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| Quarto de badulaques (LIV) |
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QUER
SER AMADO? ALUGUE OS SEUS OUVIDOS: A delícia dos livros está em que eles,
repentinamente, nos abrem os olhos, e vemos então
coisas que nunca havíamos visto. A diferença entre os
textos científicos e os textos literários está em
que, enquanto os textos científicos nos colocam diante
da mesa metálica onde se dissecam os cadáveres, os
textos literários nos colocam bem no centro da vida.
Quando se lê literatura vive-se a vida de outras
pessoas, em outros temos, em outros lugares. Lendo,
viaja-se muito. Enquanto há turistas que viajaram pelo
mundo todo sem nunca haver saído dos seus lugares
medíocres. A literatura nos faz viver. No momento estou
dentro do último livro de Saramago Ensaio sobre a
lucidez. Esse livro me está dando grande sofrimento e
aflição porque está me fazendo ver o que sempre vi
mas nunca tive coragem e competência para dizê-lo.
Outro autor que me fascina é Milan Kundera, autor de A
insustentável leveza do ser. Acabei de ler o seu
O livro do riso e do esquecimento. Uma simples
frase me deu um choque: “Nós escrevemos porque nossos
filhos se desinteressaram de nós”. Sim, escrevemos
porque somos seres solitários à procura de outros
filhos. Ele conta a estória de uma jovem que trabalhava
como garçonete num bar. Seu nome era Tamina.
Tamina “fica sentada no bar, num tamborete, e quase
sempre há alguém que quer conversar com ela. Todo
mundo gosta de Tamina. Porque ela sabe ouvir o que lhe
contam. Mas será que ela ouve mesmo? Ou não faz outra
coisa senão olhar, muito atenta, muito calada? O que
conta é que ela não interrompe a fala. Vocês sabem o
que acontece quando
duas pessoas conversam. Uma fala e a outra lhe corta a
palavra: ‘é exatamente como eu, eu... e começa a
falar sobre si até que a primeira consiga por sua vez
cortar: é exatamente como eu, eu... Essa frase,
exatamente como eu, eu... parece ser um eco aprovador,
uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um
engodo: na verdade é uma revolta brutal contra uma
violência brutal, um esforço para libertar o nosso
próprio ouvido do adversário. Pois toda a vida do
homem entre seus semelhantes nada mais é do que um
combate para se apossar do ouvido do outro. Todo
o mistério da popularidade de Tamina é que ela não
deseja falar sobre si mesma. Sem resistência, ela
aceita os ocupantes de seu ouvido...” Esse
parágrafo não é fantástico? Ele repentinamente torna
absolutamente claros os diálogos da vida...
ADOTE
UMA CRIANÇA: Há livros que se lê uma vez e depois joga-se fora.
Lidos, esgotaram o que tinham para dizer. São os livros
de diversão. Parecem-se com as piadas: as piadas só
fazem rir na primeira vez que são contadas. Outros
livros, entretanto, são como fontes. A fonte é a
mesma. Mas a água que dela brota é sempre fresca,
sempre nova, sempre outra água. Retornamos sempre às
fontes. Cada retorno é uma felicidade nova. Na minha
infância havia uma fonte, um buraco simples em forma de
bacia, que me dava grande alegria visitar. Não que eu
estivesse com sede. Apenas para me encantar. Daquela
fonte nem meu pai e nem minha mãe ficaram sabendo.
Vocês são os primeiros a quem estou contando. Que
felicidade, encontrei na minha infância, solto por
espaços sem olhos.
Os adultos estragam o mundo das crianças com os
seus olhos. Diante da fonte minha amiga eu estava
sozinho, absolutamente sozinho. Guimarães Rosa, falando
de sua infância, disse que ela foi muito gostosa. A
única coisa que a atrapalhava eram os olhos dos adultos
que se intrometiam em tudo. Livrou-se disso quando
arranjou uma chave para o seu quarto. Trancado, podia
gozar livremente os seus devaneios. Esses livros-fonte
não são de diversão. São livros de encantamento. A
sua leitura é como beber água da fonte, sempre. Por
isso sempre voltamos a eles. Um dos livros-fonte que
mais me encantam é A poética do devaneio., de
Bachelard. Volto sempre a ele e é sempre como se fosse
pela primeira vez. Um curto texto que me encanta: “Nos
grandes infortúnios da vida, ganhamos coragem quando
somos o sustentáculo de uma criança. A inquietação
que temos pela criança sustenta uma coragem
invencível” (Livraria
Martim Fontes, São Paulo, p. 127). ( Não é curioso
que uma obra dessas nunca tenha sido best-seller? Afinal
de contas, o que é que o fato de ser best-seller revela
sobre uma obra? ) Lembrei-me desse texto ao pensar num
dos demônios mais potentes a habitar a alma humana.
