![]() |
![]() |
|
| Quarto de badulaques (LVII) |
|
O
que é que prefeitos têm a ver com
capitães de navios? Parece que nada. Navios estão
no mar, cidades estão na terra. Navios viajam, cidades
não saem do lugar.
Embora não pareça o fato é que as
responsabilidades dos prefeitos são absolutamente idênticas
às responsabilidades dos capitães de navio e seria sábio
que os prefeitos tivessem capitães de navio aposentados
como seus conselheiros. A primeira obrigação de um
capitão de navio é cuidar do navio... Estar atento às
maquinas, ao radar, aos instrumentos de orientação, à
cozinha, à limpeza, ao combustível, ao casco. Isso
tudo, para navegar. Quem entra no navio quer viajar. O
capitão do navio tem o dever de levar seus passageiros
ao porto prometido. Caso contrário acontece como
aconteceu com o Titanic. A primeira obrigação dos
prefeitos, à semelhança dos capitães de navio, é
cuidar da cidade. Coleta de lixo,
saúde, educação, cultura, finanças, água,
construções, calçadas, jardins, energia, estradas, os
pobres, os velhos, as crianças.
Mas as cidades, embora pareçam fincadas no chão,
navegam para um futuro. Cidades que não navegam são
como navios encalhados, abandonados, enferrujados.
Acabam por afundar. Para qual futuro? Essa questões me
levam às perguntas que eu gostaria de fazer àqueles
que se candidatam a capitães desse navio chamado
Campinas. Apenas três. Três são o suficiente. 1.
Qual é o futuro que o senhor sonha para Campinas? Para que porto o
senhor levará a cidade, se for eleito? Quero que sua
descrição seja tão viva que eu possa vê-la! 2.
Quais as medidas imediatas a serem tomadas para se começar a navegar na
direção desse futuro? 3.
Quais os problemas prioritários do presente – as feridas da cidade -
a serem atacados imediatamente? De que forma? Se
estivesse no meu poder eu faria baixar o seguinte
decreto: Artigo primeiro: O espaço visual da cidade não
pertence a ninguém em particular, porque ele é
propriedade de todas as pessoas que nela vivem. Artigo
segundo: Define-se como espaço visual todo o espaço
que pode ser visto pelos cidadãos. Em decorrência de
uma necessidade profunda da alma humana todo espaço
visual deverá ser construído segundo as exigências da
beleza porque a beleza contribui para a mansidão das
pessoas e a diminuição da violência. Artigo terceiro:
Fica, por isso mesmo, proibido que o espaço visual seja
usado para fins de propaganda, comerciais e políticos.
Não se permitirão outdoors, faixas ou cartazes
afixados em muros, paredes ou árvores a não ser que as
seguintes condições sejam obedecidas:
Artigo quarto: Outdoors, faixas ou cartazes, com
objetivos de propaganda, comerciais ou políticos, serão
permitidos se, e somente se, outdoors, faixas e
cartazes, de dimensões e em quantidades idênticas, com
visuais coloridos da natureza, das artes plásticas ou
da poesia brasileiras forem igualmente colocados no espaço
visual urbano.
Artigo quinto: Os pagantes pelos outdoors, faixas
ou cartazes com objetivos de propaganda, comerciais ou
políticos arcarão com as despesas dos correspondentes
artísticos. Parágrafo único: Uma comissão de
artistas será responsável para aprovação dos
materiais a serem colocados no espaço visual da cidade.
Artigo sexto: Os infratores dessas disposições serão
condenados a serviços à comunidade, especialmente
ligados à limpeza do espaço urbano. Parágrafo
único: Para fins legais os infratores dessas disposições
serão equiparados aos pixadores posto que o que eles
fazem é tão ofensivo aos olhos quanto aquilo que os
pixadores fazem. Revogam-se as disposições em contrário.
Esse decreto entrará em vigor na data da sua publicação.
Eleitores, cidadãos: O que é que vocês acham desse
decreto? Enviem a sua opinião. E só votem em
candidatos que não se pareçam com os pixadores. Tive
professores inesquecíveis. Alguns são inesquecíveis
pela beleza da sua pessoa, por sua inteligência, pelo
respeito aos alunos. Esses me fazem sorrir. Outros se
tornaram inesquecíveis por sua pequenez e tolice. Esses
me fazem rir. É o caso de um professor de geografia que
tive no curso científico. Ele tinha um caderninho onde
estavam escritas as aulas que tinha estado ditando por
anos. Ele ditava, nós copiávamos – assim se resumia
sua filosofia da educação. De tudo o que ele ditou uma
única coisa ficou gravada na minha memória, de tão
ridícula. Falando sobre a importância política dos
rios ele terminou a aula com essa afirmação que,
segundo ele, provava o seu ponto: “E a grito de
independência de D. Pedro aconteceu às margens do rio
Ipiranga.”
É. Se o riachinho Ipiranga não existisse D.
Pedro não teria gritado “Independência ou Morte!”
e nós ainda seríamos colônia de Portugal. ( Mas será
que foi isso mesmo que ele gritou? Por vezes os gritos
reais dos heróis são impublicáveis...) Por razões
que não conheço o dito professor resolveu
candidatar-se a vereador, no Rio de Janeiro, certamente
convencido de que ele tinha uma grande contribuição
política a oferecer à cidade. Ou pode ser que ele
mesmo tenha sentido o tédio dos seus ditados. Melhor
ser vereador. Ganhar dinheiro sem fazer força, sem
ditados, sem corrigir provas. Muitas decisões políticas
se fazem por razões não políticas. Ele parava de
ditar e falava sobre sua vitória certa. “Tenho sido
professor por vinte anos. Por minhas mãos passaram
2.500 alunos. ( Inventei esse número. O número real eu
esqueci). Esses alunos se casaram. 2500 se transformam
em 5000. Esses 5.000 têm parentes e amigos... Ao final
de suas contas ele seria eleito com mais de 50.000
votos... Eu me lembrei desse professor ao ver essa
quantidade enorme de nomes e números, candidatos a
vereador.
Por que? Para que? O que os move? Quais as suas
intenções? Na vida cotidiana não somos tolos.
Procuramos pessoas de reconhecida competência para
resolver nossos problemas práticos: encanador,
eletricista, mecânico, dentista, médico, barbeiro...
Parece que é só na política que não se exige competência
alguma. Qualquer um serve. Basta que tenha uma turma, um
time de futebol, uma igreja ou clube que o apóie. Campinas é uma cidade feliz! Nunca imaginei que um número tão grande dos seus cidadãos tivesse a nobre vocação de se dedicar às causas públicas. Pois é isso o que caracteriza a vocação política: o abandono dos interesses particulares mesquinhos em favor do amor ao bem estar da comunidade. O enorme número de candidatos a vereador, isto é, de pessoas que estão prontas a abrir mão dos seus interesses particulares para se dedicar ao bem estar da comunidade é, assim, um sinal de esperança. Com tantas pessoas assim tão nobres, tão altruístas, possuidores de tão nobre vocação, é certo que dias felizes nos esperam no futuro. Correio Popular, 15 de agosto de 2004
|