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- VELHICE: Descobri que eu estava velho há muitos anos,
num metrô de São Paulo. Foi assim: o vagão estava
lotado e não havia assento vago. Não liguei. Eu era
jovem, pernas e braços fortes, podia fazer a viagem de
pé, segurando um balaústre. Aí comecei a observar
metodicamente o rosto das pessoas, coisa que gosto muito
de fazer. Os rostos revelam mundo. Muitas crônicas me
apareceram no ato de observar um rosto. Uma vez, tomando
o meu café da manhã num hotel em Uberaba, fui comovido
pelo rosto de um garçom já meio velho, magro, calvo,
daqueles que não cortam o cabelo de um lado, para com
seus fios compridos tentar disfarçar (inutilmente) a
calva lisa. Aquele rosto me comoveu. E, quase que num
segundo, apareceu na minha imaginação a trama de um
conto. É sobre um garçom que trabalhava num hotel onde
pilotos e aeromoças pernoitavam. Ele se apaixona por
uma delas e a sua vida passa a girar em torno dos dias
em que sua escala de vôos fazia com que aquela que ele
amava secretamente dormisse no hotel. O garçom,
servindo o café da manhã, dela se aproximava e
respirava fundo para sentir o seu perfume. Até saiu
pelas lojas de perfume, à procura daquele... Terminado
o café ele recolhia copos e xícaras. Aí,
furtivamente, na cozinha, quando ninguém estava
olhando, os restinhos que haviam sobrado... Era como se
ele a estivesse beijando. Mas, voltando ao metrô. De
repente meus olhos encontraram uma moça que também
olhava para mim, com um discreto sorriso nos lábios.
Foi um momento de suspensão romântica: eu olhando para
ela, ela olhando para mim. Aquele poderia ser o início
de uma estória de amor por acontecer. Muitas estórias
de amor se iniciam em estações. Mas então, naquele
momento de suspensão romântica, ela fez um gesto
delicado: sorrindo, ela se levantou e me ofereceu o
lugar... Entendi então o sentido do seu sorriso:
olhando para mim ela se lembrava do seu avô, velhinho tão
querido... Compreendi que eu estava velho. Foi um
momento de revelação. Desde então o meu pensamento
volta sempre para a velhice.
- No dia do meu aniversário escrevi uma crônica com o
título “Fiquei velho...“ Eu estava feliz quando
escrevi. Mas minha crônica provocou cartas de protesto.
Muitos velhos não gostam de ser chamados de
“velhos“. Querem ser chamados de “idosos“. Não
gostaram do título da crônica. Pediram que eu trocasse
o “velho“ por “idoso“. Mas a palavra “idoso“
é boba. Não se presta para a poesia. “Idoso“ é
palavra que a gente encontra em guichês de supermercado
e banco: fila dos idosos, atendimento preferencial.
Recuso-me a ser definido por supermercados e bancos.
“Velho“, ao contrário, é palavra poética, literária.
Já imaginaram se o Hemingway tivesse dado ao seu livro
o título de “O idoso e o mar“? Eu não compraria. E
o poema das árvores, do Olavo Bilac: “Veja essas
velhas árvores“... Que tal “Veja essas árvores
idosas...“ É ridículo. Eu jamais diria de uma casa
que ela é “idosa“. A palavra “idosa“ só diz
que faz muitos anos que a casa foi construída. Mas a
palavra “velha“ nos transporta para o mundo da
fantasia. O velho sobradão do meu avô, onde vivi minha
infância. Meus livros velhos, folhas soltas de tanto
uso. Estão assim porque viveram muito, fiz amor com
eles, tão frequentemente e tantas vezes, que se
gastaram. O Chico tem uma linda canção com o título:
“O velho“. É triste. Se o título fosse “O
idoso” seria ridícula. Já imaginaram? O casal vai
fazer bodas de ouro: cabeças brancas. Eles se abraçam,
se beijam, e ele diz para ela, carinhosamente: “Minha
idosa“ - ao que ela responde com um sorriso: “Meu
idoso...“ Não é nada disso. É “minha velha“ e
“meu velho“...
- A metáfora mais bonita que conheço para a velhice é
o crepúsculo, o pôr-do-sol. O crepúsculo é lindo.
Faz pensar. No crepúsculo tomamos consciência da
rapidez do tempo. As cores rapidamente passam do azul
para o verde, para o amarelo, para o abóbora, para o
vermelho, para o roxo, para o negro... No crepúsculo
sentimos o tempo fluir rapidamente. Por isso muitas
pessoas têm medo dele. A famosa “happy-hour“
foi inventada como terapia para a tristeza do crepúsculo.
No crepúsculo nos tornamos poetas. Muitos poetas
escreveram sobre ele: Cecília Meireles, Fernando
Pessoa, Browning, Wordsworth.
