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| Quarto de badulaques (LIII) |
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Procurei e encontrei, o poema do Drummond bravo.
Ele queria apenas passear calmamente no calçadão da
praia de Copacabana, conversando com vento e mar, mas as
crianças e as professoras não o deixavam.
Ele queria apenas ler os livros que ele queria
ler e os fãs masculinos e femininos o invadiam com seus
próprios textos. Foi então que ele explodiu: “Ah, não
me tragam originais para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar. Não sou leitor do mundo nem
espelho de figuras que amam refletir-se no outro, à
falta de retrato interior. Sou o Velho Cansado que adora
o seu cansaço e não o quer submisso ao vão comércio
da palavra. Poupem-me, por favor ou por- desprezo, se não
querem poupar-me por amor. Não leio mais, não posso,
que este tempo a mim distribuído cai do ramo e azuleja
o chão varrido, chão tão limpo de ambição que minha
só leitura é ler o chão. Nem sequer li os textos das
pirâmides, os textos dos sarcófagos, estou atrasadíssimo
nos gregos, não conheço os Anais de Assurbanipal, como
é que vou —mancebos, senhoritas — chegar à poesia
de vanguarda e às glórias do 2.000, que telefonam?
Passam gênios talvez entre as acácias, sinto estátuas
futuras se moldando sem precisão de mim que quando
jovem (fui-o a. C., believe or not) nunca pulei muro de
jardim para exigir do morador tranqüilo a canonização
do meu estilo. Sirvam-se de exonerar este macróbio do
penoso exercício literário. Não exijam prefácios é
posfácios ao ancião que mais fala quando cala. Brotos
de coxa flava e verso manco, poetas de barba-colar e
velutínea calça puída, verde: tá! Outoniços,
crepusculinos, matronas, contumazes: tá! O senhor saiu.
Hora que volta? Nunca. Nunca de corvo, nunca de São-Nunca.
Saiu pra não voltar. Tudo esqueceu: responder cartas;
sorrir cumplicemente; agradecer dedicatórias; retribuir
boas-festas; ir ao coquetel e à noite de autógrafos-com-pastorinhas.
Ficou assim: o cacto de Manuel é uma suavidade perto
dele. Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera. Na
jaula do mundo passeia a pata aplastante. Cuidado com
ela! Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao
poeta quando nasceu. Ele não nasceu. Não vai nascer
mais. Desistiu de nascer quando viu que o esperavam
garotos de colégio de lápis em punho com professores
na retaguarda comandando: Cacem o urso polar, tragam-no
vivo para fazer uma conferência. Repórteres de
vespertinos, não tentem entrevistá-lo. Não lhe, não
me peçam opinião, que é impublicável qualquer que
seja o fato do dia e contraditória e louca antes de
formulada. Fotógrafos: não adianta pedir pose junto ao
oratório de Cocais nem folheando o álbum de Portinari
nem tomando banho de chuveiro. Sou contra Niepce,
Daguerre, contra principalmente minha imagem. Não quero
oferecer minha cara como verônica nas revistas. Quero a
paz das estepes a paz dos descampados, a paz do Pico de
ltabira quando havia Pico de ltabira, a paz de cima das
Agulhas Negras, a paz de muito abaixo da mina mais funda
e esboroada de Morro Velho. A paz da paz. ( Carlos
Drummond de Andrade )
Canela é uma
cidade no Rio Grande do Sul, a dez quilômetros de
Gramado. Lá estava eu caminhando, assombrado com a
natureza. Florestas, árvores seculares, araucárias,
hortênsias que cobrem todas as encostas,
infelizmente haviam sido queimadas pela geada. Riachos
cristalinos. Altíssimas cachoeiras. Lugar onde se deve
calar para escutar o silêncio do vento. Mas o que mais
me comoveu foram umas crianças. Diante da catedral magnífica,
de longe eu as vi agachadas, movendo-se agachadas, no
jardim à frente da igreja. Tinham luvas brancas nas mãos.
Aproximei-me e perguntei o que estavam fazendo. “Catando
lixo”, me responderam em meio a risadas. “O
que a gente mais encontra são tocos de cigarros...”
E me mostraram sacos de plástico cheios do lixo que
haviam recolhido no jardim. Os adultos sujando, as crianças
limpando. Enchi-me de alegria. Estou certo de que
“catar lixo” não é um dos itens dos programas
oficiais das escolas. Ninguém é aprovado ou reprovado
por catar ou não catar lixo. Faziam porque queriam.
Queriam os gramados verdes, sem os tocos de cigarro
brancos, testemunhos da grosseria e falta de educação
dos adultos. Aí veio a professora. Abraçamos,
rimos, conversamos e tiramos fotografias. Eram alunos da
5ª. Série do Colégio Marista Maria Imaculada. Prometi
às crianças que elas apareceriam no Correio Popular.
Pois aí estão elas, sorridentes.
