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Faz
muitos anos subi ao alto da serra da Boa Esperança, que
eu só conhecia pela canção do Lamartine Babo. Lá de
cima, vendo o vale que se estendia abaixo, minha imaginação
começou a pensar sobre milênios. Há quanto tempo
aquela montanha contemplava o vale? 10.000 anos? 100.000
anos? Aí vi uma pedra branca, testemunha impassível da
passagem do tempo, e resolvi trazê-la para o meu escritório.
Estou olhando para ela, nesse momento. Não mudou nada:
o mesmo branco rosa, os mesmos planos de clivagem, a
mesma forma. Ficará assim, indefinidamente. Pedras estão
fora do tempo. O tempo lhes é uma realidade exterior: o
vento que sopra, a água que corre... São imutáveis,
sempre as mesmas, porque estão mortas.
Trouxe, junto com a pedra, umas plantinhas. Não
vingaram. Estranharam a minha casa. Plantas estranham o
ambiente. Gostam ou não gostam dele. Verdejam ou secam.
Diferentes das pedras, que não estranham nada. Para a
pedra tudo é igual. Indiferentes ao mundo que as cerca.
São sempre as mesmas. Porque estão mortas. As plantas
estão vivas. Porque estão vivas, as plantas estão
sempre se transformando numa outra coisa, diferente do
que são. A vida não suporta a mesmice. Nascer,
crescer, envelhecer, reproduzir. Nenhuma planta é igual
a si mesma num momento subsequente de tempo. As pedras
nem nascem, nem crescem, nem envelhecem, nem se
reproduzem. São eternas. São sempre as mesmas. Mortas.
A vida tem horror à mesmice. Um amigo, cientista
especialista em bambus, me emprestou um livro-arte
maravilhoso sobre bambus. Aprendi que os bambus
florescem. Espantei-me. Eu nunca vi um bambu florido.
Bambus, pelo que eu pensava saber, se reproduzem
assexuadamente: a planta mãe vai soltando brotos iguais
a si mesma. Mas o livro me disse que em períodos
aproximados de cem anos, uma mesma espécie de bambu
floresce, no mundo inteiro. Depois da orgia sexual, da
troca de gens, da ejaculação de sementes, morrem os
bambus. Os novos nascerão das sementes. Não serão
mais os mesmos que eram. Porque a semente é
precisamente isso: a vida se recusando a ser a mesma; a
vida sabendo que, para continuar viva, precisa “deixar
de ser” o que era para “vir a ser“ uma outra
coisa. Se não houver a mistura de gens, se a planta
quiser ficar sempre a mesma, ela se degenera. É preciso
deixar de ser o mesmo e se transformar em outro. Vale
para as plantas a sabedoria evangélica: “Quem quiser
salvar a sua vida perde-la-á“. Quem permanecer o
mesmo, morrerá. Ou se transformará numa pedra. Na
procriação existe sempre um pouco de morte. “Morre e
transforma-te!“, dizia Goethe. “Somente onde há
sepulturas há também ressurreições”, dizia
Nietzsche. “Se o grão de trigo, caindo na terra, não
morrer, fica ele só. Mas se morrer dá muito fruto”,
dizia Jesus.
“Casca vazia. A cigarra cantou-se toda“. Hai-kai, se
não me engano, de Bashô. Antes da casca vazia a
cigarra cantava canções subterrâneas - a vida
acontecia nas profundezas da terra. Mas, de repente, a
vida tornou-se outra. A cigarra subterrânea começou a
sonhar sonhos de ar livre e vôos. Saiu da terra. Sua
casca não era mais capaz de suportar a vida que crescia
dentro dela. Arrebentou. E dela surgiu um outro ser,
alado, pneumático. Nós, seres humanos, somos como as
cigarras. Só que nossas cascas são feitas com
palavras. Crescendo a vida, as cascas verbais se
transformam em prisões. Têm de ser abandonadas, para
que a vida continue. “A serpente que não pode
livrar-se de sua pele morre. Assim são os espíritos
que são impedidos de mudar suas opiniões. Eles cessam
de ser espírito“: aforismo de Nietzsche.
O ecumenismo foi uma florescência de bambus: o desejo
de fazer trocas, depois de séculos, o desejo de
transformar-se em semente, de cair na terra, de deixar
de ser o que era, para ser outra coisa. Possibilidade de
“nascer de novo“: o velho voltando a ser criança...
Mas agora, o Vaticano reafirma a sua imutabilidade pétrea,
sua mesmice, a eternidade de sua casca de palavras: “Quod
semper, ubique et ab omnibus creditum est.“ Entre
Heráclito e Parmênides, os teólogos oficiais católicos
canonizaram Parmênides... Entre a semente e a pedra,
reafirmaram a pedra. Os bambus estão proibidos de
florir. Para que florir? É desnecessário. A Igreja
possui a verdade toda. Não precisa dos outros. Proibido
está o jogo de trocar sementes. Diálogo, só para que
os outros sejam convertidos à sua verdade. Por que
ouvir o outro, se possuo a verdade toda? Por que
permitir que o outro fale, se aquilo que ele fala só
pode ser mentira? Todos os que pretendem possuir a
verdade estão condenados a ser inquisidores. Assim,
sobre todas as sementes se coloca a maldição do silêncio,
obsequioso...
Num pequeno lugar do sul de Minas, Pocinhos do Rio
Verde, há um pico de pedra bruta, a Pedra Branca. Para
se chegar ao alto passa-se por um bosque com regatos e
poços de água cristalina. Saindo do bosque, é a pedra
bruta, trabalhada pelo vento e pela água, através dos
milênios. Triunfo da pedra? Em pedras não se plantam
flores. A despeito disto a vida foi colocando matéria
orgânica nas gretas e depressões. E o que se vê é um
jardim: musgos, orquídeas, bromélias, avencas. Fosse a
pedra só, e seria desolação, deserto. Mas a vida
cresceu sobre a pedra – e vieram os pássaros, as
borboletas, as abelhas, os pequenos animais. Coitada da
pedra! É inútil reclamar. A vida e a beleza crescem
sobre ela, a despeito da sua mesmice pétrea. As
sementes - frágeis - são mais fortes que a pedra -
dura.
Compreendi, então, coisa que nunca havia compreendido:
as razões por que a Igreja Católica havia escolhido
para si mesma o símbolo Petrus – “Tu és
pedra“... De fato, ela é pedra. Casca de cigarra
sobre o tronco da árvore que continua a afirmar-se a si
mesma, a viver de memórias da vida que foi um dia e que
agora é morte. Não se dá conta de que a vida saiu e
voou. Compreendi, também, as razões para a sua
dificuldade em lidar com tudo que seja semente - sêmen
– o líquido do prazer que faz com que a vida nasça
outra.
Na estória de Ló e sua mulher, fugindo de Gomorra, está
dito que Deus os advertiu a não olharem para trás. A
mulher de Ló desobedeceu. Olhou para trás.
Transformou-se numa estátua, pedra de sal. O vento e a
chuva levaram o sal. A estátua desapareceu. Essa é a
tragédia das pedras: pensam ser eternas. Não sabem que
são sal. O tempo faz o seu trabalho. A areia da praia
um dia foi pedra...
(Transparências da eternidade, Verus, 2002)
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