Quarto de badulaques (L)

          

          SOBRE O LER: Ler rapidamente aquilo que o autor levou anos para pensar é um desrespeito. É certo que os pensamentos, por vezes, surgem rapidamente, como num relâmpago. Mas a gravidez foi longa. Há frases que resumem uma vida. Por isso é preciso ler vagarosamente prestando atenção nas idéias que se escondem nos silêncios que há entre as palavras. Eu gostaria que me lessem assim. Quer eu escreva como um poeta, no esforço para mostrar a beleza, ou como palhaço, no esforço para mostrar o ridículo, é sempre a minha carne que se encontra nas minhas palavras.

          A PRINCEZINHA DE CUJA BOCA SALTAVAM SAPOS. Minha mãe me contava estórias. Contou-me a estória da menina que a madrasta enterrou por ter deixado que um passarinho bicasse um figo da figueira e cujos cabelos nasceram no jardim como relva verde. Contou-me a estória do macaco trocador e que a cada troca cantava um refrãozinho “Jingue le jingue que eu vou para a Angola”. Aprendi depois que ela ouvira esta estória da escrava forra Iaiá, que tomou conta dela quando pequena. Contou-me também a estória de uma princezinha, linda, linda, linda! Todos os moços se apaixonavam por ela. Até que ela abrisse a boca para falar. Quando ela falava, ao invés de palavras, saltavam de sua boca sapos e mais sapos. E se o interlocutor não fosse esperto o sapo grudaria no seu rosto. Ai, como essa estória é verdadeira! Todo mundo, de vez em quando, fala sapos, diz cobras e lagartos. 

          APLAUSOS AO PAPA:  O Papa assinou uma instrução sobre a liturgia que merece todo o meu louvor. Pôs ordem na casa. Primeiro, proibiu que padres permitissem que pastores protestantes participassem da celebração dos sacramentos. Muito certo. Sem essa proibição a casa cai. Pois a doutrina da Igreja está baseada na crença de que o Espírito Santo é comunicado pela imposição das mãos, coisa que vem desde São Pedro. Há, de São Pedro até os dias de hoje, um contínuo fluir desse carisma. E é esse carisma que dá ao sacerdote o poder para, ao pronunciar as palavras sagradas, transubstanciar o pão e o vinho em corpo e sangue de Cristo. Ora, os pastores protestantes estão fora dessa corrente. Portanto, falta-lhes o Espirito Santo. Se eles participarem da celebração dos sacramentos o milagre da transubstanciação  não acontece. Permitir que pastores protestantes participem da celebração dos sacramentos equivale a negar o fundamento sobre o qual a Igreja Católica foi construída. É por isso que o ecumenismo é também proibido. A diferença está em que a Igreja Católica afirma que o Espírito Santo anda dentro de um cano chamado “sucessão apostólica”. Os protestantes, ao contrário, acreditam que não há formas de encanar o Espírito Santo. Porque ele mais se parece com a chuva que cai onde quer, quando quer... Parabenizo, assim, o Papa, por sua sólida coerência teológica. A seguir ele proibiu o uso de música popular na missa. Tem todo o meu apoio. Há músicas que se cantam nas missas que são lamentáveis. E não tem nada a ver com ser popular ou não. “Oh! Deus salve o calix bento onde Deus fez a morada...” é música popular e é absolutamente linda. A Missa Creoula, a Missa Luba. O problema é a qualidade. Não basta juntar rimas e violão para se ter música.  A tradição musical cristã é maravilhosa: Canto Gregoriano, Bach, Monteverdi, Haendel, Mozart, Fauré, os Spirituals dos Negros norte-americanos. Por outro lado as músicas tradicionais católicas, arrastadas, que se cantavam nas procissões, não são modelos de beleza. Por último, o que mais me agradou. Imagino que o Sumo Pontífice deve ter lido uma crônica que lhe dirigi, faz anos, com o nome De Rerum Vetustarum. Nessa crônica eu lhe implorava que restaurasse o uso do latim na liturgia. Porque o latim é música pura, um deleite ouvi-lo. Só que eu não entendo latim. Assim, ao ouvir latim sem entender eu fico com a beleza da sua música e livre daquilo que se diz. Não quero entender para não me irritar. Não entendendo, fico a imaginar que o pregador está dizendo coisas maravilhosas. Pois não é que o Papa deu permissão aos padres para fazer uso do latim nas missas? Logo que as missas voltarem a ser ditas em latim eu estarei lá. Parabéns ao Papa. Parabéns ao Cardeal Ratzinger.

          TEXTOS BÍBLICOS QUE EU AMO:  “Come teu pão com alegria e bebe contente o teu vinho, porque Deus se agrada das tuas obras. Usa sempre vestes brancas e não falte óleo perfumado sobre a tua cabeça. Goza tua vida com quem tu amas todos os dias da tua vida que logo passa...” (Ec.9.7-9). 10).  “Não há outra felicidade para o homem senão alegrar-se... E é igualmente uma dádiva de Deus  o homem comer e beber e, mediante o seu trabalho, desfrutar da felicidade.” (Ec. 3..12-13).Na minha vida ouvi centenas de sermões. A maioria sobre o perigo do inferno e a necessidade de ser bom para Deus não se aborrecer com a gente. Nunca ouvi um sermão sobre esses textos. Parece que eles causam medo por louvarem o prazer, a alegria, o amor, o comer, o beber. O Cristianismo tem se nutrido do medo do prazer e da alegria. As feridas, o sangue, o tenebroso são mais persuasivos. Os pregadores e igrejas estabelecem seus próprios menus de textos deixando os outros de fora.

