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| Quarto de Badulaques LIX |
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“A loucura é rara em indivíduos – mas em grupos, partidos, nações e eras ela é a regra.” ( Nietzsche ) “Senhores passageiros do vôo 0666, Paris – São Paulo, da TARIG, linhas aéreas democráticas”. A voz soou metálica na sala do aeroporto onde os passageiros aguardavam o início do embarque. Cessaram imediatamente as conversas, fez-se silêncio e os passageiros trataram de prestar atenção nas instruções que se seguiriam. A voz continuou: “A TARIG, linhas aéreas democráticas, no esforço para democratizar os seus serviços, avisa os senhores passageiros que dentro de alguns minutos terá início uma assembléia livre e soberana para a escolha democrática do piloto que comandará o vôo Paris - São Paulo. Os candidatos poderão se inscrever no balcão da empresa devendo, para isso, preencher as seguintes condições: (1) Ser maior de idade; (2) Dar prova de ser capaz de assinar o nome”. Fez-se um grande silêncio na sala de embarque. Os passageiros olharam uns para os outros, incrédulos, pegaram suas bolsas, pastas e mochilas e em silêncio deixaram vazia a sala da TARIG, linhas aéreas democráticas, e foram em busca de uma linha aérea que, sem ser democrática fosse inteligente e que escolhesse seus pilotos por competência e não por voto da maioria.”É claro que isso não aconteceu e nunca acontecerá. Eu inventei essa cena absurda como parábola da situação eleitoral em que nos encontramos. Exige-se competência de um piloto que tem sob sua responsabilidade a vida de 150 pessoas por 9 horas. Mas de um candidato a vereador, que tem a responsabilidade de decidir sobre a vida de centenas de milhares de pessoas por quatro anos só se exige que seja maior de idade e que saiba assinar o nome. Quando falo em competência não me refiro a diploma universitário. Há pessoas que não têm diploma de curso superior mas que se provaram como líderes. É o caso do Lula. Ele têm a competência que se formou nas lutas políticas. E há pessoas com diploma universitário que nada sabem sobre a realidade. É o caso do presidente Bush que, por ignorância, coloca o mundo à beira do abismo. Basta entender um mínimo de futebol. Um bom jogador de futebol tem de ter duas qualidades. A primeira é o seu domínio da bola. A segunda é a sua visão estratégica do espaço do campo. Um jogador que só se vê a si mesmo leva o time à derrota. Há muitos candidatos que se apresentam anunciando a sua pequena jogada. E até pode ser uma coisa em si mesma louvável como, por exemplo, criar um asilo para os velhinhos. Mas o que está em jogo é a cidade inteira. A condição fundamental para que alguém se candidate é a sua visão da cidade como um todo. É a cidade que está em jogo. Cada vereador tem de ser jogador de um time que tem a visão do conjunto. Você me votaria em mim para ser goleiro do seu time? Vale a pena ver o desfile de candidatos a vereador no horário eleitoral. É um espetáculo deprimente. A gente perde a esperança nos mecanismos democráticos. Éramos 50 pessoas inteligentes reunidas num fim de semana para pensar os próximos 50 anos do Brasil e, se possível, sugerir ações a serem tomadas. Foi-nos feita, então, inesperadamente, a seguinte pergunta: “Qual é o seu grande medo?” Medo grande e não medo pequeno. Medos pequenos todos temos. Meu maior medo pequeno é ter um derrame e ficar reduzido à condição de um nabo cozido, à mercê dos médicos que insistem em manter meu corpo vivo quando o que ele deseja é morrer. Para mim o terrível da paralisia que freqüentemente se segue a um derrame é que ela me rouba a liberdade de tomar as providências necessárias para me ir dessa vida, se assim eu o desejar. Ser condenado a viver quando a vida se tornou insuportável e não mais se deseja viver é a pior das maldições. Mas esse é um medo pequeno, individual. A pergunta era sobre os grandes medos, medos relativos ao destino da terra, ao futuro da vida, medos que têm a ver com o mundo em que meus netos e bisnetos terão de viver ( ou morrer) . O último número da Geographic Magazine é dedicado a um Grande Medo: a