Encaro
com a maior desconfiança os laboratórios nas
escolas. Nas escolas, acho que sua função não
é ensinar ciência aos estudantes, mas impressionar
os pais. Os pais facilmente se impressionam.. Vendo os laboratórios
eles concluem: “Uma escola com um laboratório
moderno assim deve ser uma boa escola... “
Poucos
se dão conta de que os laboratórios mentem aos
adolescentes. Pois o que eles dizem, silenciosamente, é
isso: “É aqui dentro que se faz ciência”.
Isso é mentira. Ciência não é uma
coisa que se faz em laboratórios. Ciência se
faz em qualquer lugar. Ela só precisa de duas coisas:
olho e cabeça. Assim, a primeira tarefa da educação
científica é ensinar a ver e ensinar a pensar.
Sei de pessoas que são capazes de produzir pesquisas
nos laboratórios mas que, andando em meio aos objetos
e situações do seu cotidiano, vêem e pensam
como se nada soubessem da ciência. De fato não
sabem, porque a sua ciência só acontece em laboratórios.
Vocês
se lembram do que escrevi sobre os moluscos que, para sobreviver,
constroem conchas eficazes e belas. E se lembram também
que Piaget, começando a partir do seu fascínio
pelos moluscos, concluiu que os seres humanos se comportam
da mesma forma. Parece haver uma estratégia universal
de sobrevivência que une todos os seres vivos. Também
nós, para sobreviver, construimos conchas eficazes
e belas, conchas que são feitas com instrumentos e
pensamentos. Pensamos para transformar o ambiente que nos
cerca em conchas.
Nossas
conchas se chamam casas. Casas não são apenas
os pequenos espaços construidos com tijolo e cimento
onde moramos. Casas são os espaços habitáveis
que nos cercam e onde a nossa vida acontece. Piaget sugere
que o impulso para conhecer é o impulso para incorporar
o espaço que nos rodeia. In-corporarção
quer dizer: colocar dentro do corpo. Ou seja: comer. Queremos
transformar a natureza em corpo. Quando isso acontece o corpo
fica grande, expande-se até os confins do universo...
A natureza deixa de ser estranha, exterior. Passa a ser “casa”,
espaço habitável. Ou, se quiserem, a natureza
humanizada, transformada ou em horta, boa para se comer, ou
em jardim, boa de se gozar... Pois o gozo também pertence
à vida humana – e acho que também à
vida dos animais...
Pensei
então numa escola que fosse uma casa, uma casa comum,
dessas onde os alunos moram, parecida com o espaço
de sua vida real. Essa idéia me veio quando uma amiga,
professora universitária, me contou um incidente divertido
e revelador: repentinamente metade de sua casa ficou às
escuras. Lembrou-se de que, quando algo semelhante acontecia
na casa de sua infância, seu pai trocava os fusíveis.
Concluiu: algum fusível dever ter se queimado. Disse,
então, ao filho de nove anos: “Filho, veja se
um fusível queimou!” Respondeu o menino: “Não
se usam mais fusíveis. Agora se usam disjuntores.”
Mas ela não sabia o que eram disjuntores, e nem como
estava estruturada a rede elétrica de sua casa, e assim
continuou a conversa entre os dois, ela, professora universitária
que, para passar no vestibular tivera de estudar física
elétrica com suas voltagens, wattagens, impedâncias,
ohms, tensões, fórmulas e outras coisas científicas
parecidas, totalmente ignorante frente a um simples problema
prático que estava acontecendo em sua casa, e o menino,
que nunca estudara física elétrica, mas que
conhecia os segredos da casa onde morava.
Embora
isso esteja esquecido, o caminho para a inteligência
passa através das mãos. Pensamos para ajudar
as mãos. Das mãos nascem as perguntas. Da cabeça
nascem as respostas. Se a mão não pergunta,
a cabeça não pensa. Pois laboratório
vem de “laborare”, trabalhar com as mãos,
que é essa cooperação entre mãos
e inteligência. Física mecânica, física
elétrica, física hidráulica, física
ótica, física dos materiais, matemática,
química, biologia, saude, geografia, história,
literatura, poesia, ecologia, política, sociologia,
arte – todas moram na nossa casa, ferramentas e brinquedos,
ao alcance das nossas mãos, desafios ao pensamento:
conhecer para “laborare” na construção
da casa de morada...
Li uma
entrevista do Amyr Klink em que, perguntado sobre a educação
dos filhos, disse que gostaria que seus filhos aprendessem
como aprendem as crianças numa ilha, se não
me engano, na costa da Noruega: aprendem as coisas que devem
ser aprendidas, para não ser nunca esquecidas, construindo
uma casa Viking. Assim, estamos de acordo...