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- Sobre se há vida depois da morte: Nesta semana,
quando as almas piedosas fazem jejum e meditam sobre a
paixão e a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo,
e as almas não piedosas se entregam a rituais gastronômicos
de devoração de chocolate, achei apropriado informar
os meus leitores sobre aquilo que sinto e penso acerca
da vida após a morte. Meu coração está tranquilo e não
há dúvidas que o perturbem porque são duas, apenas
duas, as possibilidades à nossa frente. Primeira
possibilidade: há vida após a morte. Estou tranquilo
porque, se há vida após a morte, é porque há um
Poder Misterioso que a garante, poder esse a que alguns
dão o nome de Deus, sem saber o que ele seja. No caso
de haver esse Poder Misterioso, é minha tola convicção
(todas as convicções são tolas) de que ele é só
amor. Não estou sozinho nessa crença, tendo a meu
favor o testemunho de profetas, místicos e poetas.
Sendo só amor, é claro que a vida após a morte será
uma realização do amor. A idéia de que o Poder
Misterioso é um torturador que mantém, para prazer próprio,
uma câmara de torturas sem fim chamada inferno, é uma
calúnia espalhada pelo seu inimigo. Mas, o que é a
realização do amor? O amor se realiza quando recebemos
de volta as coisas que amamos e perdemos. É por isso
que sentimos saudade. A saudade é a nossa alma dizendo
para onde ela quer voltar. Assim, em havendo uma vida após
a morte, estou certo de que voltarei a subir em
jabuticabeiras, a brincar em riachinhos, a balançar no
balanço amarrado no galho da mangueira, a comer
ora-pro-nobis refogado com carne de porco, angu, feijão
e pimenta, a fazer virar a locomotiva maria-fumaça no
virador, a empinar papagaios em tardes de céu azul, a
catar flores de paineira para com elas fazer
soldadinhos... Que mais posso desejar? Como disse a
Maria Alice, deve haver tantos céus quantas pessoas há.
Meu céu não é igual ao seu. Nem poderia ser. Nossas
saudades são diferentes. Em torno de cada pessoa
constitui-se um universo. Dizem os astrônomos que há
muitos bilhões de anos (para mim não faz a menor
diferença se são bilhões ou milhões, porque esses números
são impensáveis) houve um estouro gigantesco, o
Big-Bang, a partir do qual foram projetados no espaço
sem fim os astros celestes que hoje formam o universo
que conhecemos. Nada impede que haja infinitos outros,
além dos nossos telescópios. Pois eu acho que não foi
só isso: todos nós fomos também projetados no espaço
sem fim, cada um de nós é uma estrela em volta da qual
se forma uma nebulosa espiralada... Essa é a primeira e
deliciosa possibilidade. Segunda possibilidade: não há
vida após a morte. Nesse caso a morte significa que vou
voltar ao lugar onde estive por todo o tempo infinito
passado, inclusive no Big-Bang. Esse período de bilhões
de anos não me foi doloroso, não me fez sofrer, e nem
demorou a passar. E poderei, então, imaginar que o
evento maravilhoso do meu nascimento a partir desse caos
indefinido poderá se repetir daqui a um bilhão de
anos, mas não sofrerei e nem ficarei impaciente, porque
estarei mergulhado no sono profundo da não existência.
Assim, por que ter medo? Medo eu não tenho. Tenho é
tristeza porque esse mundo é muito bom e quereria
continuar a fazer minhas coisas por aqui. Pelo menos por
agora é isso que sinto. Pode ser que eu venha a mudar
de idéia. Fernando Pessoa escreveu um poema que vai
assim: “Tenho dó das estrelas, luzindo há tanto
tempo, há tanto tempo... Tenho dó delas. Não haverá
um cansaço das coisas, de todas as coisas, um cansaço
de existir, de ser, só de ser, o ser triste brilhar, ou
sorrir... Não haverá, enfim, para as coisas que são,
não a morte, mas sim uma outra espécie de fim, ou uma
grande razão – qualquer coisa assim como um perdão?”
Pode ser que eu venha a sentir esse cansaço e venha a
desejar um fim. Mas ainda não me sinto cansado, agora.
- Sobre a poesia: Somente tardiamente descobri a poesia,
depois de haver virado os 40. Que pena! Quanto tempo
perdido! A poesia é uma das minhas maiores fontes de
alegria e sabedoria. Como disse Bachelard, “os poetas
nos dão uma grande alegria de palavras...“ Aí eu lhe
pergunto: Você lê poesia? Se não lê, trate de ler.
