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| Quarto de Badulaques LXX |
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“Não conseguimos desembarcar de nós mesmos”, disse Bernanrdo Soares. É inútil ir até a China se fazemos a viagem sem sair de dentro dessa bolha dentro da qual vivemos. Tudo o que virmos e pensarmos nessa viagem será uma repetição da nossa mesmice. Isso vale para viagens. E vale também para a leitura. Porque toda leitura é uma viagem por um mundo desconhecido. Não, isso que escrevi não está certo. Há livros que não nos levam a viajar por mundos desconhecidos. Eles apenas repetem a nossa mesmice. Por isso são de leitura fácil. Há alguns anos, quando estive preso numa cadeira por causa de uma operação de hérnia de disco, pus-me a ler uma série de livros que tinham estado à espera, numa prateleira. Mas eles davam canseira na cabeça de um homem que estava doente. Quem está doente não quer viajar. Mudei-me então para os policiais da Agatha Christie. Leitura de passa tempo, porque não era preciso pensar. Todos eles são iguais. E eu ficava no meu mundinho. Para se entender um livro de outro mundo a primeira condição é sair do nosso mundo. Isso exige uma decisão preliminar: “Vou, provisoriamente, num jogo de faz de contas, parar de ter minhas idéias. Vou desembarcar do meu mundo. Vou entrar no mundo do autor. Vou aprender a sua língua...” Se eu não fizer isso não terei condições de entendê-lo, se for o caso, ainda que para discordar dele honestamente. Se eu parto do pressuposto de que o autor só diz besteiras eu só lerei besteiras – as que estavam dentro de mim. Lembro-me dos meus tempos de universidade: se alguém ia ler Max Weber ia sabendo que ele era o “ideólogo da burguesia”. Se se ia ler Durkheim sabia-se de antemão que ele era um “funcionalista conservador”. Para se ler Nietzsche é preciso antes ficar nu e tomar um banho. Se vocês quiserem ler um exemplo de absoluta incompreensão de Nietzsche leiam o que Coplestone, padre jesuíta, disse dele na sua história da filosofia. Será inútil escrever um tratado sobre queijos e torná-lo leitura obrigatória na escolas de um país onde nunca se viu um queijo. A palavra “queijo” só tem sentido para quem já comeu queijo. A compreensão exige um antecedente de experiência. É preciso primeiro ter a experiência do queijo para depois entender um texto que fale de queijos. Só de brincadeira vamos imaginar o que passaria pela sua cabeça ao ler um texto em que o autor diz: “O rato roeu o queijo do rei de Roma”, sem que você jamais tivesse visto um queijo! Sua cabeça iria se esforçar por compreender. Mas como ela não tem experiência alguma de queijos, ela iria procurar no estoque de experiências que a memória guarda as coisas que um rei deve ter e que poderiam ser roídas por um rato: sapatos, chapéus, livros, bolos, cuecas, camisas, cintos, meias... A única coisa que não sairia do estoque de experiências que a memória guarda seria um queijo. Daí a afirmação de Nietzsche de que, ao ler, os leitores tiram do seu estoque de experiências... as suas próprias experiências. Então estamos condenados a nunca sair das bolhas em que vivemos? Podemos sair desde que usemos uma chave chamada “a arte da desconfiança”... Ao ler sobre os queijos que nunca comeu você poderia, roído pela curiosidade, fazer uma viagem até a Suíça. Aí então você, vendo, cheirando e comendo queijos, ficaria sabendo o que são queijos. É preciso, antes de mais nada, desconfiar do nosso estoque de experiências, colocar as nossas certezas de lado. Aqueles que absolutizam as suas experiências estão condenados a ser inquisidores. É preciso rezar diariamente a reza que Karl Poper nos ensinou: “Nós não temos a verdade. Nós só podemos dar palpites...” “Se Deus tivesse, na sua mão direita, a verdade toda e, na sua mão esquerda a infinita busca da verdade, sem nunca chegar a ela, e me dissesse: “Escolha!” Eu diria: “Dá-me a sua mão esquerda porque a verdade é para ti somente.” ( Lessing). Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; levaria a livraria para que ela visse, nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins, ela me pediria para ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Ai, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes. Se fosse ensinar a uma criança a art da leitura não começaria com as letras e as sílabas. Simplesmente leria as histórias mais fascinantes que a fariam entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela quereria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em histórias. É assim. É muito simples. ( Almanaque Brasil de Cultura Popular, setembro 2004 ). Enquanto a Igreja Católica acreditar que ela é detentora do monopólio de verdade qualquer conversa sobre ecumenismo não passará de palavras ocas. Porque o ecumenismo se constrói sobre o desejo de ouvir o que outro tem a dizer. Ora, se eu me acredito possuidor da verdade toda, qual o sentido de ouvir o outro? O que ele vier a dizer diferente do que eu penso só poderá ser mentira. A Igreja Católica define ecumenismo de uma forma peculiar: é a volta de todas as religiões ao seu seio. Mas seria mais evangélico prestar atenção ao que diz o apóstolo Paulo na sua primeira carta à igreja de Corinto: “Agora vemos tudo obscuramente, reflexos num espelho mal polido...” Felizmente uma grande parcela do povo católico acredita mais no que diz o apóstolo do que diz o Magistério Romano. O perigo é que a Igreja, em decorrência de acreditar-se possuidora da verdade, vá se distanciando cada vez mais da realidade, da ciência, das questões éticas do momento, da política e da própria realidade do seu povo. Corre o perigo de se tornar um gueto que ninguém leva a sério. Tudo é uma eterna repetição. O que já foi de novo será... Pelo menos essa é a sabedoria do Eclesiastes. Conta-se que durante a segunda guerra mundial, na divisa entre Suíça e Alemanha, estavam duas guarnições militares: a alemã, do lado da Alemanha e a suíça, do lado da Suíça. Os soldados nazistas resolveram dar um presente aos suíços. Enviaram-lhes uma caixa própria de presentes. Quando os guarda suíços a abriram estava cheia de cocô alemão... Os suíços resolveram retribuir o presente. Quando os alemães abriram a caixa lá estava um lindo queijo, enorme, amarelo, perfumado, e um bilhetinho: “Continuemos assim a nos presentear com aquilo que temos de melhor...” Pulo da fronteira entre Suíça e Alemanha para Araxá, onde viveu Dona Beja... Ela era odiada por todas as mulheres honestas do lugar. Estas, movidas pelo pecado verde, a inveja. enviaram-lhe um presente: uma caixa cheia de bosta de cavalo. Ela retribuiu: enviou flores a todas as mulheres que, segundo o seu conhecimento, eram as “presenteadoras”, com um bilhetinho: “Cada um presenteia com aquilo que tem de melhor...” Os dois casos são variações de um mesmo tema que se repete em todos os lugares. É uma boa filosofia de vida. Penso que um crítico de arte, ao se pronunciar sobre uma tela, uma música, um livro, uma escultura, deveria ter o cuidado de não dizer “Essa obra é medíocre”, “Essa obra é genial”. Ao escrever assim ele está fazendo uma afirmação sobre a verdade daquela obra. Mas o fato é que ele não sabe a verdade de coisa alguma. Muitas obras de arte hoje consideradas geniais foram ridicularizadas pelos críticos da moda. Segundo Karl Popper nem mesmo a ciência sabe a verdade. A ciência só dá “palpites provisórios”, que são constantemente modificados. É preciso que os críticos se reconheçam como “palpiteiros”. Um crítico dá os seus palpites, opiniões, impressões, sentimentos sobre a obra sobre a qual escreve. Assim, um crítico cuidadoso e ético deveria dizer: “Penso que essa obra é medíocre”, “Penso que essa obra é genial”. Porque assim ele estará honestamente comunicando os seus pensamentos sobre a obra e não a verdade sobre a dita obra. A sua crítica é apenas um pedaço dele mesmo, a “sua” obra de arte, as suas reações subjetivas à obra. Muitas obras que foram sentenciadas como medíocres por críticos do momento foram consideradas geniais posteriormente. Nos Primeiros Cadernos de Albert Camus ( Livros do Brasil, Lisboa, p. 213 ) encontra-se o seguinte fragmento de uma carta que o escritor escreveu ao crítico literário A.R.: “Três anos para escrever um livro, cinco linhas para o ridicularizar – e citações falsas.” Albert Camus recebeu o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1957. A história provou que medíocre era o crítico. A foto que ilustra esse “Quarto de Badulaques” é de Carolina de Jesus, mulher favelada que se apaixonou por livros e se tornou escritora. Publicado no Correio Popular 17/04/2005
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