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| Quarto de badulaques (LI) |
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PATATIVA DO ASSARÉ:
Que homem extraordinário! Leia esse poeminha e você
virará um poeta: “Prá gente aqui ser poeta / Não
precisa professor. / Basta vê no mês de maio / Um
poema em cada gaio / Um verso em cda fulô.”
Havia uma moça que passava sempre defronte da minha
casa. Eu a via, do outro lado da rua. Ela tinha um
defeito na perna que a fazia mancar. O seu rosto tinha
uma suavidade, uma beleza que me encantava. E eu ficava
com vontade de atravessar a rua e dizer-lhe: “Eu acho você muito bonita!” E voltar correndo para
dentro de casa. Nunca tive coragem. Tive medo de que ela
me considerasse um velho desrespeitoso, dando-lhe uma
cantada. E eu fico a me perguntar: Por que é tão difícil
dizer aos outros o quanto gostamos deles?
Os poetas não concordam com os teólogos. Os teólogos
descreveram Deus como um produto híbrido, cruzamento de
juiz e de banqueiro. Ele tem um livro de contabilidade
onde anota as dívidas dos homens. Pecados. Toda dívida
deve ser paga. Perdão livre não há. O pagamento tem
de ser feito na única moeda que o banqueiro-juiz
aceita: sangue, muito sangue, o sangue de Cristo. Já os
poetas descrevem Deus como jardineiro, outros como músico,
outros como criança... Escolha o de sua preferência.
Viviam, num país do oriente, 5 cegos que mendigavam
juntos à beira de um caminho. Eram amigos em virtude de
seu infortúnio comum. Todos tinham um grande desejo. Já
haviam ouvido falar de um animal extraordinário,
enorme, chamado elefante. Tão maravilhoso era o dito
animal que muitos afirmavam que ele era divino. Mas
eles, pobres cegos, nunca haviam estado com um elefante.
Ah! Como gostariam de conhecer um elefante. Aconteceu,
porque Alá ouviu suas preces, que um domador de
elefantes foi por aquele caminho conduzindo seu animal.
Foi uma festa! A criançada gritando, homens e mulheres
falando. Ouvindo tal
rebuliço os cegos perguntaram: “ O que está
acontecendo?” “Um elefante, um elefante”,
responderam. Eles se encheram de alegria e pediram ao
domador que os deixassem tocar o elefante, já que ver não
podiam. O domador parou o animal e os cegos se
aproximaram. Um deles foi pela traseira, agarrou o rabo
do elefante e ficou encantado. O segundo foi pelo lado,
abraçou uma perna e ficou encantado. O terceiro apalpou
o lado do elefante e ficou encantado. O quarto passou as
mãos nas orelhas do elefante e ficou encantado. E o último
segurou a tromba e ficou encantado. Ido o elefante os
cegos começaram a conversar. “Quem diria que o
elefante é como uma corda!”, disse o primeiro.
“Corda coisa nenhuma”, disse o segundo. “ É como
uma palmeira”. “Vocês estão loucos”, disse o
terceiro. “ O elefante é como um muro muito alto.”
“Vocês não são só cegos dos olhos”, disse o
quarto. “ São também cegos da cabeça. Pois é claro
que o elefante é como um ventarola.” “ Doidos,
doidos”, disse o quinto. “ O elefante é como uma
cobra enorme...” Por mais que conversassem eles não
conseguiram chegar
um acordo. Começaram a brigar. Separaram-se. E
cada um deles formou uma seita religiosa diferente: a
seita do deus-corda, a seita do deus palmeira, a seita
do deus parede, a seita do deus ventarola, a seita do
deus cobra...”
Há, nos Estados Unidos, um costume de que gosto: o
chamado “Mercado das Pulgas”. É assim: numa praça,
num dia da semana, as pessoas levam, de sua casa,
coisas que não mais usam para vender. A gente
junta tanta coisa inútil que poderia ser de utilidade
para outros. Sugiro que você faça um balanço nos
badulaques da sua casa... O Carlos Rodrigues Brandão,
como exemplo de uma economia de troca, criou na sua casa
em Pocinhos um canto onde as pessoas colocam objetos de
que não necessitam. E escreveu: “Deixe aqui aquilo
que você não mais usa. Tire o que você vai usar.”
Pelo que sei, para um candidato a santo ser
beatificado tem de dar provas de haver feito milagres.
Discordo. A marca do divino não são os milagres
excepcionais. A marca do divino é o milagre cotidiano
que é esse mundo, a vida,
meu olho, a asa de uma libélula, uma flor, o
arco-iris, a chuva, a sopa de fubá, o café, o pão
quente, o perfume do jasmim, o amor entre duas pessoas,
uma gota dágua numa folha, uma teia de aranha, uma
concha de caramujo, um poema. Eu amaria um santo que não
tivesse feito milagre algum mas que tivesse ficado
extasiado contemplando os milagres que Deus espalhou
pelo mundo.
