Quarto de badulaques (II) 



- VELHICE: Descobri que eu estava velho há muitos anos, num metrô de São Paulo. Foi assim: o vagão estava lotado e não havia assento vago. Não liguei. Eu era jovem, pernas e braços fortes, podia fazer a viagem de pé, segurando um balaústre. Aí comecei a observar metodicamente o rosto das pessoas, coisa que gosto muito de fazer. Os rostos revelam mundo. Muitas crônicas me apareceram no ato de observar um rosto. Uma vez, tomando o meu café da manhã num hotel em Uberaba, fui comovido pelo rosto de um garçom já meio velho, magro, calvo, daqueles que não cortam o cabelo de um lado, para com seus fios compridos tentar disfarçar (inutilmente) a calva lisa. Aquele rosto me comoveu. E, quase que num segundo, apareceu na minha imaginação a trama de um conto. É sobre um garçom que trabalhava num hotel onde pilotos e aeromoças pernoitavam. Ele se apaixona por uma delas e a sua vida passa a girar em torno dos dias em que sua escala de vôos fazia com que aquela que ele amava secretamente dormisse no hotel. O garçom, servindo o café da manhã, dela se aproximava e respirava fundo para sentir o seu perfume. Até saiu pelas lojas de perfume, à procura daquele... Terminado o café ele recolhia copos e xícaras. Aí, furtivamente, na cozinha, quando ninguém estava olhando, os restinhos que haviam sobrado... Era como se ele a estivesse beijando. Mas, voltando ao metrô. De repente meus olhos encontraram uma moça que também olhava para mim, com um discreto sorriso nos lábios. Foi um momento de suspensão romântica: eu olhando para ela, ela olhando para mim. Aquele poderia ser o início de uma estória de amor por acontecer. Muitas estórias de amor se iniciam em estações. Mas então, naquele momento de suspensão romântica, ela fez um gesto delicado: sorrindo, ela se levantou e me ofereceu o lugar... Entendi então o sentido do seu sorriso: olhando para mim ela se lembrava do seu avô, velhinho tão querido... Compreendi que eu estava velho. Foi um momento de revelação. Desde então o meu pensamento volta sempre para a velhice.

- No dia do meu aniversário escrevi uma crônica com o título “Fiquei velho...“ Eu estava feliz quando escrevi. Mas minha crônica provocou cartas de protesto. Muitos velhos não gostam de ser chamados de “velhos“. Querem ser chamados de “idosos“. Não gostaram do título da crônica. Pediram que eu trocasse o “velho“ por “idoso“. Mas a palavra “idoso“ é boba. Não se presta para a poesia. “Idoso“ é palavra que a gente encontra em guichês de supermercado e banco: fila dos idosos, atendimento preferencial. Recuso-me a ser definido por supermercados e bancos. “Velho“, ao contrário, é palavra poética, literária. Já imaginaram se o Hemingway tivesse dado ao seu livro o título de “O idoso e o mar“? Eu não compraria. E o poema das árvores, do Olavo Bilac: “Veja essas velhas árvores“... Que tal “Veja essas árvores idosas...“ É ridículo. Eu jamais diria de uma casa que ela é “idosa“. A palavra “idosa“ só diz que faz muitos anos que a casa foi construída. Mas a palavra “velha“ nos transporta para o mundo da fantasia. O velho sobradão do meu avô, onde vivi minha infância. Meus livros velhos, folhas soltas de tanto uso. Estão assim porque viveram muito, fiz amor com eles, tão frequentemente e tantas vezes, que se gastaram. O Chico tem uma linda canção com o título: “O velho“. É triste. Se o título fosse “O idoso” seria ridícula. Já imaginaram? O casal vai fazer bodas de ouro: cabeças brancas. Eles se abraçam, se beijam, e ele diz para ela, carinhosamente: “Minha idosa“ - ao que ela responde com um sorriso: “Meu idoso...“ Não é nada disso. É “minha velha“ e “meu velho“...

- A metáfora mais bonita que conheço para a velhice é o crepúsculo, o pôr-do-sol. O crepúsculo é lindo. Faz pensar. No crepúsculo tomamos consciência da rapidez do tempo. As cores rapidamente passam do azul para o verde, para o amarelo, para o abóbora, para o vermelho, para o roxo, para o negro... No crepúsculo sentimos o tempo fluir rapidamente. Por isso muitas pessoas têm medo dele. A famosa “happy-hour“ foi inventada como terapia para a tristeza do crepúsculo. No crepúsculo nos tornamos poetas. Muitos poetas escreveram sobre ele: Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Browning, Wordsworth.