crise climática que já se anuncia e que irá chegar de maneira catastrófica. A Terra está ficando mais quente. As calotas polares estão se derretendo. O nível e a temperatura dos oceanos vai subir. Milhares de formas de vida que formam o nosso eco-sistema vão morrer. O primeiro ministro Blair, espantado com o apocalipse, sugeriu ao presidente Bush que os Estados Unidos se unissem aos esforços mundiais no sentido de diminuir as emissões de gases que estão destruindo as camadas da atmosfera que nos protegem. O presidente Bush respondeu que a prosperidade do povo americano é mais importante. Peço perdão pela imagem chula que vou usar: o mundo está em perigo em virtude de um gigantesco peido venenoso e mal cheiroso que sai do traseiro da prosperidade americana. Outro Grande Medo é o lixo. Os organismos sobrevivem porque são dotados de mecanismos excretores: eles possuem órgãos cuja função é colocar para fora o lixo venenoso que se acumula dentro deles. De um jeito ou de outro todos os organismos têm de fazer cocô e xixi. Se não fizerem, morrerão envenenados. A Terra é o grande organismo que nos envolve e do qual dependemos. Mas o progresso a está enchendo de fezes continuamente: lixo. Li que cada habitante do planeta produz um quilo de lixo por dia, em média. Um bilhão de habitantes produzem um milhão de toneladas de lixo por dia. Multiplique por 6 e você terá as toneladas de lixo excremento que a população mundial diariamente solta na Terra. Multiplique por 365 e você obterá o peso do lixo anual. Todo ano. Sem parar. Acontece que a Terra não tem anus. Ela não formas de se livrar do lixo que se acumula. Está acontecendo com ela o que acontece com quem não faz cocô ou xixi: a Terra está sendo envenenada e acabará por morrer em conseqüência dos excrementos do dito progresso. Há também o Grande Medo da violência crescente e do terrorismo. Será que a ordem civilizada, tal como a conhecemos, deixará de existir? Estamos condenados a um futuro de barbarismo? E você? Qual é o seu Grande Medo? Ou você nunca parou para pensar no mundo em que seus netos vão viver? Eu já estarei morto. Não verei o horror. Mas tenho dó deles... Estou com o corpo cheio de pequenas feridinhas, pontos vermelhos. Nada grave. Marcas de micuins. Micuins são carrapatos tão pequenos que são praticamente invisíveis. Numa caminhada pelos campos de Pocinhos devo ter esbarrado num cacho dos ditos. Eles se espalham invisivelmente e a gente só os sente depois de agarrados à pele. A coceira é infernal. Olhando para as feridinhas pensei que foi isso que aconteceu com o presidente Bush. Ele não sabia que o deserto era um ninho de micuins. Agora ele e os Estados Unidos estão padecendo dessa coceira que não tem fim. Eles procuram que procuram os ninhos do micuins mas eles estão sempre em outro lugar. Meu primeiro contato com os micuins aconteceu quando eu tinha lá meus 14 anos. Estava passando férias numa fazenda, no Estado do Rio. Caminhei por um pasto e quando voltei os micuins, centenas deles, cobriam o meu corpo. Quando o carrapato é grande é fácil acabar com ele. Ele se agarra à pele, engorda, fica visível, perde a mobilidade. A gente o agarra, puxa e joga dentro da privada, se tiver nojo de espremer com a unha. Pode também queimar com um fósforo aceso. Eu corri para o banheiro. Tirei a roupa. Tomei banho. Esfreguei-me com bucha. Esfreguei-me com álcool. Mas havia um problema: como me livrar dos micuins que infestavam minha roupa roupa? Catá-los, um a um? Impossível. O enorme fogão de ferro, fogaréu aceso, deu-me uma idéia. Resolvi dar aos micuins o tratamento que a pia inquisição espanhola dava aos judeus: pus minha roupa no forno. Mas me esqueci. O alarme foi dado quando a cozinha se encheu da fumaça que saia do forno. Meu tratamento fora eficaz. Os micuins estavam reduzidos a carvão. Mas minha roupa também. Os Estados Unidos têm armas e competência para acabar com carrapatos grandes. Já com os micuins... No Vietã os micuins levaram a melhor. Parece-me que no Iraque eles estão adotando a minha técnica: torrar tudo, micuins e tudo o que há ao seu redor.
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