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Desejo
tranqüilizar os meus amigos: a raiva passou. Não estou
mais levando para a minha cama o garçom-cantor... O que
desejo, hoje, é fazer umas tranqüilas reflexões sobre
a justiça e a legalidade.
É preciso compreender que legalidade e justiça são
duas coisas totalmente diferentes. Nos tempos de Jesus
era legal que uma mulher adúltera fosse apedrejada. Os
apedrejadores, gente do povo, não eram considerados
criminosos. Não eram levados perante os tribunais como
assassinos. Mas esse ato que era legal, era justo? Nos
tempos da inquisição era legal que os judeus fossem
queimados em praça pública – com entusiástica
participação do povo. Milhares o foram. Mas esses atos
legais, aprovados pelas multidões populares, eram
justos? No Brasil antigo era legal que os senhores
fossem donos de escravos, com direito a amarrá-los no
pelourinho para açoitá-los em praça pública, como
espetáculo. Era justo? Em certos países maometanos é
legal que os ladrões tenham a sua mão direita
decepada. É justo? Na Inglaterra do século XIX era
legal que os donos de tecelagem usassem mulheres e crianças
para trabalhar em suas fábricas por até 18 horas por
dia. Sobre isso Marx escreveu muito. Era legal. Tanto
era legal que não se conhece caso de um dono de
tecelagem que tenha sido levado perante os tribunais por
essa prática. Era legal. Era justo?
Existe uma enorme distância entre a legalidade e a
justiça – e essa é a razão por que as leis estão
sempre passando por transformações. Se as leis fossem
justas elas não precisariam ser mudadas. São mudadas
porque são injustas.
Lutei muito durante essa semana para ver se eu
conseguia, a partir do que sei sobre filosofia e
teologia, chegar a uma definição de justiça.
Fracassei. Não sei o que é justiça. Sei o que é o
‘sentimento de injustiça’ – uma coisa dentro da
alma que diz que as coisas não deveriam ser da forma
como são. Marx sugeriu ‘de cada um segundo as suas
possibilidade e a cada um segundo as suas
necessidades.’ Acho bonito e certo. Mas não sei como
implementar esse princípio. Ele me é, portanto, inútil.
A partir dessa discrepância entre o que é justo e o
que é legal sinto-me tentado a sugerir que o nome
‘Palácio da Justiça’ seja substituído pelo nome
‘Palácio da Lei’. Acho que esse nome seria mais
verdadeiro.
Não tenho estudos especiais no campo do direito. A
despeito disso – e pedindo que os entendidos me
corrijam, pelo que ficarei muito grato – me parece que
os mecanismos da lei funcionam segundo o modelo de um
silogismo. O silogismo é uma forma de pensamento lógico.
Primeira premissa: ‘Todo homem é mortal.’ Note que
se trata de uma afirmação universal que não se refere
a ninguém em particular. A palavra ‘todo’ indica
que nenhum homem pode escapar do fato de que ele é
mortal: vai morrer. Segunda premissa: ‘Sócrates é
homem.’ A afirmação agora é particular. Não tem a
ver com o João ou o José. É o ‘Sócrates’. Sócrates
é homem. Isso não é um princípio universal. É um
fato. Juntando-se a primeira premissa que diz que
‘Todo homem é mortal’, com a segunda premissa que
diz que ‘Sócrates é homem’ segue-se uma conclusão
da qual não é possível fugir: ‘Sócrates é
mortal’. Sentença lógica: Sócrates vai morrer.
Pois é assim que funcionam os mecanismos da lei. Em
primeiro lugar há uma premissa geral, que é composta
por todas as leis. As leis são universais. Não se
referem a João ou a José. É crime matar. É crime
roubar. É crime difamar. Sem esse corpo universal de
leis a ordem social seria impossível porque, então,
cada um poderia fazer o que quisesse. Participar de uma
sociedade significa sempre abdicar de uma vontade
individual (por exemplo, ‘Quero matar João’,
‘Quero roubar o carro do José’) em prol de uma
vontade geral, expressa na lei. Na linguagem dos filósofos:
a sociedade se baseia na ‘alienação’ da vontade
individual. Eu abro mão da minha vontade individual e a
transfiro para a lei. Essa ‘alienação’ da vontade
é a base da ordem social. Sem ela, como indicou Hobbes,
seria a ‘guerra de todos contra todos.’ Segunda
premissa: aqui começam as complicações. Alguém, o João
ou José, fez alguma coisa em desacordo com a lei. O
problema existe porque ninguém faz delituosa de forma
aberta. A transgressão da lei busca não ser conhecida.
