Quarto de badulaques (IV) 



- Fui viajar. É bom visitar outros lugares, ver coisas diferentes, ter novas experiências. Viajei leve, pouca bagagem. Mas os meus pensamentos foram comigo. Gostaria de tê-los deixado em casa, para ver se eu mudava de assunto, se eu ficava diferente. Mas não há jeito de deixá-los em casa. Disse o Bernardo Soares: “De que me adianta ir até a China se não consigo desembarcar de mim mesmo? Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. As viagens são os viajantes. A vida é o que fazemos dela. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.“

- Todo turista leva máquina fotográfica. Certa vez, conversando com meu amigo Jether, que ia batendo fotos à medida em que viajávamos, eu lhe disse: “Não caia na besteira de mostrar as fotos para os amigos. Ver fotografias dos outros é uma chateação.“ Ao que ele comentou: “Sei disso. Não mostro minhas fotos nem para os filhos...“

- Fotografias há de dois tipos. As mais raras são obras de arte, belezas que o olho do fotógrafo percebeu e nos mostra. Olhamos a foto e ficamos espantados: não havíamos visto a beleza que estava lá. Especialista nessas fotos é a Helô, nome completo Heloísa Helena de Castro Barbosa. A capa do meu livro As cores do crepúsculo – A estética do envelhecer - é uma fotografia dela. A Helô fotografa as coisas mais banais – coisas com as quais um turista jamais desperdiçaria uma foto – tais como folhas secas sobre o chão, um pau seco saindo da lagoa, as marcas do vento sobre a areia – e a gente leva um susto. Não é a boa câmera que faz a fotografia. É o olho do fotógrafo. As outras são aquelas de grandes cenários em que pessoas sorridentes aparecem fazendo gracinhas. Banalidade pura.

- Fui a Alagoas, impossível esquecer Collor e PC Farias, e tudo o mais relacionado com os políticos de lá. Mesmo querendo banir os políticos do meu pensamento, era impossível. As placas se sucediam, enormes, na beira da estrada: “Obrigado, Renan”, “Obrigado, Renan“. Como “obrigado“? Como se fosse um favor! Político não faz favor. Cumpre a obrigação. Para isso ele é eleito. Para ser servo, isso mesmo, servo, empregado, serviçal, do povo. Tinha de haver um jeito simples e rápido de despedir os políticos que não se comportam como serviçais do povo. Eu até posso dizer “obrigado“, da mesma forma como digo “obrigado“ ao frentista do posto de gasolina que me atendeu bem. Mas quando os agradecimento são feitos sob encomenda, com o mesmo tipo de letra, por atacado, pela própria pessoa a quem os agradecimentos são dirigidos, isso é pouca vergonha, falta de pudor. É. Há esses lugares em que os políticos se consideram “césares“ romanos com poderes para distribuir favores a quem quiser, na esperança, é óbvio, de serem reconduzidos ao cargo pela gratidão servil e estúpida dos eleitores. Como os eleitores são estúpidos! Elegem cada deformação...

- Um amigo de longa data – foi meu colega de quarto nos dias de seminário – é um gênio para línguas. Poliglota. Empregou-se como intérprete da Embaixada do Brasil em Washington. Parte do seu trabalho era acompanhar nossas figuras políticas, governadores, que frequentemente só falam o dialeto local, em suas viagens pelos Estados Unidos. O que vou contar aconteceu faz muitos anos. Ele foi intérprete-acompanhante de uma ilustre figura política, governador de um dos nossos estados. Não vou dizer qual. Vocês têm a liberdade para imaginar. Pois o dito ínfimo governador, quando se via num elevador com uma mulher norte-americana que não entendia português, olhava para ela com o olhar mais puro, e dizia com a voz mais suave, em português... as piores obscenidades e pornografias que se possa imaginar. A mulher – pobrezinha – sorria inocentemente e dizia: “I’m sorry. I don’t understand...“ Meu amigo nada podia fazer. Mas a sua vontade era de vomitar.

