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- Fui viajar. É bom visitar outros lugares, ver coisas
diferentes, ter novas experiências. Viajei leve, pouca
bagagem. Mas os meus pensamentos foram comigo. Gostaria
de tê-los deixado em casa, para ver se eu mudava de
assunto, se eu ficava diferente. Mas não há jeito de
deixá-los em casa. Disse o Bernardo Soares: “De que
me adianta ir até a China se não consigo desembarcar
de mim mesmo? Quem cruzou todos os mares cruzou somente
a monotonia de si mesmo. As viagens são os viajantes. A
vida é o que fazemos dela. O que vemos não é o que
vemos, senão o que somos.“
- Todo turista leva máquina fotográfica. Certa vez,
conversando com meu amigo Jether, que ia batendo fotos
à medida em que viajávamos, eu lhe disse: “Não caia
na besteira de mostrar as fotos para os amigos. Ver
fotografias dos outros é uma chateação.“ Ao que ele
comentou: “Sei disso. Não mostro minhas fotos nem
para os filhos...“
- Fotografias há de dois tipos. As mais raras são
obras de arte, belezas que o olho do fotógrafo percebeu
e nos mostra. Olhamos a foto e ficamos espantados: não
havíamos visto a beleza que estava lá. Especialista
nessas fotos é a Helô, nome completo Heloísa Helena
de Castro Barbosa. A capa do meu livro As cores do crepúsculo
– A estética do envelhecer - é uma fotografia
dela. A Helô fotografa as coisas mais banais – coisas
com as quais um turista jamais desperdiçaria uma foto
– tais como folhas secas sobre o chão, um pau seco
saindo da lagoa, as marcas do vento sobre a areia – e
a gente leva um susto. Não é a boa câmera que faz a
fotografia. É o olho do fotógrafo. As outras são
aquelas de grandes cenários em que pessoas sorridentes
aparecem fazendo gracinhas. Banalidade pura.
- Fui a Alagoas, impossível esquecer Collor e PC
Farias, e tudo o mais relacionado com os políticos de lá.
Mesmo querendo banir os políticos do meu pensamento,
era impossível. As placas se sucediam, enormes, na
beira da estrada: “Obrigado, Renan”, “Obrigado,
Renan“. Como “obrigado“? Como se fosse um favor!
Político não faz favor. Cumpre a obrigação. Para
isso ele é eleito. Para ser servo, isso mesmo, servo,
empregado, serviçal, do povo. Tinha de haver um jeito
simples e rápido de despedir os políticos que não se
comportam como serviçais do povo. Eu até posso dizer
“obrigado“, da mesma forma como digo “obrigado“
ao frentista do posto de gasolina que me atendeu bem.
Mas quando os agradecimento são feitos sob encomenda,
com o mesmo tipo de letra, por atacado, pela própria
pessoa a quem os agradecimentos são dirigidos, isso é
pouca vergonha, falta de pudor. É. Há esses lugares em
que os políticos se consideram “césares“ romanos
com poderes para distribuir favores a quem quiser, na
esperança, é óbvio, de serem reconduzidos ao cargo
pela gratidão servil e estúpida dos eleitores. Como os
eleitores são estúpidos! Elegem cada deformação...
- Um amigo de longa data – foi meu colega de quarto
nos dias de seminário – é um gênio para línguas.
Poliglota. Empregou-se como intérprete da Embaixada do
Brasil em Washington. Parte do seu trabalho era
acompanhar nossas figuras políticas, governadores, que
frequentemente só falam o dialeto local, em suas
viagens pelos Estados Unidos. O que vou contar aconteceu
faz muitos anos. Ele foi intérprete-acompanhante de uma
ilustre figura política, governador de um dos nossos
estados. Não vou dizer qual. Vocês têm a liberdade
para imaginar. Pois o dito ínfimo governador, quando se
via num elevador com uma mulher norte-americana que não
entendia português, olhava para ela com o olhar mais
puro, e dizia com a voz mais suave, em português... as
piores obscenidades e pornografias que se possa
imaginar. A mulher – pobrezinha – sorria
inocentemente e dizia: “I’m sorry. I don’t
understand...“ Meu amigo nada podia fazer. Mas a
sua vontade era de vomitar.
- Gosto de Alagoas por dois motivos. Primeiro: o litoral
é lindo e ainda não foi estragado pelos turistas.
Segundo: as pessoas comuns, pobres, sandálias
havaianas, sorrisos francos sem vergonha dos dentes que
estão faltando, são maravilhosamente corteses e simpáticas.