Por razões que só Freud explica, quando eu era
menino adorava descascar mexiricas e enfiar meu
indicador no buraco que há no meio. Ficava com a
mexirica espetada, mostrando para todo mundo. De vez em
quando, nas minhas falas, conto esta experiência
infantil e o auditório morre de dar risada. Porque
todos eles fizeram a mesma coisa. Não é estranho isso,
que todas as crianças tenham a mesma idéia e o mesmo
prazer? Por que?
O teólogo
protestante Karl Barth brincava dizendo que os anjos,
quando estavam diante de Deus, tocavam Bach. Mas, em
suas reuniões particulares, tocavam Mozart. E eu
acrescento: E Deus escutava atrás da porta..
O rosto é uma
entidade curiosa. Nos jovens a sua plasticidade é
limitada pela resistência da matéria. Falta, no rosto
dos jovens, uma espiritualidade que só vem com a
velhice. Os músculos são muito fortes. Quando se
envelhece o rosto fica plástico. Se se fica triste as
linhas se verticalizam,
atraídas pela força e pelo espírito da
gravidade. Os velhos são graves. Se, ao contrário, se
fica alegre, as linhas verticais se tornam horizontais.
Bem dizem os textos sagrados que “um
coração alegre aformoseia o rosto mas um espírito
abatido resseca os ossos.” Acho que alegria é
melhor que operação plástica.
A moda é o
sucesso. Um famoso conferencista anuncia com letras
enormes: “O seu lugar é o pódio’ Imaginemos que
assim seja. Jogos Olímpicos. Corrida de 100 metros
rasos. Aí ele diz para todos: “ O seu lugar é o pódio!”
Os corredores disparam. Só um deles arrebenta a fita.
Nas olimpíadas são pouquíssimos os que vão para o pódio.
Isso vale para a vida inteira. Então, alguma coisa está
errada. O mais provável é que o dito conferencista está
mentindo para manter-se no pódio às custas da
credulidade das pessoas. Quem acredita que o seu lugar
é o pódio está sempre estressado, competindo,
tentando passar na frente. Quem não tem pretensões ao
pódio vive uma vida mais alegre. Não é preciso chegar
na frente. Mas
há uma seita que anuncia como palavra deDeus: “Você
está destinado ao sucesso!” Não sei onde descobriram
isto. Não conheço deus algum que prometa sucesso.
Lembrei-me de uma
passagem engraçada no livro Alice no País das
Maravilhas, de Lewis Carroll. Tratava-se de uma
corrida. Alice queria saber as regras. O Pássaro Dodo
explicou: “Primeiro
marca-se o caminho da corrida, num tipo de círculo, ( a
forma exata não tem importância), e então os
participantes são todos colocados em lugares
diferentes, ao longo do caminho, aqui e ali. Não tem
nada de “um, dois, tres, já”. Eles começam a
correr quando lhes apetece, ou abandonam quando querem,
o que torna difícil dizer quando a corrida termina.”
Assim a corrida começou. Depois que
haviam corrido por mais ou menos meia hora
o Pássaro Dodo gritou: “A corrida terminou!”
Todos se reuniram ao redor de Dodo e perguntaram:
“Quem ganhou?” “Todos ganharam”, disse Dodo. E
todos devem ganhar prêmios.”
A
patroa acertava os detalhes com a jovem que se
apresentara como candidata ao emprego de cozinheira.
“Quanto você pretende ganhar?” - perguntou-lhe a
patroa.” “Depende”, respondeu a candidata.
“Depende de que?”, perguntou a patroa. “Depende de
se é com penso ou sem penso. Se a patroa me diz o que
tenho de fazer é sem penso. Eu só faço, sem precisar
pensar.. Mas se ela não me diz, eu tenho de pensar. É
com penso. Custa mais.. Contou-se o Dr.Luiz Henrique, diretor da Fazenda Santa Elisa, que Campinas é a cidade no Brasil que tem a maior variedade de árvores. Falou-me sobre o “Complexo Botânico Monjolinho”, que eu já conhecia de caminhadas – maravilhoso! Segundo entendi, iniciativa do Dr. Hermes Moreira de Souza, pelos idos de 1960. Uma coisa comovente quando se trata de plantar árvores é que quem planta não vê o resultado. Só vê na esperança. Plantar árvores à cuja sombra nunca nos assentaremos. Aí a gente se alegra pensando que outros se assentarão à sua sombra e serão gratos ao desconhecido que as plantou. Nossa gratidão ao Dr. Hermes.
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