Troque os tolos programas de televisão pela poesia. Se
você me disser que não entende poesia eu baterei
palmas: Que bom! Somente os tolos pensam entender a
poesia! Somente os intérpretes têm a pretensão de vir
a entender a poesia! A poesia não é para ser
entendida. Ela é para ser vista. Leia o poema e trate
de ver o que ele pinta! Você precisa entender um luar?
Uma nuvem? Uma árvore? O mar? Basta ver. Ver, sem
entender, é uma felicidade! Assim, leia a poesia para
que os seus olhos sejam abertos. Dicas: Cecília
Meireles, Adélia Prado, Alberto Caeiro, Mário
Quintana, Lya Luft, Maria Antônia de Oliveira. Leia
poesia para ver melhor. Leia poesia para ficar
tranquilo. Leia poesia para ficar mais bonito. Leia
poesia para aprender a ouvir. Você já considerou a
possibilidade de que você, talvez, fale demais?
- Sobre os vestibulares: Se eu fizer os exames
vestibulares, não passarei. E se o novo reitor da
UNICAMP fizer os vestibulares, não passará. Se o
Ministro da Educação fizer os vestibulares, não
passará. Se os professores das universidades fizerem os
vestibulares, não passarão. Se os professores dos
cursinhos que preparam os alunos para passar nos
vestibulares fizerem os vestibulares, não passarão
(cada professor só passará na disciplina em que é
especialista...). Se aqueles que preparam as questões
para os vestibulares fizerem os vestibulares, não
passarão. Então me digam, por favor: por que é que os
jovens adolescentes têm de passar no vestibular? Os
vestibulares são um desperdício de tempo, de dinheiro,
de vida e de inteligência. Passados os exames, a memória
(inteligente) se encarrega de esquecer tudo. A memória
não carrega peso inútil.
- Sugestão prática para resolver nosso problema
penitenciário: Leio que o “Bóris“, criminoso da
quadrilha do Andinho, fugiu da penitenciária. Parece
que os criminosos fogem das penitenciárias quando
querem. É claro que é preciso pôr um fim a esse
estado de coisas. Aí eu tive uma idéia brilhante: é
normal que os governos estabeleçam convênios de
cooperação: um ajuda o outro. Acontece que a
penitenciaria de Alcatraz, a mais famosa de todas, foi
desativada. Ele está localizada num local aprazível,
charmoso, cobiçado por turistas, uma ilha na baía de
S. Francisco com vista para a Golden Gate Bridge, se não
me engano. Pensei: que desperdício! Aquela fortaleza
magnífica, vazia. Aí pensei que o governo brasileiro
poderia fazer um convênio com o governo Bush: em troca
da nossa cooperação no combate ao terrorismo, o
governo americano nos alugaria Alcatraz, para o combate
ao crime. Nada mais prático. Pois é certo que os
criminosos se sentiriam felizes por estar num lugar tão
privilegiado, tão famoso. Não quereriam fugir.
Viveriam a gozar as delícias daquele condomínio
cercado por mar e poderiam se dedicar a atividades que
eventualmente comoveriam o seu coração e os tornariam
sábios e ordeiros... É preciso notar, também, que
sobre aquela região paira a possibilidade de um
terremoto gigantesco que levaria tudo para o fundo do
oceano.
- “O ataque de uma borboleta agrada mais que os beijos
de um cavalo.“
- “Ô-vida, meu Deus. Pior é que eu já perdi a inocência
para os partidos, então quando falam em ‘os
estudantes‘ ou ‘as donas de casa‘ eu saio no meio
do discurso, sejam quem for, porque não acredito que a
humanidade se salvará por uma de suas classes. Não
quero ser governada por operários enfatuados,
deslumbrados por terem a chave do cofre. Quero que me
governe um homem bom e justo, que cuide para que
chegando a noite todo mundo vá dormir cedo e cansado
com tanto trabalho que tinha pra fazer e foi feito. Nem
me importa se quem manda é rei vindo em linha direta de
Salomão...“ Dito pela Adélia Prado. Os poetas nunca
se deram bem com a política, como é o caso do Guimarães
Rosa e do Camus.
(Correio Popular, 31/03/2002)

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