Para uma menina chamada Dina


Minha crônica para minhas netas já estava esboçada. O seu título seria Terra. Minhas estórias sobre meu mundo de menino obedecem a um projeto filosófico. A primeira, A Máquina do Tempo, oferece a um professor com imaginação ocasião para começar uma conversa fascinante sobre o tempo – o que faria as crianças viajar até um longínquo passado, na Grécia, para uma conversa com Heráclito. A segunda, A Casa, é ocasião para se pensar sobre o pensamento. Por que pensamos? O que é que o pensamento faz? Casas não existem na natureza. Elas nascem do pensamento. Mas o pensamento é o lugar do que não existe. Uma casa pensada é uma casa que não existe. E de sua não existência surge a casa que existe. A matemática, toda ela, é um jogo lógico com coisas que não existem. O mundo surge do que não existe... Há muito pensamento por detrás de uma casa de pau-a-pique... Aí começaríamos um passeio pelos quatro elementos que, segundo os filósofos antigos, são a substância de que tudo é feito. Primeiro, o fogo: o fogão de lenha, o despertar do fogo... Depois, a água: a mina, as técnicas relacionadas à água. Hoje seria o dia da terra. E a próxima seria sobre o ar. Fogo, água, terra e ar: os quatro elementos fundamentais.

Mas aí apareceu uma coisa mais importante. Uma carta. A carta me comoveu tanto que resolvi adiar a terra e transcrever a carta, escrita por uma menina chamada Dina. Acho que vocês vão gostar. Transcrevo do jeito exato como foi escrita.

‘Á uns tempos atraz, o M. Castro escreveu uma cronica sobre os brincos da infancia. Falou sobre cirandinha, amarelinha, boca de forno, esconde-esconde, etc etc. Muito bem, e no final como sempre, ele pendurou no poste: Saudosista é a vovósinha.

Alem de ele ser saudosista, ele é tal qual voce, faz a gente voltar ao passado. Exemplo: a Casa e o Fogo, me fizeram voltar ao passado, muitos anos atraz. Tenho 86 anos, e hoje sou azilada. Lendo seus escritos, voltei ao passado. Aquela casa já foi minha nos idos de 29. Pau a pique e coberta de sapé. Quanta recordação que voce me trouxe. Quase fugiu da memoria, e voce veio fazer surgir á tôna, muito sofrimento e trabalho, mas tambem alegrias. Eu era quase uma menina. Tinha que buscar lenha no mato, fazer pão e acender aquele forno enorme para assa-lo. E na minha inexperiencia, quaze sempre saia ruim. As vezes nem crescia. Morava no Salto do Pinhal, onde havia usinas eletricas que forneciam luz para as fazendas visinhas. Lá havia uma cachoeira, era o rio Mogi-Guaçu. Aquele caudal de agua que caia sobre as pedras, levantando espumas, tal qual as nereidas do mar. Rugia dia e noite embalando o nosso sono, pois ficava em frente a janela do quarto. E nas noite enluaradas e o céu cheio de estrelas, sem a poluição atual, ela se tornava um caudal luminoso. Como era lindo! No tempo da piracema, os peixes pareciam ter asas, eles saltavam a cachoeira para a desova. Rubem, era uma beleza! Muitos não conseguim e caiam sobre as pedras, e eu da janela ficava torcendo para que eles conseguissem. Sem falar nos pirilampos, no coaxar dos sapos, na revoada dos tangarás a tarde onde eles iam se alojar nas pedras da agua da cachoeira para dormirem. A mata nativa, era exuberante, havia nela tanto bichinho, borboletas orquideas, a gente não adentrava porque existia cobras e bichos perigosos. Aquelas arvores de um verde escuro (era a mata ciliar) com suas flores roxas e brancas, traziam alegria para suavisar a rudez das nossas vidas. Sabe, Rubem, era tudo rudimentar tal qual voce falou no Fogo. Aquele fogão, a vassoura de guaxuma ou alecrim, tudo isso, eu conheci e tracei na raça. Por isso queridos Rubem e M. Castro, fazem-me voltar ao passado. O Castro, quando eu era criança, naqueles brincos da infancia cheio de inocencia, que hoje não existe mais. Faz-me lembrar dos meus oito anos, de Casemiro de Abreu. Voces fizeram me reviver o passado que parece não ser muito distante, pois veio-me a tôna como se estivesse vivenciando aquele tempo. (...) Quase não posso ler, tenho problema nos olhos, mas sou uma velha muito, mas muito mesmo teimosa, e isso me prejudica um pouco. Mas gosto de mim assim mesmo. Deus tem me ajudado a ‘vencer’ a velhice. Dificil, não é? Mas não impossivel. Um abração para voce e o Castro. De vez em quando dou um beijo no retratinho dele que vem impresso na coluna, quando ele escreve coisas que eu gosto. Desculpe, são trez laudas, não é muito, pois não? Moro no Recanto dos Velhinhos. Rua Arlindo Gomes 285. Novo Campos Eliseos. Campinas. Congregação Cristã do Brasil. Venham nos visitar, tragam suas esposas para nos conhecer. Seria um grande prazer recebe-los.

Tenho muita coisa escrita, mas muitas se perderam no tempo. Mas ficou ainda algumas que guardo com carinho porque são Reminiscencias do passado. Muita coisa não recordo mais, mas ainda me considero um baluarte, apezar dos 86 anos. Se tiver erros no meu portugues, desculpe. Sou autodidata e não erudita.

PS: Hoje, domingo dia 11, li sua cronica sobre a agua. Pelos meus escritos voce sabe que tambem conheço uma mina. Não uma mas diversas. No final você diz que tem algo te machucando. Rubem, não será saudade? Depois de uns poucos anos todos nós sofremos desse mal. Acertei? (...) Nós, seus leitores, poderemos compartilhar e fazer votos que voce se cure. Mas o subterranio da vida, voce tem que atravessa-lo sozinho.

As vezes as letras saem meio tortas, porque não tenho mesa para escrever, escrevo em cima de um caderno de capa dura e no colo. Dina de Sousa.’

Dina, querida, você é uma menina! Se havia alguma coisa me fazendo sofrer, lendo sua carta eu sorri e ri – como estou rindo agora! – e fiquei curado. Você escreve muito gostoso. Já li sua carta muitas vezes e a li também para o grupo que amigos que se reúnem comigo às 3as. feiras para ler poesia. Sua carta é poesia. Aqueles peixes com asas, a revoada dos tangarás... Poesia e sabedoria! Que bom que você existe! Não tenho fotografia sua. Se tivesse faria o que você faz com as fotos do Moacyr Castro: daria um beijo nela! De qualquer forma, estou dando um beijo em você – mesmo de longe! Rubem (Correio Popular, Caderno C, 18/03/2001)

Dina, querida, você é uma menina! Se havia alguma coisa me fazendo sofrer, lendo sua carta eu sorri e ri – como estou rindo agora! – e fiquei curado. Você escreve muito gostoso. Já li sua carta muitas vezes e a li também para o grupo que amigos que se reúnem comigo às 3as. feiras para ler poesia. Sua carta é poesia. Aqueles peixes com asas, a revoada dos tangarás... Poesia e sabedoria! Que bom que você existe! Não tenho fotografia sua. Se tivesse faria o que você faz com as fotos do Moacyr Castro: daria um beijo nela! De qualquer forma, estou dando um beijo em você – mesmo de longe! Rubem (Correio Popular, Caderno C, 18/03/2001)