Quarto de Badulaques LXXIII

 

                           EUDARDO SUPLICY: Quero manifestar minha profunda admiração pelo senador Eduardo Suplicy, do PT. É um dos políticos mais íntegros que conheço. Não se dobra às ordens do partido. Faz o que a sua consciência diz. Homens assim são motivo de esperança.

                           CHINA: Quando um assunto se torna tema para o humor dos cartunistas é porque ele já se tornou objeto de uma aflição coletiva. É o caso da economia chinesa que está crescendo de uma forma assustadora, as grandes economias industriais ricas se revelando incapazes de lidar com o perigo que as ameaça. O preço das manufaturas chinesas é imbatível. Um pequeno estojo de delicadas chaves de fenda é vendido pelo preço de três reais! É ver e querer comprar, se não pela utilidade, mas pelo preço. No campo dos têxteis, de forma especial, a industria chinesa está arrasando as competidoras. Criou-se, então, o slogan: “Say “No” to chinese textiles” – “Diga “Não” aos têxteis chineses”. Em meio a esse pânico os cartunistas já estão fazendo piadas. Vi, num jornal inglês, o seguinte cartoon: uma barraca de camelô que vende camisetas com os mais diferentes slogans. O dono, ao lado, um chinês sorridente. E entre as camisetas que ele vende, uma ocupava o lugar mais visível. A mais vendida. A que lhe dava mais lucro. O slogan nela escrito era: “Say “No” do chinese textiles.” Dois ingleses, observando a cena, comentam: “Esses chineses são realmente imbatíveis...” Há previsões de que, num futuro não muito distante, a China terá atingido o nível de progresso que atingiram Estados Unidos, Alemanha, Japão. Que coisa maravilhosa, não? Haver atingido esse nível de progresso significa que os chineses consumirão, individualmente, tanta energia quanto consomem os habitantes dos paises desenvolvidos. 1.500.000.000 chineses! E aí a crise se anuncia: o petróleo não vai chegar para todos. A luta pelo petróleo não será resolvida por meios pacíficos. E com a queima de tanto combustível a temperatura do planeta se elevará. O derretimento das calotas polares já em andamento será acelerado. O nível dos oceanos subirá. E haverá uma série de conseqüências ecológicas, impossíveis de se prever. Esse é o preço do progresso. Os dinossauros, que consumiam energia demais, morreram. As lagartixas, que consumiam uma quantidade ínfima de energia, continuam vivas... 

                           AS POMBAS: Cheguei à janela do apartamento em que me encontrava, no décimo segundo andar do hotel. No horizone, o mar sem fim. “Foi, desde sempre, o mar” – disse a Cecília. Além do horizonte azul, a eternidade. Olhando para baixo, mais perto, estavam os gramados, as árvores, as casas. Um bando de pombas voava. Umas cinqüenta. Voavam muito próximas umas das outras. Sem esbarrar.  Não estavam indo a lugar algum. Seu vôo não tinha nenhuma intenção prática. Voavam pela alegria de voar. Brincavam de voar. Huizinga, filósofo holandês, escreveu um livro com o título Homo Ludens, o homem brincante. Brincar é fazer algo sem nenhuma resultado prático, só pelo prazer de fazê-lo. Pular corda. Jogar damas. Armar quebra-cabeças. Música. Pintura. Poesia. Mas ele observou que também os animais gostam de brincar. Os gatos, os cães, os potrinhos. Ao ver as pombas pensei: também as pombas gostam de brincar. As pombas, mais do que nós, sabem para que se vive. A princípio foi o puro prazer da contemplação. Elas iam e vinham fazendo curvas inesperadas. De repente, o bando batia as asas voando para cima e todas juntas, ao mesmo tempo, paravam de bater as asas e deslizavam para baixo como se estivessem deslizando numa montanha russa. Imaginei que esse movimento deveria dar-lhes a mesma sensação visceral que se tem quando o carro sobe rápido e, ao fim da subida, começa a descer. Todas ao mesmo tempo. Como se houvesse um cérebro único que as guiasse.  Não seguiam uma pomba-líder. Não havia tempo. Todas se moviam como um balê ensaiado. E quando faziam as curvas rápidas de 180º a pomba que parecia ser líder ficava na retaguarda. Por cerca de quinze minutos fiquei a observá-las Fiquei curioso. Suas asas não se cansariam? Pensei que suas asas deveriam bater três vezes por segundo. Cento e oitenta vezes por minuto. Desci para o café da manhã. Lá fiquei por cerca de meia hora. Ao voltar as pombas continuavam a brincar de voar, sem ir a lugar algum. Elas não queriam ir a lugar algum por já se encontrarem no  lugar onde queriam estar: o espaço do brincar. Jesus também jogava tempo fora observando os pássaros em vôo. O que o levou a dizer que para se viver como se deve é preciso gastar tempo observando as aves. Não nascemos com nenhuma missão  a ser cumprida. Não somos peões no xadrez que Deus joga com o Diabo... Vivemos para viver. Fiquei com inveja das pombas...

