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- O vencedor já se prepara para receber o cheque de R$
500.000. Aí o apresentador lhe diz: “Para esse cheque
passar das minhas para as suas mãos basta que você
responda essa pergunta final: Qual a razão do nome Big
Brother, Grande Irmão, para esse programa?“ Você,
leitor, sabe a resposta?
- Eram 102 pessoas, 74 homens e 28 mulheres. No dia 6 de
setembro de 1620 eles embarcaram no navio Maryflower,
no porto de Plymouth, na Inglaterra, com destino
a um continente desconhecido, a América. Eram os
Pilgrim Fathers, pais peregrinos. Peregrino: vem do
latim, pela junção de per, que quer dizer “através“
e ager, que quer dizer “campo“. Peregrinos são
aqueles que perambulam por campos que não são seus. Se
tivessem campos não perambulariam. Morariam nas suas
terras, cultivariam os seus campos. Fizeram a viagem em
busca de terras que fossem suas porque eram sem terra.
Desembarcaram no dia 21 de dezembro de 1620 no lugar
onde hoje é a Nova Inglaterra. E fizeram o seu
assentamento. Os habitantes do lugar, os índios,
poderiam tê-los destruído. Não o fizeram. Foram
generosos. Eles não acreditavam que a terra pudesse ser
posse de alguém. Mas os Pilgrim Fathers queriam
ser donos da terra. E foram expandindo suas fronteiras.
E, à medida em que expandiam as suas, as terras dos índios
encolhiam. Chegaram a fazer até uso de guerra química:
mandaram de presente para uma tribo cobertores que
tinham sido usados por pessoas atacadas de varíola. A
tribo inteira morreu. Os sem-terra ganharam terras.
- O estado de Israel começou como um movimento de sem
terras... Os judeus não tinham terras – eram
errantes, sem lugar, perseguidos, discriminados,
expulsos, mortos, queimados pela Inquisição...
Peregrinos. Até que aconteceu o Holocausto, na Alemanha
nazista: 6.000.000 mortos nos campos de concentração.
Foi só então que o mundo se deu conta da injustiça:
era justo que os judeus sem terra tivessem a sua própria
terra. E aí as grandes potências que haviam ganho a
guerra decidiram que a terra dos judeus seria na
Palestina. Mas na Palestina já viviam centenas de
milhares de pessoas que, por séculos, haviam sido donas
da terra. Assim, para que os judeus sem terra tivessem
terras, os donos das terras tiveram de ser expulso. O
assentamento dos sem-terra judeus se deu graças à violência.
Os palestinos se transformaram, então, em refugiados.
Pior que peregrino. Porque o peregrino anda por campos
que não são seus, em busca de algo. Mas o refugiado é
aquele que mora de favor num campo que não é seu. Não
peregrinam porque não têm para onde ir. Só querem ir
para um lugar: a terra que lhes foi roubada. Não admira
que haja tanto ódio contra o estado de Israel.
- A tragédia que agora acontece no Oriente médio
acontece graças a dois assentamentos bem sucedidos de
sem-terras: o dos Pilgrim Fathers, patronos e
protetores de Israel, e o de Israel.
- Fico a pensar se há uma maldição sobre a história:
que os oprimidos, uma vez livres da sua condição de
opressão, se transformam em opressores. Os grandes
latifúndios! Como foi que essas terras que não eram de
ninguém se transformaram em posse de uns poucos? Ah!
Essas terras estão adubadas com muitas mortes! É
preciso reler o poema Vida e Morte Severina.
- Eu me pergunto: por que os palestinos que se explodem
como bombas vivas são considerados terroristas e Sharon
e Bush não são? Os palestinos matam de forma heróica.
Sharon e Bush de forma acovardada: que sejam outras as
pessoas a morrer; não eles. Todos fazem uso da violência
para atingir seus objetivos políticos. Todos matam
inocentes. Vejam o que Bush fez naquele país paupérrimo,
o Afganistão. E vejam o que Sharon está fazendo com os
Palestinos. Fico a pensar: o que é que liga Sharon à
tradição profética dos hebreus? Os profetas sonhavam
com o dia em que as espadas e lanças seriam
transformadas em arados e podadeiras. Os sonhos de
Sharon são outros: o que ele deseja é que os arados e
podadeiras sejam transformados em tanques de guerra e mísseis.
