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- Política: Uma aliança política que jamais
aconteceria em outros tempos arrancou das cavernas da
minha memória uma piadinha do Reader’s Digest de que
me havia esquecido. É assim. Havia, numa cidadezinha
dos Estados Unidos, uma Igreja Batista que se gabava do
seu rigor no combate às bebidas alcoólicas,
sacramentos do Inferno. Havia, nessa mesma cidade, uma
cervejaria enorme que fabricava milhares de litros de
cerveja e era fonte de empregos, de riqueza, de alegrias
e bebedeiras. Claro que a dita Igreja Batista tinha,
como missão, combater a Cervejaria: era a luta do Santo
Guerreiro contra o Dragão da Maldade. Aconteceu,
entretanto, que por razões inexplicáveis, a Cervejaria
fez uma doação de 500.000 dólares à Igreja. O que
provocou uma enorme confusão entre os fiéis.
“Dinheiro do Demônio“, diziam os mais convictos;
“Não pode ser aceito.“ Se fosse uma doação de 100
dólares a decisão seria fácil. Os 100 dólares seriam
recusados. Mas 500.000 dólares é quantia difícil de
ser recusada. Confesso que eu mesmo estremeceria...
Convocou-se, então, uma assembléia para deliberar
sobre o assunto. Nas Igrejas Batistas as bases são
sempre consultadas antes de se tomar qualquer decisão.
Depois de inflamadas discussões que se prolongaram pela
madrugada, finalmente um dos membros da Igreja fez uma
proposta que resolveu o conflito e foi aprovada por
unanimidade: “A 1ª Igreja Batista da cidade de
Beerland resolve aceitar a doação de 500.000 dólares
feita pela Cervejaria Drinkjoy na firme convicção de
que o Diabo ficará furioso quando souber que o seu
dinheiro vai ser usado para a glória de Deus.“ Pois
é: todas as alianças são possíveis e aceitáveis
desde que se encontrem as palavras explicativas
adequadas. Pois quem diria que o Partido Brasileiro do
Reino dos Homens iria um dia fazer aliança com o
Partido Universal do Reino de Deus? Esses dois partidos
representam ideais irreconciliáveis, como os ideais da
Igreja Batista e da Cervejaria. Karl Mannheim é um dos
meus sociólogos favoritos. Tinha imaginação. Era
inteligente. Não precisava se valer de estatísticas
para pensar. (Hoje, nas universidades, a inteligência
foi substituída pelas estatísticas. Parece que, no
mundo da ciência, só são aceitas as afirmações que
forem derivadas de tabelas estatísticas. Já ouvi uma
discussão sobre quantas tabelas estatísticas uma tese
de mestrado deve ter, para ser aceita...). Pois há mais
de 50 anos Mannheim predisse o desaparecimento das
utopias, na política. O que são utopias? Utopias são
fantasias de uma sociedade melhor que servem para guiar
a ação. Minha utopia, por exemplo, tem a forma de um
jardim. Contra as utopias há a sentença dos realistas
que as recusam sob a alegação de serem irrealizáveis.
Mas o Mário Quintana responde:
“Se as coisas são inatingíveis...ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!”
Mannheim vislumbrou um momento em que, com o abandono
das utopias, os políticos passariam a se guiar por
interesses pragmáticos de poder, que podem ser ou
500.000 dólares ou 500.000 votos... Quando a gente vê
São Jorge e o Dragão estabelecendo alianças é porque
eles abandonaram os seus sonhos. O que se tem é um
produto híbrido, um São Jorge com rabo de Dragão, ou
um Dragão com cara de São Jorge. O livrinho do Orwell Revolução
dos Bichos (Animal Farm, em inglês) fala
sobre isso. É sobre uma revolução que os bichos,
liderados pelos porcos, fizeram na fazenda para se
livrarem do jugo do fazendeiro que os explorava em benefício
próprio. Os porcos tinham razões de sobra para serem
os líderes da revolução. Eram os animais mais
sacrificados. Eram engordados para se transformarem em
linguiça, torresmo, toucinho, lombo, leitoa assada,
pernil assado... Mas, no decorrer do processo revolucionário
importantes transformações aconteceram. Pois, como os
próprios porcos diziam, o processo é histórico, dialético,
não é rígido, não é linear... E os porcos começaram
a ver que o fazendeiro e seus empregados não eram tão
ruins assim. Havia interesses comuns que permitiam que
eles fizessem proveitosas alianças. A última cena do
livrinho é cômica e terrível: a bicharada, do lado de
fora, olha através da janela, para dentro da casa do
fazendeiro. Lá estava acontecendo uma reunião festiva
para celebrar um novo dia político de cooperação
entre fazendeiros e porcos. E os bichos, perplexos,
olhavam para o fazendeiro, olhavam para os porcos, e não
conseguiam saber quem era quem: o fazendeiro tinha
focinho de porco e os porcos fumavam charutos como o
fazendeiro...