                           NOVO SLOGAN POLÍTICO: Alguém –certamente um estudante - escreveu num muro branco da universidade do Porto, em Portugal, a sua exigência política: “Queremos mentiras novas”!  Quem o escreveu sabia das coisas. Sabia que seria inútil pedir o impossível: “Basta de mentiras!” Na política apenas as mentiras são possíveis. Mas ele já estava cansado das mentiras velhas, batidas, como piadas cujo fim já se conhece, que diariamente aparecem nos jornais. Mentiras velhas são um desrespeito à inteligência daqueles a quem são dirigidas. Que mintam mas que respeitem a minha inteligência! Mintam usando a imaginação! Por isso escrevia, em nome da inteligência, do possível e do humor: “Queremos mentiras novas!”

                           “O PÃO NOSSO DE CADA DIA...”O norueguês Thor Heyerdahl, que em 1947 empreendeu a famosa viagem Kon-Tiki, através do oceano Pacífico, morreu enquanto dormia, aos 87 nos. Parou de comer e beber ao ser informado de que sofria de um tumor cerebral. E se os médicos, em nome da ética, o entubassem e o obrigassem a ingerir alimentos? Uma paciente antiga relatou-me que o pai velho, doente e religioso, havia parado de comer. Mas era seu hábito orar diariamente o “Pai Nosso”. Aí ela notou que o seu “Pai Nosso” estava diferente. A cláusula “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” havia sido eliminada.

                           CATAVENTO: Ele visitava semanalmente o túmulo do pai e levava flores novas. Ficava triste vendo as flores murchas e secas da semana anterior, que ninguém regara. Aí teve a idéia de substituir as flores por um catavento. Toda vez que o vento batia o catavento ressuscitava...

                           OS SURDO-MUDOS CANTAM: Aconteceu em Uberaba. Disseram-me que antes da minha fala haveria um coro de crianças surdas que cantaria o hino nacional. Desacreditei. Crianças surdas não cantam. Aí entraram as crianças no palco. Um menininho de não mais que quatro anos de idade olhava espantado para aquele mundaréo de pessoas, todo mundo olhando para ele!  Entrou a regente e fez-se silêncio. Silêncio para nós porque para os surdos é sempre silêncio. Iniciou-se o hino nacional. Os acordes introdutórios. A regente levantou os braços... e eles cantaram o hino nacional com gestos! Cantaram com as mãos, os braços, os olhos, o rosto, o corpo inteiro! A voz calada, o corpo cantando! Ouvimos a música que mora no silêncio. Terminado o hino todas as crianças se abriram num enorme sorriso e correram a abraçar a regente. E aí, cantaram para mim  a “Serra da Boa Esperança”. Por vezes não é possível não chorar...