- Alan Watts, no seu lindo livro “O Tao – o caminho das águas“... (não é bem assim, mas digamos que o “Tao“ é o deus do taoísmo. O deus do taoísmo é um rio em que temos de navegar sem remar, flutuando ao sabor das águas, sem fazer força, porque é inútil nadar ao contrário)... escreveu o seguinte: “Especialmente à medida que se vai ficando velho, torna-se cada vez mais evidente que as coisas não possuem substância, pois o tempo parece passar cada vez mais rápido, de forma que nos tornamos conscientes da liquidez dos sólidos; as pessoas e as coisas ficam parecidas com reflexos e rugas efêmeras na superfície da água.“

- Vou lançar um livro sobre a velhice. O seu título é As cores do crepúsculo – a estética do envelhecer. O crepúsculo como metáfora do envelhecer. Há beleza no crepúsculo. Há beleza no envelhecer.

- Algumas das coisas que você encontrará nele: O vôo dos pássaros à tarde, Quero viver muitos anos, O blazer vermelho, As viúvas, Os velhos se apaixonarão de novo, Violinos velhos tocam música, O aposentado, A solidão, Um único momento...

- Escolhi um lugar especial para o lançamento: a Floricultura Floríssima. Há floriculturas onde as flores ficam arrumadinhas nas prateleiras, como ficam as caixas de sabão em pó nos supermercados. A pessoa vai lá, escolhe a flor, o atendente embrulha o vasinho em papel colorido, põe fita enrolada brilhante (nesse ponto já é difícil ver a flor...), e pronto! Floricultura: lugar aonde se vai para comprar flores! Não a Floríssima. Quem vai à Floríssima e só compra flores está doente dos olhos. Porque a Floricultura Floríssima é um lugar encantado, com carpas coloridas nadando sob as cachoeiras de um lago, colméias das minúsculas abelhas açaí, mini-jardins, jardins de janelas, jardins de portas, jardins de varanda de apartamento (você sabia que é possível fazer um jardim numa varanda pequena de apartamento? Minha filha Raquel fez um para mim, com pedras vulcânicas, bromélias, bambus japoneses – lindo!), artesanatos de todos os tipos, insetos fantásticos. O mago da Floríssima é o Paulinho, criatividade igual estou por ver. Fascinado com as formas da natureza, ele usa o que sobra das árvores para fazer coisas assombrosas. Para mim, com duas cascas de coqueiro ele fez um boto azul. Com um outro tipo de casca de coqueiro inventou uma libélula de um metro e vinte de comprimento e asas enormes! O Paulinho olha para as formas da natureza e vê as coisas que já estão lá, a espera de que ele as torne visíveis. Na Floríssima a imaginação se põe a voar e o corpo quer descansar. Lugar bom para ficar assentado, sem fazer nada, só olhando, olhando. Isso diferencia as floriculturas: floriculturas aonde se vai para comprar o vaso e depois de feita a compra vai-se embora, ou floriculturas aonde se vai mesmo que não queira comprar nada, só para ver. Mas é difícil ir lá sem ficar com vontade de comprar ou alguma planta exótica ou um apito da amazônia ou um inseto de cuieté ou uma cerâmica de artesão mineiro ou um esquilo com cara malandra... Dia 15 de dezembro, sábado próximo, a partir das 18:30 horas. Rua Joana de Gusmão, 126 (F. 3243 9381), perto do Bosque dos Alemães.

- “Trompetista Solitário“, aquele que toca trompete no início da noite pelas ruas de Campinas. Escrevi sobre ele e, de repente, começaram a aparecer no jornal outros testemunhos sobre o que ele faz. Até o Cecílio engrossou as louvações... Acontece igual em todos os lugares. Solitário. De branco. Toca nas ruas. As janelas dos apartamento se enchem de pessoas que estavam vendo televisão. Fazem o que nunca haviam feito: sorriem, aplaudem, acenam umas para as outras. Já o batizaram de “Anjo“. Pois ele vai tocar no lançamento do meu livro... Se você quiser conhecê-lo, apareça.

- Fui fazer uma fala em Volta Redonda. Me disseram que antes haveria um concerto com uma orquestra de 50 violinos. Fiquei surpreso porque Volta Redonda é cidade do aço e aço parece que não combina com violino. Quando a orquestra entrou no palco fiquei assombrado: crianças. Crianças do povo: negras, mulatas, brancas. Tocaram como profissionais. A sua concentração, atenção e disciplina me comoveram. Disso estou convencido: as crianças só são indisciplinadas quando são obrigadas a fazer o que não desejam. Aí o responsável me contou que aqueles 50 violinos eram apenas uma fração de uma orquestra de 150 violinos que já tocou até no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Houve gente que criticasse o projeto, alegando que violino não era instrumento do povo. Povo, tocando violino, Haendel e Bach? Instrumento do povo é cavaquinho, bumbo, pandeiro... Contaram-me ainda de um outro projeto: corais cantando pelas ruas, nas horas da madrugada... Isso em Volta Redonda, cidade do aço. E em Campinas, cidade de Carlos Gomes? Natal vem aí! Tempo para acordar os instrumentos guardados em cima de armários e saí pelas ruas! Tempo para corais cantarem pelas madrugadas silenciosas...

(Correio Popular, Caderno C, 09/12/2001.)