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| Quarto de badulaques (LXXVIII) |
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Mulher com uma vela: Encontrei numa livraria de porão um cartão que me fascinou. O que se vê é uma jovem segurando uma vela sobre um fundo negro. É noite. A chama da vela está na horizontal, o que indica que há uma brisa soprando. A moça protege a chama com a sua mão. A luz da vela se filtra através se sua carne, que está translúcida. De onde estará vindo o vento? A tela não explica. Mas a imaginação sugere. Para se ver bem não basta ter bons olhos. É preciso ter uma imaginação sensível. Ela abriu a porta de sua casa para alguém que bateu, o que explica a brisa. Quem poderá estar batendo à sua porta a tal hora da noite? Não se trata de um estranho porque ela está discretamente sorrindo, sem olhar diretamente nos olhos desse estranho que o pintor não pintou. É duvidoso que esse alguém invisível tenha sido o seu pai. O seu sorriso não é um sorriso que se oferece a um pai. Há uma pitada de pudor no seu rosto, ligeiramente inclinado... Seria o seu amado? Haviam marcado um encontro, ao abrigo dos olhos curiosos? Com certeza! Quem seria o seu amado? Provavelmente o pintor. O artista imortalizou na sua tela aquele momento de felicidade amorosa. O que é belo devo ser imortal. A prova de que ele imortalizou aquele momento está no fato de que hoje, séculos depois da morte dos dois, aquela cena continua a nos encantar... A arte não suporta o efêmero. Ela é uma luta contra a morte. O encantamento não está no que se vê. Está no que se imagina. Os bichos vão para o céu? : Tenho um amigo que é pastor de uma comunidade protestante. Por favor, não confundir “protestante” com “evangélico”... Contou-me de uma velhinha solitária que tinha como seu único amigo um cãozinho. Ela o procurou aflita. Havia lido no livro de Apocalipse, capítulo 22, versículo 15, que não entrarão no céu “os cães, os feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras...” Que os impuros, os assassinos, os idólatras não entrem no céu está muito certo. “Mas reverendo”, ela dizia, “o meu cãozinho... A Bíblia está dizendo que o meu cãozinho não vai entrar no céu... Mas eu amo o meu cãozinho. O meu cãozinho me ama... O que será de mim sem o meu cãozinho?” Aí eu pergunto aos senhores, teólogos, estudiosos dos mistérios divinos: há, no céu, um lugar para os cãezinhos? Sei qual será a sua resposta. “No céu não há lugar para cãezinhos porque cãezinhos não têm alma. Somente os humanos a têm”. Acho que, teologicamente, segundo a tradição, os senhores estão certos. Nas inúmeras telas que os artistas pintaram da bem-aventurança celestial, por mais que procurasse, nunca encontrei animal algum. Aves, às quais S. Francisco pregou ( por que pregar-lhes, se elas não têm alma?), peixes, símbolos de Jesus Cristo, vacas, jumentos e ovelhas, que adoraram o Menino Jesus no presépio, todos eles serão reduzidos a nada. Não ressuscitarão no último dia. O céu será um mundo de almas desencarnadas. Não haverá beijos e nem abraços. Falta às almas a materialidade necessária para beijos e abraços. Os senhores já observaram que no Credo Apostólico a “alma” não é sequer mencionada? Lá se fala em “ressurreição da carne”. É a carne que está destinada à eternidade. A carne é o mais alto desejo de Deus. Tanto assim que Ele se tornou carne, encarnou-se. A esperança é a volta ao Paraíso, onde havia bichos de todos os tipos. Se Deus os criou é porque Deus os desejava e deseja. Um céu vazio de animais é um céu de um Deus que fracassou. Ao final Ele não consegue trazer de novo à vida aquilo que criou no princípio. Não. Hereje que sou, direi à velhinha: “Fique tranqüila. O seu cãozinho estará eternamente ao seu lado... Não só o seu cãozinho como também gatos, girafas, macacos, peixes, tucanos, patos e gansos... Deus gosta de bichos. Se Ele gosta de bichos eles serão ressuscitados no último dia... Armas: Se estivesse no meu poder decretar o fim das armas, eu o faria. Não tenho uma arma. Nunca tive. Sei que as armas não aumentam a segurança dos que as possuem. São as crianças e adolescentes que se matam, brincando com uma arma. São os homens normalmente tranqüilos que, em momentos de raiva estúpida no tráfego, se tornam assassinos. São os cidadãos que, na sua inocência, pensando ser capazes de se defender dos criminosos, são por eles mortos porque os criminosos são profissionais das armas e os cidadãos comuns são amadores. Assim, o meu desejo é que as armas, todas as armas, sejam banidas. Mas há uma pergunta a ser feita: será que, por meio de uma proibição legal, as armas desaparecerão? A sociedade ficará mais segura? Sei que desaparecerão das vitrines das lojas. Desaparecerão do mundo legal e mas continuarão a existir no mundo da ilegalidade. Eu sou favorável à descriminalização das drogas. Não porque eu seja favorável às drogas. Mas porque a proibição faz com que elas passem a circular no mundo do crime. Das drogas vem a riqueza do crime; e o poder para corromper a polícia. Não é raro que traficantes e polícia sejam cúmplices na busca do dinheiro. A proibição da venda das armas acabará com as armas? Não. Mas os traficantes de drogas terão uma nova fonte de renda: serão também traficantes de armas. Assim, estou numa encruzilhada: quero decretar que a vendas das armas seja banida mas sei que isso só piorará a situação... Ê vida marvada! Era um nordestino que só dormia na rede. A rede servia não só para dormir como também para outras coisas. Ficou doente. Foi ao médico. O médico, exames de laboratório na mão, explicou-lhe as coisas que não poderia fazer: nada de torresmos, nada de ovos fritos, nada de açúcar, nada de cigarro, nada de cachaça... Desanimado ele se voltou para o médico e perguntou: “Mas doutor, um parzinho de chinelos de mulher debaixo da rede, isso eu posso?”
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