![]() |
|
![]() |
|
|
||
|
|
|
|
| Quarto de badulaques (LXXX) |
|
Mosaicos: Mosaicos são obras de arte. São feitos com cacos. Os cacos, em si, nada significam. Não têm beleza alguma. São peças de um quebra-cabeças. É preciso que um artista junte os cacos segundo o seu desejo. As Escrituras Sagradas são um livro cheio de cacos: poemas, estórias, mitos, pitadas de sabedoria, relatos de acontecimentos. Quem lê junta os cacos segundo manda o seu coração. Os mosaicos podem ser bonitos ou feios. Tudo depende do coração do artista. Como disse Jesus, o homem bom tira coisas boas do seu bom tesouro; o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro. Coração mau faz mosaico feio, coração bom faz mosaico bonito. Como sugeriu Bachelard, quem tem muitas vinganças a realizar faz mosaicos de infernos. Estou juntando os cacos de que mais gosto para fazer o meu mosaico. Há muitos outros mosaicos possíveis, diferente do meu. Cada religião é um mosaico, um jeito de ajuntar os cacos. Um dos meus cacos preferidos é esse poema do profeta Habacuque, um poema de esperança. O que ele escreveu há milênios pode ser repetido hoje, pensando na seca que seca do rio Amazonas e nos desvarios dos políticos em Brasília: “Embora a seca seque fontes e rios E os campos fiquem esturricados, E o gado morra de sede e fome, E as queimadas devorem os pastos E os machados transformem florestas verdes em desertos áridos, E os palácios estejam cheios de corruptos – A despeito disso minha alegria continuará a florir E farei poemas diante do Impossível.” (Habacuque 3:17-18. Paráfrase). Bom lugar para uma sepultura: O poeta R.S. Thomas, falando sobre o lugar que escolheria para a sua sepultura, disse o seguinte: “Ela deverá estar próxima à árvore da poesia, que é a eternidade vestida com as folhas verdes do tempo...” (“ It will be found somewhere within sight of the tree of poetry, that is eternity wearing the green leaves of time.” Os trinta e três nomes de Deus: De vez em quando perguntam-me se acredito em Deus. Mas é claro. Acredito mais que a maioria das pessoas. Tenho até trinta e três nomes para ele. Esses nomes foi a Margueritte Yourcenar que me contou. Ela foi uma escritora maravilhosa, autora do livro Memórias de Adriano, quem lê nunca mais esquece, quer ler de novo. Pois esses são os trinta e três nomes de Deus que ela me ensinou. É só falar o nome, ver na imaginação o que o nome diz, para que a alma se encha de uma alegria que só pode ser um pedaço de Deus... Mas é preciso ler bem devagarinho... 1.Mar da manhã. 2.Barulho da fonte nos rochedos sobre as paredes de pedra. 3.Vento do mar de noite, numa ilha... 4.Abelha. 5.Vôo triangular dos cisnes. 6. Cordeirinho recém-nascido.... 7.Mugido doce da vaca, mugido selvagem do touro. 8.Mugido paciente do boi. 9. Fogo vermelho no fogão. 10.Capim. 11.Perfume do capim. 12.Passarinho no céu. 13.Terra boa... 14.Garça que esperou toda a noite, meio gelada, e que vai matar sua fome no nascer do sol. 15. Peixinho que agoniza no papo da garça. 16. Mão que entra em contato com as coisas. 17.A pele, toda a superfície do corpo 18. O olhar e tudo o que ele olha. 19.As nove portas da percepção. 20.O torso humano. 21.O som de uma viola e de uma flauta indígena. 22.Um gole de uma bebida fria ou quente. 23.Pão. 24.As flores que saem da terra na primavera. 25.Sono na cama. 26. Um cego que canta e uma criança enferma. 27. Cavalo correndo livre. 28.A cadela e os cãezinhos. 29.Sol nascente sobre um lago gelado. 30.O relâmpago silencioso. 31. O trovão que estronda. 32.O silêncio entre dois amigos. 