- Dia Internacional das Flores: Depois de passar o dia
confinado entre 4 paredes, trabalhando, gosto de ir até
a Floricultura Floríssima e ficar lá assentado por uma
meia hora, vendo as carpas nadando no lago, as pombinhas
que chegam perto para comer farelo, as plantas exóticas
e as muitas invenções do Paulinho, artista da
natureza. Você já imaginou? Um colar de fios trançados
que tem, na extremidade, um receptáculo minúsculo com
uma mini-bromélia de verdade, viva, e que vai continuar
viva? Pois, há uns dias, vi lá uma faixa enorme com os
dizeres: “Dia 8 de março – Dia Internacional das
Flores”. Flores são objetos estranhos: podem revelar
uma irritante mediocridade ou se abrir para universos
sem fim. As flores são, frequentemente, presentes de última
hora, de uma pessoa que se esqueceu do aniversário. Um
buquê de rosas é sempre um presente delicado. Eu amo
as rosas. Mas sempre prefiro uma única rosa a um buquê.
Por razões do Principezinho que amava uma rosa, a sua
rosa, de quem cuidava diariamente e que temia que o
carneiro a comesse, na sua ausência. Mas fico irritado
porque sei que, ao receber um buque de rosas, todas as
pessoas vão dizer a mesma coisa: “Que lindas!”
Vendo a notícia sobre o Dia Internacional das Flores
meu pensamento começou a vagabundear e começaram a vir
à minha memória coisas que místicos e poetas disseram
sobre elas. Também os místicos e poetas têm a sua
terapia floral. Só que suas flores, para serem remédios,
não devem ser bebidos em gotas. Em gotas coloridas elas
já não são mais flores... As flores, para terem
poderes curativos, devem ser contempladas
cuidadosamente, devagar, com o mesmo encantamento com
que se contempla o corpo nu da mulher amada... Jesus,
por exemplo, dizia que o remédio para a ansiedade é
olhar (note bem: olhar...) os lírios dos campos,
aqueles que nascem nos pastos sem que ninguém os tenha
plantado. O nome em inglês é Morning Glory –
Glória da manhã, trepadeira, parente da ipomeia. Para
mim as azuis claro são as mais delicadas. Em 6 horas, não
mais que 6 horas, elas abrem, soltam o seu azul,
fecham-se e morrem. A elas eu dedicaria um verso da Cecília
Meireles, do seu poema Sugestão:
“Sede assim – qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
Flor que se cumpre, sem pergunta...“
Cumprir-se, sem fazer perguntas: que coisa mais
comovente! E nós, tolos, que nunca chegamos a nos
cumprir, por termos a necessidade de ter todas as
respostas primeiro. Walt Whitmann dizia que uma Morning
Glory pela manhã, na sua janela, lhe dava mais
felicidade e sabedoria que todos os livros de filosofia.
Alberto Caeiro, cuja poesia tem a clara intenção de
enfeitiçar os nossos olhos para que voltemos a ver como
as crianças viam, dizia que o olhar tem de ser nítido
como um girassol. Ah! Os girassóis de van Gogh! E é
assim que Ricardo Reis termina o seu mais belo poema:
“Colhamos flores.
Molhemos leves
as nossas mãos
Nos rio calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o Sol,
Da vida iremos
Tranquilo, tendo
Nem o remorso
De ter vivido...“
Quando houver oportunidade falarei sobre outras coisas
que outros pensaram e fizeram, provocados pela simples
contemplação das flores. Você já se deu a essa
aventura?
(Correio Popular, 03/03/2002)

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