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Manhã
de Domingo. Depois de muita chuva, o céu amanheceu
azul. Céu azul, depois de muita chuva, é uma
felicidade. Vou levar meu rebanho a passear. Convido meu
amigo Alberto Caeiro a me acompanhar. Também ele é um
guardador de rebanhos. “Minha alma é um pastor,“
ele diz. “Conhece o vento e o sol e anda pela mão das
estações a seguir e a olhar. Toda a paz da natureza
sem gente vem sentar-se ao meu lado...“
Se alguém o chamar de mentiroso, dizendo que nunca o
viu guardar rebanhos, ele logo explica que, de fato, ele
não pastoreia ovelhinhas brancas de lã e berros. Suas
ovelhas são as suas idéias, que ele leva a passear
pelos campos.
Os campos fazem bem tanto às ovelhas quanto às idéias,
especialmente nesse dia lindo por fora, mas meio
cinzento por dentro - que põe em mim uma sombra de
tristeza. Mas meu companheiro logo me consola, dizendo
que aquela “tristeza é sossego, é natural e é
justa, e é o que deve estar na alma quando já pensa
que existe e as mãos colhem flores sem ela dar por
isso.“ Vou, assim, contente com a minha tristeza,
levando minhas ovelhas, que estão visivelmente
agitadas. Acho que sentiram cheiro de lobo no ar.
Olho para o campo. Sinto que o Outono está chegando.
Suas marcas são inconfundíveis. Primeiro o ar, que
fica mais fresco, quase frio. Uma brisa vai passando,
brincando de fazer cintilar as folhas das árvores sob a
luz do sol. Nas folhas dos eucaliptos ela toma um banho
de perfume, e vem fazer cócegas no nariz da gente e nos
pelos do corpo, que se arrepiam de prazer. Friozinho
gostoso. Dali salta para o capim gordura e vai soprando
as suas hastes floridas. As florescências de Outono, eu
as acho mais bonitas que as florescências de Primavera.
As florescências de Primavera são “por causa de“.
As florescências de Outono são “a despeito de“.
Acho as flores do capim gordura mil vezes mais bonitas
que as rosas. Rosas são entidades domesticadas. Elas são
como o leite das vacas de estábulo, aquelas vacas
enormes, protegidas de sol e chuva, enormes olhos
parados, obedientes, jamais pensam um pensamento
proibido, só sabem comer, ruminar, parir, dar leite que
se vende em saquinhos de plástico. Assim também são
as rosas, crescidas em estufas, nada sabem sobre a
natureza, tal como ela é, ora bruta, ora brincante -
protegidas de sol e chuva, todas iguais, bonitas e
vazias. As flores do capim, ao contrário, são
selvagens. Inúteis todos os esforços para domesticá-las.
Basta tocá-las com mais força para que suas flores se
desfaçam. Elas acham que é preferível morrer a serem
colocadas em jarra. As flores do capim só são belas em
liberdade, tocadas pela brisa, pelo sol, pelo olhar.
Eu não tenho a felicidade do meu amigo Alberto Caeiro,
que dizia que só vê direito quem não pensa. Disse
mesmo que pensamento é doença dos olhos. Entendo e
concordo. Bom seria olhar para os campos e os meus
pensamentos serem só os campos. Nos campos há árvores,
brisa, céu azul, nuvens, riachos, insetos, pássaros.
Você, por acaso, já viu uma ansiedade andando pelos
campos? Ou uma raiva navegando ao lado das nuvens? Ou um
medo piando como os pássaros? Não. Essas coisas não
existem nos campos. Elas só existem na cabeça. Assim,
se os meus pensamentos fossem iguais ao que vejo, ouço,
cheiro e sinto ao andar pelos campos, o meu mundo
interior seria igual ao mundo exterior, e a minha mente
teria a simplicidade e a calma da natureza. Eu teria a
mesma felicidade que têm os deuses porque, como o meu
companheiro me segredou num momento de excitação teológica,
nos deuses o interior é igual ao exterior. Eles não
possuem inconsciente. Por isso são felizes.
Esse felicidade eu não tenho. Vejo e penso. Lembrei-me
do conselho de Jesus, de que deveríamos olhar para
flores do campo.
Olhei e elas começaram a falar. O que disseram?
Disseram o que dizem sempre mesmo quando eu não estou lá.
“Os seus olhos estão contemplando o que tem
acontecido por milhares de anos. Por milhares de anos
assim temos florescido. Por outros milhares de anos
assim continuaremos a florescer. Muitos outros rebanhos
perturbados como o seu já passaram por aqui. Mas deles
não temos mais memória. Passaram e nunca mais
voltaram. Desapareceram no Rio do Tempo. O Rio do Tempo
faz todas as coisas desaparecerem. Por isso nada é
importante. Nossas ansiedades também estão destinadas
ao Rio. Também elas desaparecerão em suas águas. O
seu sofrimento se deve a isso, que você se sente
importante demais, que você não presta atenção na
voz do Rio. Quando nos sentimos importantes nós ficamos
grandes demais. E junto com o tamanho da nossa importância
cresce também o tamanho da nossa dor. O Rio nos torna
pequenos e humildes. Quando isso acontece a nossa dor
fica menor. Se você ficar pequeno e humilde como nós,
você perceberá que somos parte de uma grande sinfonia.
Cada capim, cada regato, cada nuvem, cada coruja, cada
pessoa é parte de uma Harmonia Universal. Quem disse
isso foi Jesus. Ele disse que para nos livrarmos da
ansiedade é preciso ficar humildes como os pássaros e
as flores.
Aí o meu amigo Alberto Caeiro tomou a palavra e disse:
“Quando vier a Primavera, se eu já estiver morto, as
flores florirão da mesma maneira e as árvores não serão
menos verdes que na Primavera passada. Sinto uma alegria
enorme ao pensar que a minha morte não tem importância
nenhuma.“
Eu fiquei assustado com essas palavras mas ele me tranqüilizou.
“Se você se julgar muito importante, então tudo
dependerá de você. Mas se você se sentir humilde, então
tudo dependerá de algo maior que você. Você estará,
finalmente, nos braços de um Pai ou no colo de uma Mãe.
E quem está nos braços do Pai ou no colo da Mãe pode
dormir em paz...“
Aí as flores do capim retomaram a palavra.
“O Inverno vem. Com ele o frio e a seca. Parecerá que
eu morri. Mas minhas sementes já foram espalhadas. A
Primavera vai voltar, e com ela a alegria das crianças
e do brinquedo. Está lá nas Sagradas Escrituras:
“Lança o teu pão sobre as águas porque depois de
muitos dias o encontrarás.“ Coisa de doido. Pão lançado
sobre as águas some, não volta jamais. Mas é assim
que acontece no Rio de Tempo. Ele é circular. O que foi
perdido retorna. O que vem vindo é o que já foi.
Olhei em volta e vi minhas ovelhas mansamente deitadas
sob uma árvore...
(Transparências da eternidade, Verus, 2002)
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