- Alan Watts, no seu lindo livro “O Tao – o caminho
das águas“... (não é bem assim, mas digamos que o
“Tao“ é o deus do taoísmo. O deus do taoísmo é
um rio em que temos de navegar sem remar, flutuando ao
sabor das águas, sem fazer força, porque é inútil
nadar ao contrário)... escreveu o seguinte:
“Especialmente à medida que se vai ficando velho,
torna-se cada vez mais evidente que as coisas não
possuem substância, pois o tempo parece passar cada vez
mais rápido, de forma que nos tornamos conscientes da
liquidez dos sólidos; as pessoas e as coisas ficam
parecidas com reflexos e rugas efêmeras na superfície
da água.“
- Vou lançar um livro sobre a velhice. O seu título é
As cores do crepúsculo – a estética do
envelhecer. O crepúsculo como metáfora do
envelhecer. Há beleza no crepúsculo. Há beleza no
envelhecer.
- Algumas das coisas que você encontrará nele: O vôo
dos pássaros à tarde, Quero viver muitos anos, O
blazer vermelho, As viúvas, Os velhos se apaixonarão
de novo, Violinos velhos tocam música, O aposentado, A
solidão, Um único momento...
- Escolhi um lugar especial para o lançamento: a
Floricultura Floríssima. Há floriculturas onde as
flores ficam arrumadinhas nas prateleiras, como ficam as
caixas de sabão em pó nos supermercados. A pessoa vai
lá, escolhe a flor, o atendente embrulha o vasinho em
papel colorido, põe fita enrolada brilhante (nesse
ponto já é difícil ver a flor...), e pronto!
Floricultura: lugar aonde se vai para comprar flores! Não
a Floríssima. Quem vai à Floríssima e só compra
flores está doente dos olhos. Porque a Floricultura
Floríssima é um lugar encantado, com carpas coloridas
nadando sob as cachoeiras de um lago, colméias das minúsculas
abelhas açaí, mini-jardins, jardins de janelas,
jardins de portas, jardins de varanda de apartamento
(você sabia que é possível fazer um jardim numa
varanda pequena de apartamento? Minha filha Raquel fez
um para mim, com pedras vulcânicas, bromélias, bambus
japoneses – lindo!), artesanatos de todos os tipos,
insetos fantásticos. O mago da Floríssima é o
Paulinho, criatividade igual estou por ver. Fascinado
com as formas da natureza, ele usa o que sobra das árvores
para fazer coisas assombrosas. Para mim, com duas cascas
de coqueiro ele fez um boto azul. Com um outro tipo de
casca de coqueiro inventou uma libélula de um metro e
vinte de comprimento e asas enormes! O Paulinho olha
para as formas da natureza e vê as coisas que já estão
lá, a espera de que ele as torne visíveis. Na Floríssima
a imaginação se põe a voar e o corpo quer descansar.
Lugar bom para ficar assentado, sem fazer nada, só
olhando, olhando. Isso diferencia as floriculturas:
floriculturas aonde se vai para comprar o vaso e depois
de feita a compra vai-se embora, ou floriculturas aonde
se vai mesmo que não queira comprar nada, só para ver.
Mas é difícil ir lá sem ficar com vontade de comprar
ou alguma planta exótica ou um apito da amazônia ou um
inseto de cuieté ou uma cerâmica de artesão mineiro
ou um esquilo com cara malandra... Dia 15 de dezembro, sábado
próximo, a partir das 18:30 horas. Rua Joana de Gusmão,
126 (F. 3243 9381), perto do Bosque dos Alemães.
- “Trompetista Solitário“, aquele que toca trompete
no início da noite pelas ruas de Campinas. Escrevi
sobre ele e, de repente, começaram a aparecer no jornal
outros testemunhos sobre o que ele faz. Até o Cecílio
engrossou as louvações... Acontece igual em todos os
lugares. Solitário. De branco. Toca nas ruas. As
janelas dos apartamento se enchem de pessoas que estavam
vendo televisão. Fazem o que nunca haviam feito:
sorriem, aplaudem, acenam umas para as outras. Já o
batizaram de “Anjo“. Pois ele vai tocar no lançamento
do meu livro... Se você quiser conhecê-lo, apareça.
- Fui fazer uma fala em Volta Redonda. Me disseram que
antes haveria um concerto com uma orquestra de 50
violinos. Fiquei surpreso porque Volta Redonda é cidade
do aço e aço parece que não combina com violino.
Quando a orquestra entrou no palco fiquei assombrado:
crianças. Crianças do povo: negras, mulatas, brancas.
Tocaram como profissionais. A sua concentração, atenção
e disciplina me comoveram. Disso estou convencido: as
crianças só são indisciplinadas quando são obrigadas
a fazer o que não desejam. Aí o responsável me contou
que aqueles 50 violinos eram apenas uma fração de uma
orquestra de 150 violinos que já tocou até no Teatro
Municipal do Rio de Janeiro. Houve gente que criticasse
o projeto, alegando que violino não era instrumento do
povo. Povo, tocando violino, Haendel e Bach? Instrumento
do povo é cavaquinho, bumbo, pandeiro... Contaram-me
ainda de um outro projeto: corais cantando pelas ruas,
nas horas da madrugada... Isso em Volta Redonda, cidade
do aço. E em Campinas, cidade de Carlos Gomes? Natal
vem aí! Tempo para acordar os instrumentos guardados em
cima de armários e saí pelas ruas! Tempo para corais
cantarem pelas madrugadas silenciosas...
(Correio Popular, Caderno C, 09/12/2001.)

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