O tato
é o sentido que marca, no corpo, a divisa entre Eros
e Tânatos. É através do tato que o amor
se realiza. É no lugar do tato que a tortura acontece.
Escarafunchei
minhas memórias de leitura e não encontrei nada
que se referisse ao tato, exceto na poesia e na literatura.
Um dos poemas de Fernando Pessoa que mais me comovem é
construído a partir de uma experiência de um
toque. “Foi um momento o em que pousaste sobre o meu
braço, num movimento mais de cansaço que pensamento,
a tua mão, e a retiraste. Senti ou não? Não
sei. Mas lembro e sinto ainda qualquer memória fixa
e corpórea onde pousaste a mão que teve qualquer
sentido incompreendido, mas tão de leve!.. Como se
tu, sem o querer, em mim tocasses para dizer qualquer mistério,
súbito e etéreo, que nem soubesses que tinha
ser.” ( Fernando Pessoa, Obra Poética, Editora
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, p.178 ) A mão toca o
braço, sem pensar, para dizer... E daí surge
um poema.
O olhar
pode revelar amor ou morte. Mas o olhar exige distância
para ver. O olhar não toca. Os olhos, para ver, têm
de estar distantes da pele. O olhar promete, anuncia, ou o
carinho ou o soco. Mas o olhar não é nem o carinho
e nem o soco. Carinho e soco são entidades do tato.
A audição
também. Ouvir um poema pode ser uma experiência
de amor (como no filme “O carteiro e poeta”).
Mas nenhum amante se contenta com a alegria que seus ouvidos
lhe dão ao ouvir a voz da pessoa amada. A voz não
basta. A conversa ao telefone é alegria. Mas o telefone
terá de ser desligado sem que se realize a promessa
de carinho que estava presente na voz. Beethoven escreveu
uma sonata que recebeu o nome de “Sonata do adeus”.
Ela se divide em três partes. Inicia-se com três
acordes de profunda tristeza e que dizem vagarosamente “Le-be-wohl”
– “Adeus”. O segundo movimento é
a “Ausência” – um tempo melancólico
de tédio. Distância vazia. E o terceiro, de esfuziante
alegria, o “Retorno”. Retorno é poder abraçar
de novo, tocar, acariciar, beijar, fazer amor... A alegria
dos ouvidos é mendiga. Ela está sempre mendigando
o toque. Recebi uma chamada telefônica a cobrar. Ao
atendê-la ouvi uma voz desconhecida que me ameaçava
com um “grupo fortemente armado” caso não
atendesse suas exigências. Eu não disse nada.
Só desliguei o telefone. A voz, sozinha, não
pode cumprir suas ameaças. A voz não pode perfurar
o meu corpo.
O tato
acontece quando a pele e, portanto, o meu corpo, é
tocado por algo de fora (ou por ele mesmo...). Nisso está
a sua delícia! Nisso está o seu perigo!
A primeira
experiência do nenezinho ao vir ao mundo é a
experiência de tato. Sem nada saber, sua boquinha já
mama um objeto ausente. Fome, dirão. Não tenho
tanta certeza. Se fosse fome o nenezinho pararia de chorar
somente depois que o leite fizesse seu trabalho tranqüilizador
no estômago. Mas não é assim. O nenezinho
para de chorar imediatamente quando sua boca se ajusta ao
seio. É uma experiência tátil de tanto
prazer que permanece gravada inesquecivelmente em nossa memória
erótica. É por isso que, mesmo depois de desmamados,
os nenezinhos continuam à procura da experiência
tátil original, completamente dissociada do leite.
Está aí o segredo das chupetas: foram inventadas
para substituir o seio... Enquanto escrevia fiz uma experiência
mental: imaginei-me chupando uma chupeta. Senti-me meio ridículo,
mas gostei. Imaginei, então, que talvez as pessoas
que lutam para deixar o cigarro pudessem encontrar satisfação
para o seu desejo chupando uma chupeta... Quem sabe o seu
mal é saudade do seio, de qualquer seio...
E não
será por isso que os homens sentem prazer em beijar
o seio da mulher amada? Quando se beija o seio da mulher amada
não se pode ver o seu rosto e não é preciso
ouvir a sua voz.
Mas o
tato é, talvez, o sentido sobre o qual menos se tenha
falado. Há uma filosofia dos olhos, uma filosofia do
ouvido, uma filosofia da boca. Mas desconheço uma meditação
filosófica sobre o tocar. E, no entanto, a pele é
lugar de tantas alegrias. Lembro-me de uma cena do filme “Cidade
dos Anjos”. Quando o Anjo Apaixonado resolveu tornar-se
humano, mesmo ao preço de perder sua imortalidade,
ele entrou no mundo desconhecido das delícias do tato.
Há uma cena em que ele está tomando um banho
de chuveiro. Ah! Que experiência assombrosa de prazer
e alegria! E, no entanto, é uma experiência que
temos diariamente. Acontece que, em nossos rituais, ela não
é uma experiência erótica mas simplesmente
um automatismo prático da caixa das ferramentas.
Os prazeres
do tato estão em todos os lugares. Só é
necessário prestar atenção. Tive uma
cólica renal. No hospital me trataram com buscopan.
Uma injeção. Duas. Três. Quatro. Aí
eu já estava verde e comecei a vomitar de dor. O médico
disse à enfermeira: “Aplica uma dolantina...”
Ela aplicou. Cinco minutos depois eu estava no paraíso.
Senti, então, o insuperável prazer de simplesmente
não ter dor!
Mas o
que é que o tato e a pele têm a ver com a educação?
O que é que a pele tem a ver com as rotinas escolares?
Sobre isso falaremos depois...