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| Quarto de badulaques (LV) |
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A
estória de Chapeuzinho Vermelho nos ensina preciosas lições
políticas. Caminhando pela floresta Chapeuzinho, tão
bobinha, acredita na fala do lobo, escondido no meio das
árvores. Assim é o povão: acredita em qualquer coisa.
Se duvidam sugiro que gastem um pouco do seu tempo
olhando os programas religiosos na TV. Esses programas
poderiam ser usados para avaliar o grau de inteligência
e educação da população. É assombroso aquilo em que
se pode acreditar!
Acredita-se em tudo, desde que um milagre seja
prometido. Muito mais espertos que o lobo de
antigamente, os lobos de agora valem-se da mais moderna
tecnologia. Contratam “produtores de imagens...” O
que é um “produtor de imagem”? É um profissional
de estética que faz operações plásticas na imagem do
candidato de forma que ele deixe de ser o que era,
naturalmente, e fique parecido com a imagem que o povo
deseja. Pois o lobo, já com a vovozinha dentro da
barriga – ( Voz gutural: “Que grande goela a minha!
Engoli a velha interinha!” ) - “fantasiou-se” de
vovozinha. “Toc, toc, toc...”, Chapauzinho bateu à
porta. “- Quem bate sem ordem minha?” – pergunta o
lobo com voz grossa. “Sou eu, Chapeuzinho...” O
produtor de imagem que se escondia atrás da cabeceira
da cama lhe disse logo: “Mude a voz, mude a voz...”
E sua voz gutural se transforma na trêmula voz de uma
velhinha indefesa: “ – Pode entrar, minha
netinha...” Chapeuzinho conhecia a vovó muito bem.
Aproxima-se da
cama e, pasmem! – não percebe a diferença. As
orelhas, os olhos, o focinho, os dentes, os pelos na
pata, os extratos bancários na Suíça, os antecedentes
de corrupção, tudo dizia: “Fuja! Não é a
vovozinha! É o lobo!” Mas Chapeuzinho era muito
burra, muito burrinha mesmo. Como o povão que vê
televisão, ela acreditava na “imagem”. Na estória
os caçadores salvam a tonta. Mas acho que não merecia
ser salva. O lobo era mais inteligente que ela. A
burrice não merece ser salva. Essa estória dá duas lições
negativas às crianças. A primeira é que nem sempre é
sábio fazer o que a mãe manda. Uma mãe que manda uma
filha por uma
floresta onde havia um lobo só pode ser louca.
Maternidade não é garantia de sanidade. A segunda é
uma lição mentirosa: que não importa ser burro porque
os caçadores aparecem no fim para consertar o estrago.
Na vida real o fim é outro. O lobo, juntamente com os
caçadores e os produtores de imagem comem Chapeuzinho
Vermelho, como atestam esses anos de “democracia” no
Brasil. Por
que enormes transformações não passou o Lula! Passou
a se vestir de acordo com os padrões estéticos da elegância,
Paris, e não segundo os padrões estéticos dos
torneiros mecânicos. Ninguém se elege só com voto de
torneiro mecânico. Essa mudança foi importante porque
o pessoal da “prateleira de cima”, como diziam
minhas tias, aprecia um homem bem vestido, especialmente
em se tratando de futuro presidente. Consertou e
embranqueceu os dentes. Seu sorriso provoca agora
reflexos branco total radiante.