Sugeri ao Sumo
Pontífice que criasse uma nova ordem religiosa, a
“Ordem dos Cata-Lixo”. Sua missão seria ir pelas
cidades e pelos caminhos catando lixo e ensinando os fiéis
a catar lixo. Mais importante que construir igrejas é
catar lixo. Porque Deus não mora em igrejas. Mora no
bom mundo que criou como Paraíso e os seres humanos
estragaram com o lixo. Enquanto isso as penitências
poderiam ser transformadas de repetições de rezas (
Deus e a Virgem já as sabem de cor e estão cansados de
ouvi-las, sempre as mesmas... )em sacos de lixo a serem
catados. Uma mentira, um saco de lixo. Um xingamento:
cinco sacos de lixo. Infidelidade: dez sacos de lixo.
Corrupção: o corrupto teria de viver por um ano do lixão,
na companhia dos urubus, seus colegas...
Numa escola de São
Paulo um pai ficou indignado quando soube que seu filho
e seus colegas catavam lixo numa praça, como parte das
atividades da escola. “Não estou pagando uma escola para que meu filho faça serviço de gari.
Por vezes penso que os pais podem ser grandes
inimigos da educação. Não se preocupam com a educação.
O que eles querem é que seus filhos passem no
vestibular.
Tomei o café da
manhã com um amigo, dono de um famoso cursinho. Ele me
disse algo mais ou menos assim: “Tudo
o que ensinamos é perda de tempo. Não faz sentido. Não
está ligado à experiência viva dos estudantes. Por
isso aquilo que nós supostamente ensinamos e eles supostamente aprendem é logo esquecido...” E
eu acrescento: a culpa não é deles, dos cursinhos. É
dos vestibulares –
esse estúpido sistema que muito contribui para a ruína
da educação. Por isso não dou a menor importância às
fotografias dos que passaram em primeiro lugar.
A conversa rolou
solta, navegando ao sabor das memórias de infância.
Contou-me esse amigo que o presente que o seu pai
recebeu quando completou cinco anos foi... uma enxada!
Sim, uma enxada! Dirão os que nada entendem de poesia:
“ Mas que presente absurdo para se dar a uma criança!” Não, foi
um presente profundamente amoroso. O pai estava dizendo
ao filho pequeno: “Você
já pertence ao mundo dos grandes. Você já é nosso
companheiro. Eu tenho uma enxada, seus tios têm
enxadas, seu avô tem uma enxada. Nós trabalhos no
campo. E estamos felizes porque agora você é um de nós...”
Nas cerimônias de iniciação era assim que se fazia: o
candidato era declarado adulto dando-se-lhe um objeto
representativo do mundo adulto...
Contou-me também
que, para o parto do seu pai, sua avó foi colocada
assentada num pilão! Parto de cócoras, que agora
voltou à moda. E o avô foi colocado a correr em volta
da casa, enquanto o parto acontecia. Diziam que a
corrida do marido ajudava a mulher parindo. Duvido. Mas
tinham duas grandes virtudes: afastar o pai do quarto,
porque ele só iria atrapalhar a ação da parteira. E
propiciar uma descarga muscular para a sua ansiedade.
Correr liberta energias represadas e tem um efeito tranqüilizador... Gaston Bachelard é um homem que amo pela erudição, simplicidade e poesia. Erudição e simplicidade, que coisa rara! A erudição de Bachelard está sempre escondida, para não atrapalhar. Erudição escancarada é sempre despudorada, pornográfica, ofensiva. A poética do espaço: esse é o título que deu a um dos seus livros. Poética do espaço? O espaço fica poético quando um homem o modela. Quem constrói uma casa faz um poema. Por isso enchemos as casas de plantas, de quadros, de música, de livros. E que dizer da poética das gavetas, dos cofres e armários? Ah! Quanta poesia as gavetas podem conter, especialmente aquelas que são trancadas à chave! A concha, casa assombrosa dos moluscos, os cantos, a imensidão íntima: todos esses espaços estão cheios de poesia.. Faz uns dias, olhando o jardim que minha filha Raquel plantou na pequena varanda do meu apartamento, lembrei-me de um parágrafo seu que me comoveu:“ Ergo suavemente um galho; um pássaro está ali chocando os ovos. Não levanta vôo. Somente estremece um pouco. Tremo por fazê-lo tremer. Tenho medo que o pássaro que choca saiba que sou um homem, o ser que deixou de ter a confiança dos pássaros. Fico imóvel Lentamente se acalma – imagino eu! – o medo do pássaro e o meu medo de causar medo. Respiro melhor. Deixo o galho voltar ao seu lugar. Voltarei amanhã. Hoje, trago comigo uma alegria: os pássaros fizeram um ninho no meu jardim.” Lembrei-me desse parágrafo porque estou recebendo visitas regulares de um beija-flor e de uma corruíra. Minha alegria: quem sabe eles farão ninhos no meu jardim!
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