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| Quarto de badulaques (LXXVI) |
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Um texto vale por aquilo que ele faz pensar. Li o Código Da Vinci. Uma extraordinária novela policial. Aprendi muito sobre arte. Mas terminada a leitura me perguntei: “O que restou? Terei vontade de reler esse livro?” Não restou coisa alguma. Os livros que amo são aqueles que se tornam meus companheiros vida afora. É o caso do livro Do sentimento trágico da vida, de Miguel de Unamuno. Lembrei-me dele, tirei-o da estante, passei os olhos. É uma brochura vagabunda, papel jornal, está todo desmilinguido, cheio de anotações. Fiquei feliz ao devorar de novo pedaços daquele homem que nunca vi, que já morreu.. Quero repartir com vocês algumas das coisas que ele disse. “O que existe de mais sagrado num templo é o fato de ser o lugar aonde se vai chorar em comum. Um Miserere cantado em coro por uma multidão açoitada pelo destino vale tanto quanto uma filosofia”. Nós, povo do Brasil, somos nesse momento uma multidão açoitada pelo destino. (Unamuno) “Pelo que me diz respeito, jamais de bom grado me entregarei, nem outorgarei a minha confiança a um condutor de povos que não esteja penetrado da ideia de que, ao conduzir um povo, conduz homens, homens de carne e osso, homens que nascem, sofrem e ainda que não queiram morrer, morrem; homens que são fins em si mesmos e não meios...” ( Unamuno). Não existe um só que, chegando a distinguir o verdadeiro do falso, não prefira a mentira que ele encontrou à verdade que outrem descobriu. “A ciência é um cemitério de idéias mortas, ainda que delas saia a vida. Também os vermes se alimentam de cadáveres. Os meus próprios pensamentos, uma vez arrancados das suas raíses no coração, transportados para esse papel, são já cadáveres de pensamentos.” “Podemos ter um grande talento e sermos estúpidos de sentimentos e moralmente imbecís.” Minha neta Camila estava chorando, aos soluços. Fui conversar com ela para partilhar da sua dor. Ela me explicou: “Vovô, eu não posso ver ninguém sofrer.Quando eu vejo uma pessoa sofrendo o meu coração fica junto ao coração dela. E aí eu choro com dela...” Uma parábola antiga recontada: Havia um homem que se dedicava a ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro era o seu prazer. O crescimento da sua fortuna lhe dava um delicioso sentimento de segurança quanto ao seu futuro. Assim, ele não gastava o que ganhava. Investia na bolsa de valores a fim de obter novos lucros e assim ter uma segurança maior ainda. Aconteceu que uns investimentos que fizera lhe deram lucros enormes, inesperados. Ele muito se alegrou e disse: “Finalmente posso parar de trabalhar. Finalmente o meu futuro está garantido. Oh, minha alma! Descansa, come, bebe, regala-te, ama... Mas Deus lhe disse: “Como és tolo... Não és dono do teu corpo e pensas que, com esse corpo que não te pertence podes possuir alguma coisa? Mas hoje vão pedir a tua vida! Deverias ter gasto o que ganhaste enquanto a vida te era dada. Agora que a tua vida te é tirada, o que ajuntaste vai para outros... De que vale a um homem ganhar o mundo todo se, para ganhá-lo, deixa a sua vida no presente escorrer por entre os dedos... Tenho dó das crianças diferentes. Eu fui uma criança diferente. Caipira de Minas em meio aos meninos da riqueza carioca. Roupas diferentes, sotaque ridículo. Fui motivo de chacota. Nunca tive um único amigo na escola. Foi assim que eu aprendi a solidão. Há as crianças que não aprendem tão depressa, que não são bonitas, que não são atléticas, que tem alguma limitação, síndrome de Down, gagueira, estrabismo, deficiência visual. As crianças ainda são discriminadas pela cor. Muitas estórias infantis se escreveram sobre a dor da diferença: o Patinho Feio, a Gata Barralheira. Eu mesmo escrevi Como nasceu a alegria, A porquinha do rabo esticadinho. É difícil para essas crianças pertencer à “turma”. Não são convidadas. São abandonadas pelos colegas. Parece que as crianças ditas normais não são educadas para serem amigas delas. E nem as professoras sabem o que fazer. Sugestão simples para começar a implantar a democracia nos edifícios: acabar com a separação de elevadores, um social para os moradores, outro de serviço, para os serviçais. Será que os moradores têm preconceito em partilhar o elevador com um serviçal? Era a página de necrologia. Havia fotografias dos mortos enquanto vivos. Entre elas, a de uma linda menina. Teria uns dez anos, talvez. Era o convite para uma missa, por ocasião do dia em que seria o seu aniversário. Meu coração ficou junto ao coração dos pais. Imaginei-me na situação deles, a dor pela perda de uma filha menina ainda. Mas houve uma afirmação que não entendi. Dizia-se que a missa seria “em sufrágio de sua alma”. Não entendi. Eu não sei o que “sufrágio” quer dizer. A alma da menininha estaria em alguma fila de espera no outro mundo? Deus não abraça as crianças? Há débitos pendentes? Não estava no céu? Acho que não. Porque se estivesse no céu seria só alegria. Nenhum sufrágio seria necessário. Eu nunca entendi. Tenho uma enorme dificuldade em entender as coisas das religiões. Meu irmão foi engenheiro-chefe da Rede Ferroviária Federal, em Minas. E havia uma norma relativa ao uso dos telégrafos: somente os telegrafistas-chefes tinham permissão para telegrafar. Imagino que essa norma foi escrita para impedir abusos, namoro pelo telégrafo, recados pelo telégrafo. Pois um telegrafista-chefe e seu ajudante se encontravam numa estaçãozinha perdida na serra. E o telegrafista-chefe teve um ataque de coração e morreu. O ajudante ficou numa situação impossível. De um lado, ele tinha de avisar o escritório central rapidinho do ocorrido. Do outro, ele estava proibido de fazê-lo usando o telégrafo, por causa da dita norma. Mas ele encontrou uma solução inteligente. Por ela deveria ter sido promovido a telegrafista-chefe. Foi no telégrafo e telegrafou: “Quero comunicar à chefia que faleci esta manhã”. E assinou o nome do telegrafista-chefe. Não há jeito de se fazer um artista. Artista já nasce artista. A semente está pronta. Pela vida afora o que se pode fazer é cuidar para que a planta cresça. Minha neta Bruna tem um talento especial com as mãos. O talento apareceu sem que nada fosse feito para que aparecesse. Num jantar, enquanto todos conversavam, ela pegava massinhas de modelar e produzia as coisas mais interessantes. A fotografia que ilustra essa crônica é um pavão que ela fez, brincando. Prestem atenção nos detalhes, nas coisas bem pequenas. Quem sabe ela ainda vai ser uma artista famosa! Ou melhor, uma artista feliz com o seu trabalho! Parabéns pelo seu aniversário, Bruna. Do vô Rubem.
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