Como ele não tem nenhuma ligação espiritual com os
textos sagrados do judaísmo, imagino que aquilo que
ainda o liga à tradição de Israel seja o pênis
circuncidado... A única diferença entre Bush, Sharon e
os corpos-bomba (não mais se pode falar em homem-bomba
porque algumas mulheres também se transformaram em
bombas) dos palestinos está em que Bush e Sharon matam
inocentes em nome de um estado, enquanto os palestinos
matam sem ter um estado, em nome do sonho de recuperar
as terras roubadas. O Estado justifica a violência.
Violência do Estado não é chamada terrorismo. É
direito de defesa.
- “Estado é o nome do lugar onde todos bebem veneno!
Estado: onde o vagaroso suicídio de todos é chamado
vida“. (Nietzsche)
- “O fenômeno sinistro e horrível da vida humana que
hoje é chamado de estado totalitário não é,
certamente, um fenômeno acidental e temporário de
certas épocas. É revelação da verdadeira natureza do
estado. Aquilo que é considerado imoral para uma pessoa
é considerado inteiramente moral para o estado. O
estado tem sempre usado meios maus: espionagem,
falsidade, violência, assassinato; as diferenças, a
esse respeito, são apenas em grau; esses métodos,
inquestionavelmente maus, têm sido sempre justificados
por um fim bom e elevado. Para o poder do estado e o
prestígio da autoridade eles torturaram homens e
mulheres e nações inteiras. O estado desrespeita os
direitos dos seres humanos mais que qualquer outra
coisa. A política é, sempre, uma expressão da
escravidão dos homens“ (Nicolas Berdyaev)
- Pediram-me que escrevesse sobre a família verdadeira.
Ah! A família verdadeira! Que coisa mais linda! Família,
projeto divino: está colado em adesivos em carros. Mas
qual será a família verdadeira? Há tantos estilos:
patriarcais, matriarcais, poligâmicas. Pensei: a mais
verdadeira de todas só pode ser aquela que saiu
diretamente das mãos do Criador. E Deus criou o homem e
a mulher, Adão e Eva, e disse: “Frutificai e
multiplicai...“ E foi o que fizeram. Tiveram dois
filhos. Um deles era carnívoro e se deleitava com o
churrasco de ovelhas e se chamava Abel. O outro era
agricultor, trabalhava a terra, era vegetariano e se
chamava Caim. Aí, nesse ponto, achei mais prudente não
continuar a minha fala sobre a família verdadeira...
- “Ô-vida, meu Deus. Pior é que eu já perdi a inocência
para os partidos, então quando falam em ‘os
estudantes’ ou ‘as donas de casa’ eu saio no meio
do discurso, sejam quem for, porque não acredito que a
humanidade se salvará por uma de suas classes. Não
quero ser governada por operários enfatuados,
deslumbrados por terem a chave do cofre. Quero que me
governe um homem bom e justo, que cuide para que
chegando a noite todo mundo vá dormir cedo e cansado
com tanto trabalho que tinha pra fazer e foi feito. Nem
me importa se quem manda é rei vindo em linha direta de
Salomão...“ Dito pela Adélia Prado. Vocês sabem: os
poetas nunca se deram bem com a política, Guimarães
Rosa e Albert Camus que o digam...
- Resposta à pergunta: O nome Big Brother foi tirado da
novela de Orwell, 1984, que descreve uma sociedade
totalitária, na qual todas as casas eram monitoradas
por circuitos de TV, para que o \"Big Brother“, o
ditador supremo, ficasse sabendo tudo o que se passava.
Um homem, coitado, dormiu e sonhou um sonho proibido –
e falou durante o sonho. Bastou isso para que ele fosse
para a cadeia. É, portanto, um nome sinistro, nada
merecedor de risos. Mas quem lê Orwell? Ou melhor: quem
lê?
- “Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o
melhor do mundo são as crianças...” (Fernando
Pessoa)
(Correio Popular, 21/04/2002)

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