Parou de falar “menas”. Só não conseguiu
aveludar a voz, que continua um pouco gutural. Mas está
bem assim. É bom não exagerar na plástica. Não me
entendam mal. Não estou criticando o Lula. Essa é uma
das regras do jogo político democrático: é a tolice
dos eleitores que elege presidentes Até o presidente
Jimmy Carter teve de passar por uns “retoques” para
consertar algo no seu sorriso que não estava ao gosto
do povo americano. O povo não vota pela razão. A
esquerda custou a aprender a lição. Pensava que os
eleitores queriam saber os fatos, a verdade. E por eleições
sucessivas bombardeou os eleitores com informações
verdadeiras. Nisso a esquerda concordou com o Antônio
Ermírio, quando ele se candidatou à prefeitura de São
Paulo. Lembro-me dele, na TV, paletó mal ajambrado ( não
se valeu dos conselhos de um “produtor de imagens”),
ao lado de um quadro negro, dando uma “aula” de
economia para os eleitores, como se estivesse falando
aos acionistas das suas empresas! Quem trata o povo como
se ele fosse inteligente perde. O povo não vota com a
cabeça. Ele vota com os olhos, “vendo figuras” -
como fazem as crianças. Qual é a figura mais
bonita? Assim o Collor foi eleito. Acho que se a Xuxa se
candidatasse seria
eleita. Tudo é um grande baile de máscaras e é
preciso votar na fantasia mais bonita. Qual é a imagem
do Bush? Texano, na tradição dos cowboys que,
sozinhos, matam os bandidos, a imagem de Bush fica ao
lado de John Wayne, homem mais macho que ele nunca
houve... O povo americano não vota pela razão. Vota
pelas imagens dos bang-bangs. São dois times: Os
mocinhos e os bandidos. Nós somos os mocinhos.... O
destino da democracia se decide no momento da sua fundação.
Se os lobos são eleitos para estabelecer as regras do
jogo será inútil que as ovelhas que os elegeram berrem
depois ao serem transformadas em churrasco. Pois está
escrito na lei: “É direito dos lobos comer
ovelhas”. Os lobos democraticamente eleitos pelas
ovelhas escreveram...
Não existe caso em que os lobos tenham,
democraticamente, aberto mão dos direitos que eles
mesmos estabeleceram. As
ovelhas são as culpadas de sua desgraça. Foram elas
que, pelo voto, deram poder aos lobos. Uma
amiga perspicaz sugeriu-me que a eleição deveria ser
feita à imitação do Big Brother. O Big Brother pelo
menos muita gente vê – o que não acontece com a
propaganda política. Os candidatos seriam colocados
numa casa por um mês, sem poder sair, todo mundo
poderia vê-los o tempo todo,
e iriam sendo eliminados por votos do público
telespectador. Pelo menos seria divertido. Um
amigo que sofre de insônia acorda de madrugada e liga a
TV num programa evangélico na esperança que haja algum
milagre para fazer dormir... Contou-me que num desses
programas vários pastores se reuniram em torno de uma
enorme taça de vidro, cheia de um óleo sagrado, vindo
não sei de que montanha no oriente onde a burra de Balaão
pastou. A seguir tomaram um pó dourado nas mãos –
diziam que era pó de ouro, eu acho que era purpurina
– e o jogaram dentro do óleo. Vinham os fiéis então,
em fila, para mergulhar o dedo no óleo dourado e
esfregar na testa, para ficarem ricos. Que coisa
maravilhosa! É preciso democratizar essa bênção para
que todos os pobres fiquem ricos, resolvendo-se assim o
problema da pobreza e da fome no Brasil. Essa é uma
pequena amostra da capacidade do povo em acreditar em
qualquer besteira, desde que prometa milagre. Nas Minas Gerais dos tempos dos meus pais e avós os partidos políticos não eram conhecidos por ideologias e programas. Partidos eram como times de futebol, cada um com a sua torcida. Ninguém torce por um time por razões de inteligência. Torce porque torce, sem razões. Acho que em Boa Esperança, onde nasci, os dois partidos eram os “Gaviões” e as “Rolinhas”. Imagino que essa escolha de nomes não era acidental. Os Gaviões eram os que comiam as Rolinhas. Já em Lavras os dois partidos eram os “Ratos” e os “Queijos”... Os roedores e os roídos. Ah! Naqueles tempos as coisas eram mais claras. Entre nós acho que eventualmente os nomes dos partidos poderão ser substituídos por nomes de times de futebol. Aí os votos serão dados por cores de time e lealdade de torcidas. A psicologia da torcida de futebol muito se assemelha à psicologia das eleições. Carreatas, foguetórios, churrascos... Parece que esse processo já está a caminho. Um candidato a vereador se anuncia: “Bola pra frente...” O bom de substituir os partidos políticos por times de futebol é que, assim, eliminam-se as questões éticas. No futebol não há ética. Se o juiz apita um pênalti que não existiu a favor do meu time, nenhum jogador do meu time é besta de dizer ao juiz que o pênalti não existiu... Vale para o futebol e para a política a “Lei do Gerson”: “o que importa é levar vantagem”...
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