33.A voz que vem do leste, entra pela orelha direita e ensina uma canção...” Agradeço ao Carlos Brandão por haver me apresentado os trinta e três nomes de Deus da Margueritte. Não é preciso que sejam os seus. Faça a sua própria lista. Eu incluiria: Ouvir a sonata Apassionata de Beethoven. Sapos coaxando no charco. O canto do sabiá. Banho de cachoeira. A tela “Mulher lendo uma carta”, de Vermeer. O sorriso de uma criança. O sorriso de um velho. Balançar num balanço tocando com o pé as folhas da árvore... Morder uma jabuticaba... Todas essas coisas são os pedaços de Deus que conheço... Sim, acredito muito em Deus. A Arca de Noé: Por vezes, em minhas falas, conto aos meus ouvintes as perguntas que a crianças fazem, perguntas que revelam a sua inteligência. Porque a água fervendo amolece a cenoura e endurece o ovo? O que faz a terra girar? Quem inventou as palavras? Entre as perguntas se encontra essa, feita por uma criança: “Se na Arca de Noé estavam leões e tigres, por que eles não comeram as ovelhas e os coelhos?” Uma participante ficou angustiada com essa pergunta ímpia e, para esclarecer-me, enviou-me esse bilhete com a resposta ortodoxa: “Os leões não comiam cabritinhos porque estavam durante aquele período totalmente isentos de toda natureza selvagem que tinham. Durante os dias e as noites na arca, Noé e a sua família estavam responsáveis de cuidar dos animais, e Deus em sua sabedoria e amor fez com que todos os animais ficaram como que “temporariamente transformados”. Rubens, pelo pouco que te conheço, percebi que é muito inteligente.... Aconselho-te que procure uma Igreja Adventista do Sétimo Dia, e perceberá experimentando tudo o que Deus ainda não pode te mostrar. Beijos carinhosos.” Senti que sua pergunta era honesta e que ela se preocupava com a salvação da minha alma. Mas eu estou mais com a criança que com a resposta ortodoxa. E as perguntas me perturbam. Primeiro, acho extraordinário que os filhos de Noé tivessem acreditado. Hoje, em virtude da descrença, se eu anunciasse aos meus filhos que Deus me aparecera anunciando o fim do mundo por um dilúvio e dizendo que tínhamos de fazer uma arca, é certo que eles, com lágrimas nos olhos, me internariam numa instituição para velhos senis. Não sei se a Arca de Noé tinha espaço suficiente para todos os bichos, elefantes, girafas, ursos polares, avestruzes, hipopótamos, macacos, lagartos, cavalos, porcos, galinhas. Há de se considerar também a dificuldade logística de trazer todos esses animais e convencê-los a entrar na arca. Os ursos polares teriam de ser trazidos do ártico. As lhamas, do Peru. Por favor, não me julguem incrédulo. Tenho na minha sala de estar, num lugar de honra, uma magnífica tela “A Arca de Noé”, o patriarca barbudo e seus filhos e a bicharada em fila. Com certeza Noé falava a fala dos bichos e eles o obedeciam. Depois de todos lá dentro a arca foi fechada. Imaginem as toneladas de ração que deveriam estar na arca para que os bichos não morressem de fome! E as montanhas de fezes que não podiam ser jogadas para fora, porque a arca estava trancada. O cheiro era insuportável. A menos que Deus tivesse transformado o fedor em perfume. O trabalho diário de Noé e seus filhos, cuidando dos bichos, deveria ser gigantesco. Aí eu pergunto: Se os animais foram transformados temporariamente por Deus em seres pacíficos, por que Deus, todo poderoso, não fez uma transformação definitiva? Saídos da arca, os leões e tigres voltaram a ser carnívoros? Os cabritinhos e coelhos tiveram tempo de fugir? E se Deus pode fazer isso com os bichos, por que não o fez, definitivamente, com todos os homens, evitando assim o artifício cruel de matar todos por afogamento? Deixando de lado todas essas perguntas de uma razão ímpia, voltamos às delícias românticas da imaginação... Todos sabem quem é Babette, do filme, cozinheira feiticeira que transformava corações azedos e amargos em corações doces de crianças. Pois ela mora em Campinas e continua a fazer suas feitiçarias culinárias do restaurante Bem-Bom, lugar onde os amigos se encontram. É a da. Sônia...
|