Os cinco
sentidos são, a um tempo, seres da “caixa de
ferramentas” e seres da “caixa de brinquedos”.
Como ferramentas os sentidos nos fazem conhecer o mundo. A
cor vermelha no semáforo diz que é preciso parar
o carro. O som da buzina chama a minha atenção
para um carro que se aproxima. O cheiro estranho na cozinha
me adverte de que o gás está aberto. Como brinquedos
os cinco sentidos me informam que o mundo está cheio
de beleza. Eles são órgãos sexuais: com
eles fazemos amor com o mundo. Dão-nos prazer e alegria.
Os cinco
sentidos, para realizarem suas funções de poder
e prazer, exigem a presença do objeto a ser conhecido
ou a ser amado. Para sentir a beleza de um ipê florido
é preciso que haja ipês floridos – como
agora. Em julho os ipês rosa, em agosto os ipês
amarelos, em setembro os ipês brancos. Já até
sugeri que um músico compusesse uma sinfonia em três
movimentos dedicada aos ipês. Para se sentir a beleza
triste do canto de um sabiá é preciso que haja
um sabiá cantando. Para se sentir o perfume de um jasmim
é preciso que haja um jasmim florido. Para se sentir
o gosto bom de uma laranja é preciso que haja uma laranja.
E para se sentir a delícia de um beijo é preciso
que haja uma boca que me beije... Os cinco sentidos só
fazem amor com coisas existentes, no presente. Eles vivem
no “aqui” e no “agora”.
Mas há
um sexto sentido dotado de propriedades mágicas, um
sentido que nos permite fazer amor com coisas que não
existem... Esse sentido se chama “pensamento”.
Digo que
o pensamento é um sentido mágico porque ele
tem o poder de chamar à existência coisas que
não existem e de tratar e as coisas que existem como
se não existissem. E é dele que surge a grandeza
dos seres humanos. O pensamento nos dá asas, ele nos
transforma em pássaros!
“Mas
que realidade têm as coisas que não existem?”,
poderão perguntar os filósofos. Aí serão
os poetas que darão respostas aos filósofos.
“Que seria de nós sem o socorro das coisas que
não existem?” , perguntava Paul Valery. E Manoel
da Barros acrescentaria: “As coisas que não existem
são mais bonitas...” Leonardo da Vinci pensava
e desenhava máquinas que não existiam e que
só poderiam existir num futuro distante. Mas que alegria
aquelas entidades não existentes lhe davam! Por isso
ele as guardava como segredos perigosos que, se conhecidos,
poderiam levá-lo à Inquisição.
Mas o prazer valia o risco.
Beethoven
estava completamente surdo. No seu mundo os sons não
existiam. Mas do silêncio dos sons que não existiam
ele fez surgir, no seu pensamento, a Nona Sinfonia, que canta
a alegria da vida.
Faz uns
meses resolvi reler o Cem anos de solidão, do Gabriel
Garcia Marques. Que amontoado de não-existentes! Invencionices
de alguém que trata o existente como se não
existisse. Pensei, de brincadeira, que ele deveria estar bêbado
quando escreveu o livro, tantos são os absurdos maravilhosos
que ele constrói. Uns tolos disseram que aquele livro
era uma parábola sobre a América Latina. Ou
seja, disseram que o livro falava sobre uma coisa que existia:
o realismo fantástico de Gabriel Garcia Marques, depois
de passar pelo crivo da hermenêutica, nada mais seria
que uma crônica histórica disfarçada.
Nada mais longe da verdade. O livro Cem anos de solidão
só existe no espaço imaginário do que
não existe.E apesar de saber que aquilo que estava
escrito era mentira, que nunca acontecera porque era impossível
que acontecesse, eu ri, sofri, vivi. Meu corpo fez amor com
o inexistente. O que não existe nos faz viver. Não
vivemos só de pão. Somos comedores de palavras.
E as palavras operam em nós estranhas transformações.
Quantas pessoas eu degolei com minha espada de samurai ao
ler o Sho-gun!
Que extraordinário
exercício de alienação é a literatura!
Mergulhados num livro a realidade que nos cerca deixa de existir.
Estamos inteiramene no mundo do pensamento. Se Marx estava
certo ao afirmar que “o homem é o mundo do homem”
então, na literatura, tornamo-nos criaturas dos muitos
mundos da fantasia. Tornamo-nos personagens de uma estória
inventada, “atores” de teatro. “Não
é incrível que um ator, por uma simples ficção,
um sonho apaixonado, amolde tanto sua alma à imaginação,
que todo se lhe transfigure o semblante, por completo o rosto
lhe empalideça, lágrimas vertam dos seus olho,
suas palavras tremam e, inteiro seu organismo se acomode à
essa mera ficção? ( Shakespeare, Hamlet, ato
2º., cena II). Os atores são seres alienados da
realidade por estarem vivendo totalmente no mundo da ficção.
É nisso que se encontra “a virtude paradoxal
da leitura, que consiste em fazer-nos abstrair do mundo para
lhe encontrarmos um sentido.” ( Daniel Pennac, Como
um romance, ASA, Portugal, p. 17 ). Todo artista é
um fingidor. Todo leitor tem de ser um fingidor. Fingir, brincar
de fazer de contas, tratar as coisas que são como se
não fossem e as coisas que não são como
se fossem! É dessa loucura que surgem as mais belas
criações da arte e da ciência. Por isso
eu me daria por feliz se a educação fizesse
apenas isso: introduzir os alunos no mundo mágico do
pensamento tal como ele acontece na literatura.. Quem experimentou
a magia do pensamento uma única vez não se esquece
jamais...