Parte do prazer de viajar é conversar com pessoas
assim. Fazem renascer a esperança. E as crianças –
sim, as crianças. Vendo-as soltas, livres para explorar
o seu mundo, tive de compará-las com as crianças da
cidade, televisão, vídeogames, não sabem brincar sem
comprar, horários marcados, as mães nervosas servindo
de motoristas, aula de natação, aula de judô, aula de
balê, aula de alemão, aula de não sei mais o quê...
Sob a escravidão do relógio. Para aquelas crianças o
mar, a praia, os coqueirais, os barcos, as redes, a
liberdade, são o seu mundo.
- Os pescadores faziam o arrastão das redes. Trabalho
coletivo. Todos ajudando. A criançada ao redor,
esperando. Sem que ninguém lhes desse ordens, iam
enrolando as cordas. Elas já estão integradas na vida
dos adultos. Têm uma responsabilidade. É na vida que
aprendem. A vida é a escola. Pensei em nossas crianças
e adolescentes, completamente separados das
responsabilidades da vida. Por conta de estudar,
aprendendo coisas que não conseguem relacionar com o
dia-a-dia. Não têm responsabilidade de enrolar corda.
Ninguém depende deles. No dia-a-dia, o que é que eles
fazem com o aprendido? O aprendido, para ter sentido,
precisa estar ligado à vida.
- Terminado o arrastão, a rede trazia uma infinidade de
criaturas do mar, pequenas e grandes: algas, águas
vivas, caranguejos, camarões, estrelas do mar, ostras,
conchas, ouriços, peixes, polvos, pequenas enguias,
arraias. Os pescadores ficam com os peixes grandes. O
que sobrou é da meninada. Perguntei: o que vocês fazem
com aquilo que sobra? Responderam: A gente deixa
morrer... Sem dizer nada comecei a pegar as pequenas
criaturas que não serviam para nada e estavam
destinadas a morrer e comecei a devolvê-las ao mar. Os
meninos, sem dizer palavra, começaram a me ajudar no
trabalho de deixar viver. Eles compreenderam. Por vezes
não é preciso dizer nada: basta fazer.
- Quem anda na praia com olhos que sabem ver, vê todo
um universo: paus alisados pelo mar, conchas, pedras,
sargaços, pássaros pescadores, minúsculos mariscos,
gaivotas, urubus, cocos, coqueiros, flores, riachinhos,
areia, garrafas de plástico, sacos de plástico,
latinhas de refrigerante, estrelas do mar, estrelas no céu,
os ventos, as marés, a lua, os barcos com suas velas,
as redes, os pescadores, as velhas igrejas, choupanas...
Fiquei a pensar: que fantástico programa de estudos e
pesquisa poderia ser feito, usando esses materiais,
materiais que fazem parte do cotidiano da vida dessas
crianças: biologia, geologia, ecologia, nutrição, física
dos materiais, arte, geografia, geometria. Isso mesmo!
Até geometria. Porque as conchas, as estrelas do mar,
os peixes, as aves, são formas fascinantes.
- A única coisa que perturba a harmonia do ambiente são
os turistas. Alguns. Eles não vão lá a fim de ver o
mar, ouvir o vento, sentir a areia. Eles só querem
mudar de cenário para fazer as coisas que fazem sempre.
E, para eles, o som é essencial. A todo volume. Para
que todos saibam que eles têm som. Nunca desembarcam de
si mesmos. Por onde vão sua presença é uma perturbação
para o espírito. Fico a me perguntar: por que não
gostam do silêncio? Acho que, para eles, o silêncio é
o mesmo que o vazio. E o vazio é sinal de pobreza.
Nossa cultura provocou uma transformação perversa nos
seres humanos de forma que eles acreditam que, para
estar bem, é preciso estar acoplado a objetos tecnológicos.
Sem eles, é como se estivessem aleijados, como se
fossem pobres, como se não tivessem valor, como se não
existissem. Lembro-me de uma vez em que fui convidado
para fazer um passeio de barco pelo rio Tocantins.
Fiquei feliz. Imaginei o silêncio, o barulho da proa
cortando a água, o som da brisa, o pio dos pássaros,
os peixes saltando do rio. Mas bastou que entrássemos
no barco para que o capitão ligasse o rádio numa
dessas rádios em que o locutor anuncia papel higiênico
com o mesmo entusiasmo com que anunciaria a vinda de
Cristo. E aí, ao invés de navegar no rio, naveguei na
gritaria do rádio...
(Correio Popular, 27/01/2002)

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