          EU ME METO EM CADA UMA!   Recebo muitos pedidos de entrevista via Internet. Quando posso, atendo. Um desses pedidos tinha a ver com meu livrinho O gato que gostava de cenouras – uma estória sobre o homossexualismo. Respondi as perguntas que me fizeram. Agora, a surpresa: minha entrevista apareceu no G-Magazine, que é uma revista gay, cheia de fotos de homens nus! Ignorante, nem sabia da existência de tal revista. Agora pasmem: foram a mulheres que me informaram! O que muito revela sobre suas curiosidades. Mas eu estou vestido.

          ABILIDADES EXCEPCIONAIS:  Antigamente se usava chamar de “excepcionais” as pessoas deficientes. De fato, elas são exceções, em meio à dita normalidade. Hoje essa palavra não é mais usada. Mas eu gosto dela na expressão “abilidades excepcionais”. Foi criada por um empresário do Paraná para se referir às abilidades excepcionais que os deficientes desenvolvem. “O  boy da minha empresa”, ele me disse, “não tem os dois braços. Sendo deficiente de braços ele desenvolveu abilidades excepcionais com as pernas. Anda com uma velocidade... Vai para os bancos com a bolsa de cheques pendurada no pescoço. Quem vai assaltar o moço sem braços? Não paga ônibus. E ainda por cima não fica na fila...” Ele fabricava capas para vídeos. Contou-me que as capas de vídeos, ao sair das formas, têm rebarbas que deve ser eliminadas. Ele descobriu que os cegos são muito mais rápidos em  identificar as rebarbas que os “videntes”. Basta correr a mão.  Sendo cegos, desenvolveram abilidades excepcionais com o tato. Já os paraplégicos realizam com muita competência a tarefa de ascensoristas de elevador...

          COISAS SIMPLES QUE COMOVEM:  Coisas extremamente simples acham um lugar imortal no coração. Há dias, conversando com os meus filhos, encontrei-me com elas, as coisas simples. O Sérgio me contou sobre quando ele era menino, tempo em que eu ainda fumava cachimbo. “Você viajava, eu ficava com saudade. Ia para o seu escritório que estava impregnado com o cheiro bom de fumo de cachimbo, perfumado. Era o meu jeito de matar a minha saudade...” O Marcos, por sua vez, me lembrou um incidente muito engraçado. Eu e ele estávamos no banco. Eu preenchia as guias de depósito, distraído. Enquanto isso ele examinava os cheques, sem que eu percebesse. Aí ele notou que as assinaturas estavam muito feias ( eram cheques de uma outra pessoa) e  se prontificou a me ajudar, melhorando-as. Pegou uma caneta e mãos à obra. Quando percebi já era tarde demais. Não sabia se ria, se chorava, se ficava bravo... Felizmente o gerente foi compreensivo e tudo terminou bem. Isso é uma das delícias de conversar com os filhos. A conversa é um ritual mágico que ressuscita memórias há muito enterradas.

Tive um primo de inteligência fulgurante. Éramos da mesma idade. Aos oito anos brincávamos de soldadinhos de chumbo. Mas seu o prazer era um Dicionário Comparativo de Português, Francês, Inglês e Alemão que estava fazendo. Eu olhava para aquele livro enorme de capa preta, daqueles que os contadores usavam para registrar a contabilidade de firmas, cada página dividida em quatro colunas, uma para cada língua. Na escola, quando tirava 98 numa prova ele batia com a palma da mão na testa em desespero e dizia: “Fracassei”. Dele jamais se poderia dizer que foi mau aluno. Seu brilho prometia uma vida de vitórias. Adulto, pela manhã, ao levantar, o seu primeiro gesto era ligar a fita da língua que estava aprendendo. Veio a conhecer doze línguas. Não sei direito para que. Que utilidade poderia lhe ter a língua húngara? Os benefícios de falar húngaro eram desproporcionais ao esforço de aprendizagem. Como psicanalista eu pergunto: Será que ele estava em busca da língua desconhecida que lhe permitiria entender a Babel da sua alma? Muitos brilhos são chamas de um coração infeliz. Lançou-se do sétimo andar de um prédio. Não suportou o sentimento de fracasso que lhe deu um discurso – pelos seus critérios o tal discurso não era  merecedor da nota 10. Matou-se por não suportar a vergonha de um pequeno fracasso. Esse é o perigo do perfeccionismo. Não conheço nenhum estudo que explore as relações entre genialidade e loucura. Mas deve haver. Conheci um homem que se vangloriava por ter um QI acima de 200. E tinha mesmo uma carteirinha de um clube de gênios com Q.I.acima de 200 que sempre levava consigo. Acho que para certificar-se de que era inteligente. Quando os outros não concordavam com ele julgava-os burros e ele, um incompreendido. Autoritário. Quem se julga possuidor de QI 200 tem de ser autoritário. Não saltou do 7o. andar apesar de ser um chato presunçoso. Não sei onde andará. Suspeito que tenha se mudado para o país dos homens com Q.I. acima de 200.