Os livros de mistério da Agatha Christie mostram que os
criminosos sempre fazem os seus crimes escondidos. Se não
fosse isso não haveria a deliciosa novela em que o
detetive, penetrando nas dissimulações do criminoso,
acaba por desvendar o crime. Delinqüentes e criminosos
não desejam ser pegos nas malhas da lei. Porque se o
forem, receberão os castigos devidos. Assim, nunca se
sabe com certeza como foi o ato. Colisão de autos. Alguém
morre. Quem é o culpado? Quem foi que transgrediu a
lei? Terá sido um simples acidente, fatalidade, caso em
que ninguém será culpado? Terá sido provocado pelo
fato de que o motorista estava bêbado? Ou teria sido
excesso de velocidade?
A segunda parte do processo, assim, é a ‘construção’
do fato, pela boca das testemunhas, dos peritos e dos
advogados, posto que ninguém sabe o que realmente
ocorreu. O que é apresentado diante dos juizes, para
julgamento, assim, nunca é o fato, tal como ele
realmente se deu. São duas ‘construções’: uma
delas feita pela defesa, e a outra feita pelos
promotores. Quem quiser ver isso acontecendo, basta ver
um filme americano em que há um julgamento: Neve sobre
os Cedros, por exemplo. Um pescador aparece morto. O
promotor constrói a morte do homem como resultado de um
ato assassino de um criminoso. O advogado de defesa
constrói a morte do mesmo homem como tendo sido
resultado de um acidente – não havendo, portanto,
criminoso algum. Não é raro que a ‘construção’
mentirosa – ou errada – seja a mais charmosa, a que
mais comove os jurados – a que mais toca nos seus
preconceitos – e o resultado é a condenação de um
inocente. Um júri é um espetáculo de ‘construções’
fictícias em busca da aprovação dos jurados que, eles
mesmos, tudo ignoram sobre o que realmente aconteceu.
Entram em jogo, aqui, os mais variados elementos: o
preconceito das testemunhas, o medo das testemunhas, a
falta de clareza das testemunhas, a nervosia das
testemunhas – e a esperteza, a sagacidade, a
honestidade e a desonestidade dos advogados. Também os
advogados são seduzidos pelos ganhos! Quem não é? Só
uns poucos, seres do outro mundo. Isso quando não
entram o suborno das testemunhas, as ameaças e as
mentiras. Os ‘objetos’ que assim se obtém,
portanto, dificilmente se aproximam da realidade.
A última parte do processo é a conclusão do
silogismo. ‘Senhor Sócrates: é verdade indisputável
que todo homem é mortal. É verdade indisputável que o
senhor é um homem. Concluímos, assim, que o senhor,
inevitavelmente vai morrer.’
O juiz é a última parte do processo. Em primeiro lugar
ele tem na cabeça o sistema de leis que rege a
sociedade e que é normativo, devendo, portanto, ser
obedecido. Sobre isso ele nada pode fazer. Em segundo
lugar ele tem diante de si as ‘construções’
apresentadas pelos advogados dos dois lados, sabendo que
elas são ‘construções’ feitas, não no interesse
da justiça, mas no interesse de se ganhar a causa, com
as implicações humanas e econômicas que ela contém
para as partes, inclusive os advogados... Se os juizes
fossem máquinas, computadores, seria muito simples.
Bastaria colocar os dados no computador e a conclusão
apareceria. O juiz estaria, assim, liberto de qualquer
responsabilidade moral. Mas toda sentença implica uma
responsabilidade moral do juiz. Por isso mesmo o juiz
tem de ser um sábio, um psicólogo. Ele tem de perceber
quando uma testemunha está mentindo. Ele tem de
ponderar as contradições dos testemunhos. Ele tem de
tomar a eloqüência dos advogados cum grano salis. Mais
que um técnico, ele tem de saber que a verdade está
jogo e que a sua sentença, mesmo sendo legal, poderá
se injusta. Eis o drama do juiz: Qual será a sentença
legal que mais se aproximará da justiça? Para isso ele
terá de ser um sábio...
Na
próxima semana eu vou contar uns casos... (Correio
Popular, Caderno C, 25/02/2001.)

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