- Gosto de Alagoas por dois motivos. Primeiro: o litoral é lindo e ainda não foi estragado pelos turistas. Segundo: as pessoas comuns, pobres, sandálias havaianas, sorrisos francos sem vergonha dos dentes que estão faltando, são maravilhosamente corteses e simpáticas. Parte do prazer de viajar é conversar com pessoas assim. Fazem renascer a esperança. E as crianças – sim, as crianças. Vendo-as soltas, livres para explorar o seu mundo, tive de compará-las com as crianças da cidade, televisão, vídeogames, não sabem brincar sem comprar, horários marcados, as mães nervosas servindo de motoristas, aula de natação, aula de judô, aula de balê, aula de alemão, aula de não sei mais o quê... Sob a escravidão do relógio. Para aquelas crianças o mar, a praia, os coqueirais, os barcos, as redes, a liberdade, são o seu mundo.

- Os pescadores faziam o arrastão das redes. Trabalho coletivo. Todos ajudando. A criançada ao redor, esperando. Sem que ninguém lhes desse ordens, iam enrolando as cordas. Elas já estão integradas na vida dos adultos. Têm uma responsabilidade. É na vida que aprendem. A vida é a escola. Pensei em nossas crianças e adolescentes, completamente separados das responsabilidades da vida. Por conta de estudar, aprendendo coisas que não conseguem relacionar com o dia-a-dia. Não têm responsabilidade de enrolar corda. Ninguém depende deles. No dia-a-dia, o que é que eles fazem com o aprendido? O aprendido, para ter sentido, precisa estar ligado à vida.

- Terminado o arrastão, a rede trazia uma infinidade de criaturas do mar, pequenas e grandes: algas, águas vivas, caranguejos, camarões, estrelas do mar, ostras, conchas, ouriços, peixes, polvos, pequenas enguias, arraias. Os pescadores ficam com os peixes grandes. O que sobrou é da meninada. Perguntei: o que vocês fazem com aquilo que sobra? Responderam: A gente deixa morrer... Sem dizer nada comecei a pegar as pequenas criaturas que não serviam para nada e estavam destinadas a morrer e comecei a devolvê-las ao mar. Os meninos, sem dizer palavra, começaram a me ajudar no trabalho de deixar viver. Eles compreenderam. Por vezes não é preciso dizer nada: basta fazer.

- Quem anda na praia com olhos que sabem ver, vê todo um universo: paus alisados pelo mar, conchas, pedras, sargaços, pássaros pescadores, minúsculos mariscos, gaivotas, urubus, cocos, coqueiros, flores, riachinhos, areia, garrafas de plástico, sacos de plástico, latinhas de refrigerante, estrelas do mar, estrelas no céu, os ventos, as marés, a lua, os barcos com suas velas, as redes, os pescadores, as velhas igrejas, choupanas... Fiquei a pensar: que fantástico programa de estudos e pesquisa poderia ser feito, usando esses materiais, materiais que fazem parte do cotidiano da vida dessas crianças: biologia, geologia, ecologia, nutrição, física dos materiais, arte, geografia, geometria. Isso mesmo! Até geometria. Porque as conchas, as estrelas do mar, os peixes, as aves, são formas fascinantes.

- A única coisa que perturba a harmonia do ambiente são os turistas. Alguns. Eles não vão lá a fim de ver o mar, ouvir o vento, sentir a areia. Eles só querem mudar de cenário para fazer as coisas que fazem sempre. E, para eles, o som é essencial. A todo volume. Para que todos saibam que eles têm som. Nunca desembarcam de si mesmos. Por onde vão sua presença é uma perturbação para o espírito. Fico a me perguntar: por que não gostam do silêncio? Acho que, para eles, o silêncio é o mesmo que o vazio. E o vazio é sinal de pobreza. Nossa cultura provocou uma transformação perversa nos seres humanos de forma que eles acreditam que, para estar bem, é preciso estar acoplado a objetos tecnológicos. Sem eles, é como se estivessem aleijados, como se fossem pobres, como se não tivessem valor, como se não existissem. Lembro-me de uma vez em que fui convidado para fazer um passeio de barco pelo rio Tocantins. Fiquei feliz. Imaginei o silêncio, o barulho da proa cortando a água, o som da brisa, o pio dos pássaros, os peixes saltando do rio. Mas bastou que entrássemos no barco para que o capitão ligasse o rádio numa dessas rádios em que o locutor anuncia papel higiênico com o mesmo entusiasmo com que anunciaria a vinda de Cristo. E aí, ao invés de navegar no rio, naveguei na gritaria do rádio...

(Correio Popular, 27/01/2002)