenciosa e invisível, pessoas que vivem por ideais altos e lutam pela justiça e pela verdade...“ Será que nós, humanos, sofremos de uma doença inata, um pecado original que nos faz preferir o pútrido, o escabroso, o indecente, o violento? Os homens da mídia vivem repetindo que o dever dos jornais e da televisão é dar a “notícia“. Mas “notícias“, há milhares delas espalhadas pelo mundo. O que me espanta é o critério que se usa para pinçar, das milhares que há, aquelas notícias que irão ser servidas aos leitores como comida. É preciso reconhecer que os jornais e a televisão são os fatores mais importantes na educação do povo. Jornais e televisão têm a missão ética de contribuir para que o povo seja melhor. Se o povo só se alimentar de comidas pútridas ele passará a gostar do pútrido. E, ao final, ficará também pútrido.

* Acho Bem: “Delegacia de polícia“: que imagens esse nome evoca em você? Eu, desde pequeno, tive medo de delegacias e de policiais. Sabia que eles eram homens de armas e violência. Nas minhas fantasias de menino eu imaginava que se eu entrasse na delegacia eles me trancafiariam. Mesmo depois de grande continuei a ter medo. As delegacias nunca me foram lugares agradáveis, nunca me provocaram sentimentos de segurança. Imagine agora uma delegacia de polícia em que tudo está limpo, cuidado, novo... Os espaços são amplos e iluminados... Há jardins bem cuidados... Uma delegacia que é visitada pelas crianças... Pois deveria ser assim! Você sabe que o corpo, para ter saúde, depende de um sistema policial interno, mecanismos que identificam os inimigos invasores e lhes dão combate. A febre é o calor do combate entre polícia e os invasores do corpo. Assim, na ordem biológica, polícia e corpo são amigos. A polícia morre para que o corpo viva. O pus de uma ferida são os mortos em combate. É possível imaginar uma polícia que compreenda que sua missão é não somente combater os criminosos mas também, e principalmente, trabalhar junto à comunidade que a cerca – o corpo - para que ela se sinta confiante e colabore para que a saúde – condição para a vida – seja mais forte que a doença – começo da morte. Delegacia de polícia é lugar para onde se dirigem as “vítimas“. Vão lá porque foram feridas, ameaçadas, humilhadas. E, chegando lá, ao seu sofrimento se acrescenta o medo... Pode ser que você não acredite: há aqui em Campinas uma delegacia de polícia estranha: faz aquilo que normalmente os policiais fazem, isto é, combater o crime. Mas se organizou também para “cuidar“ das vítimas. Para isso ela trabalha de forma multidisciplinar, com a cooperação de universidades, organizações de profissionais e órgãos públicos. Lá você vai encontrar psicólogos, assistentes sociais, advogados, policiais, vítimas, ligados pela filosofia do “Projeto Abraço“. Já imaginou isso? Uma polícia abraçante? O que mais me surpreendeu na visita que fiz ao 5º DP foi ver que o delegado, o Dr. Fernando Mário Costa e Trigueiros, é um amante de música erudita e tem uma coleção invejável de CDs que ele e seus colaboradores ouvem enquanto trabalham. Essa notícia sobre o 5º DP eu colocaria no meu “Acho Bem“...

* O que você faz bem, pode fazer bem para alguém. Seja um voluntário! Procure a FEAC. Tel. 3794-3519.

(Correio Popular, 05/05/2002)