Silencioso, manso, não baba, não tem convulsões. O
Tédio. O vazio. Viver sem razões para viver. Pensei
logo: só são atacadas pelo demônio Tédio as pessoas
que não são sustentáculo de uma criança, que não
têm inquietação por uma criança. O Tédio, nenhum
exorcista pode com ele. Nenhum terapeuta sabe as
palavras que o afugentam. O Tédio se cura com o olhar
de uma criança. Lembrei-me do filme “Confissões de
Schmidt”, com Jack Nicklson (???). Velho, vendo
transformar-se em espuma tudo aquilo que parecia ter
dado sentido à sua vida, encontrou um único lugar em
que se segurar: a carta de uma criança desconhecida...
Há tantas crianças soltas pelas ruas da cidade,
prontas a salvar-nos do Tédio...
DELMINO GRITTI é um escritor gaúcho. Passou muitos
anos pesquisando e colecionando pensamentos sobre os
livros. Mandou-me, como presente, o produto final: o
livro Sobre o livro e o escrever . É desses
livros que não exigem que o leiamos todo, começando na
primeira página. Qualquer página está cheia de frases
deliciosas e sábias. A grande presença no seu livro é
o escritor argentino Jorge Luis Borges. “A função de
todo poeta: transformarei minha dor em música”. “Na
minha época não havia ‘best-sellers e não podíamos
prostituir-nos. Não havia quem comprasse a nossa
prostituição”. “Os alunos pedem bibliografias. Mas
eu lhes digo que não há bibliografia melhor que o
próprio texto. Sarmiento não conhecia a bibliografia
que então havia. Nem Dante, nem Shakespeare.” Clarice
Lispector, Kafka, Murilo Mendes, Federico Garcia Lorca,
Ernesto Sabato, Sartre, Tagore, Drummond estão todos
lá, entre incontáveis outros. Vale a pena ler. (
Maneco Livraria & Editora Ltda, e-mail maneco@maneco.com.br
IMPRENSA
FLUMINENSE: Imprensa Fluminense é o nome de uma praça
em Campinas. Você sabe que praça é essa? É a praça
do teatro, no Cambuí, da feira de artesanato, ponto de
encontros felizes e descontraídos aos sábados e
domingos pelas manhãs, todo mundo passeando, lugar da
alma democrática do bairro, lugar das artes, teatro,
música, cultura. Agora eu gostaria de saber o que é
que esse nome “Imprensa Fluminense” tem a ver com
tudo isso! Deve ter sido alguma homenagem de alguém de
quem ninguém se lembra à dita Imprensa Fluminense,
certamente por algo meritório que ela tenha feito a
Campinas, algo que caiu no esquecimento. Hoje esse nome
não significa absolutamente nada. Essa mania de por
nome de pessoas nas ruas e nos prédios, acho que
começou com a Torre de Babel. Os homens, vaidosos, não
querem ser esquecidos depois de idos. A tolice não tem
idade. Os tolos de antigamente são iguais aos tolos de
hoje. Pois eles se ajuntaram e disseram: “Construamos
uma torre cujo cume toque os céus e façamos para nós
um nome”! A confusão começou quando eles
democraticamente resolveram consultar as bases para
escolher o nome. Cada um queria que o seu fosse o nome
escolhido. Então o pau quebrou e cada um foi para um
lado, deixando a torre inacabada. É possível que algum
astronauta americano maluco (acho que os astronautas
são sempre malucos! Por que ir lá em cima, naquela
solidão sem ar, sem água, sem verde, se aqui em baixo
é tão bonito e há tanta coisa para ser feita!)
financie uma expedição para achar os restos
arqueológicos da torre de Babel. Pois um dos
astronautas que foram à lua não financiou uma
expedição para achar os restos da Arca de Noé? Essa
aventura lhe custou mais caro que a viagem à lua, pois
caiu e quebrou uma perna ao tentar subir a montanha.
Acho que ele deixou a pouca inteligência que tinha na
lua. É daí que vem a palavra “lunático” Ciência
e sabedoria não se misturam. Tantos nomes nas ruas de
Campinas. Nomes que, para mim, são apenas sons sem
sentido: General Osório, Bonifácio de Tella, Duque de
Caxias, Sampainho, Frei Antônio de Pádua... Esses
nomes lhe trazem alegria? Pobres nomes! Humilhados,
reduzidos à condição placas de trânsito... Na Bahia
é diferente. Todos os logradouros públicos, com poucas
exceções, se chamam Antônio Carlos Magalhães ou
Luís Eduardo Magalhães. O que é muito bom porque
nunca se está perdido. Mas agora a praça coração do
Cambuí está sendo refeita! Sugiro, então, que um
outro nome lhe seja dado: “Praça Coração do
Cambuí”, “Praça dos Artistas”, “Praça do
Riso”, “Praça da Amizade”.
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