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| Oque você faria? |
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Fábulas são estórias mentirosas que se contam para dizer a verdade. Por exemplo: a fábula do lobo e do cordeiro. O lobo nunca conversou com o cordeiro, porque lobos não falam. E nem o cordeiro argumentou, porque cordeiros também não falam. Trata-se, portanto, de uma mentira. Acontece que a fábula não se refere às relações entre lobos e cordeiros. Lobos e cordeiros são usados como metáforas da política dos homens. Sua lição é: os fortes sempre devoram os fracos a despeito de os fracos estarem com a verdade. Vou contar uma estória, parábola. Mas, antes de começar, vou pedir perdão aos oncologistas, porque vou usar a sua especialidade como metáfora de uma outra coisa. Sua especialidade vai entrar na minha estória da mesma forma como o lobo entrou na fábula. O lobo é inocente. Vocês, oncologistas, são inocentes. Assim, de início, declaro que esse caso não se refere a vocês. Uso a sua especialidade como metáfora porque fica mais fácil entender. A estória é assim: “Eles
se amavam muito, marido e mulher. Mas sobre o seu amor a
morte colocou o seu dedo frio. Ela tivera um tumor
canceroso no seio esquerdo que foi removido
cirurgicamente. Foi-se o tumor, ficaram as marcas. Antes
ela se olhava no espelho e se alegrava que seus seios
fossem tão belos. Agora, cicatrizes. O marido a abraçava
carinhosamente e lhe dizia: “Agora o meu coração está
mais próximo do seu...” E assim viveram por cinco
anos, no medo de que a morte voltasse. E ela voltou.
Anunciou-se pelas dores. O velho médico, seu amigo, em quem confiavam, havia morrido.
Tiveram de procurar um outro, conhecido por sua competência
técnica. Imaginaram que ele seria tão amigo e sensível
quanto o velho médico. Afinal de contas, a primeira
condição de um médico, anterior à sua competência técnica,
é a sua compaixão. Compaixão é sentir, de alguma
forma, aquilo que o outro está sentindo. Retirada a
compaixão o médico não passa de um mecânico que
manipula carros sem sentir nada porque carros nada
sentem. Assim chegou esse casal ao dito médico cheio de
medo e de esperança. Pois esse medico, ao vê-la
despida, sem um seio; exclamou friamente: “ Mas a
senhora já não tem um seio... Seu caso é muito mais
grave do que eu imaginava... ” Fico
a me perguntar: Por que é que ele falou o que falou? Não
falou para informar mulher e marido de uma coisa que não
soubessem. Eles sabiam que ela não tinha um seio. Também
não falou para certificar-se de algo que estava vendo
mas não via bem, por ser ruim dos olhos. Como se
estivesse perguntando: “A senhora já fez uma
mastectomia?” Não, seus olhos viam muito bem. E qual
a razão do seu frio, imediato e cruel diagnóstico:
“Seu caso é muito mais grave do que eu imaginava.”
Para que falou isso? Era necessário? Não. Não era
necessário. Seu diagnóstico em nada contribuiu para o
tratamento daquela mulher. Ou será que ele assim falou
por inocência? Não imaginava o veneno que suas
palavras carregavam. Não imaginava o efeito de suas
palavras sobre aquela mulher despida, sem um seio,
humilhada, amedrontada. Se falou por inocência digo que
o dito médico só pode ser um idiota que nada conhece
sobre os seres humanos. Ah!
Se fôssemos dar uma resposta a essa pergunta teríamos
de entrar nos subterrâneos onde mora a crueldade, os
subterrâneos do sadismo. A lei prevê punições pela
imperícia médica. Haverá punições para a crueldade
médica? Os médicos podem ser cruéis? Claro. Todos
temos um potencial de crueldade dentro da alma,
crueldade que só é retida pelo amor. Mas há pessoas
em que falta o amor. Aí a crueldade faz o seu serviço.
Crueldade
não é algo que somente existe nas câmaras de tortura.
Ela se faz também com palavras. Há palavras cruéis
que apagam a tênue chama da esperança. E é essa chama
de esperança que faz o corpo lutar contra a morte. Quem
mata a esperança – que nome haveríamos de lhe dar?
Lembro-me do que disse Jesus, de que haveríamos de
pagar por todas as palavras que fizessem mal a um dos
seus pequeninos. E acrescentou: “Melhor seria que esse
homem amarrasse uma pedra de moinho no seu pescoço e se
atirasse no mar”. Do meu ponto de vista um médico que
assim usa as palavras é um traidor do juramento do Hipócrates,
no qual o médico jura que jamais faria algo que fizesse
mal aos seus pacientes. Pergunto
agora a vocês, médicos amigos, professores, modelos a
serem imitados, responsáveis pela formação dos novos
médicos: qual é o lugar, nos currículos de medicina,
onde tanta coisa complicada se ensina, para uma meditação
sobre a compaixão? É na compaixão que a ética se
inicia e não nos livros de ética médica. Ah! dirão
os responsáveis pelos currículos – compaixão não
é coisa científica. Não entra na descrição de casos
clínicos. Não pode ser comunicada em congressos.
Portanto, não tem dignidade acadêmica. Certo. Mas
acontece que não somos automóveis a serem consertados
por mecânicos competentes. Somos seres humanos. Amamos
a vida, queremos viver. Sofremos de dores físicas e de
dores de alma: o medo, a solidão, a impotência, a
morte. O que esse médico fez não tem conserto. Uma vez
feita a ferida sangra. Palavras não podem ser
recolhidas. O sofrimento foi plantado. E foi
crescendo... Coisas
como essa acontecem por causa da impunidade. Algo
deveria ser feito para impedir que tais tipos,
protegidos por seus diplomas, continuem a exercer sua
crueldade de forma impune. Sugiro que se crie um
“disque-denúncia” ou uma “escreva-denúncia”.
Os humilhados e feridos não devem se calar. Porque, se
não denunciarem, aquilo que aconteceu com eles
continuará a acontecer com outros. Aqui vai a minha
indignação e denúncia. E
algo deveria ser feito para que os jovens aprendessem
que, ao serem médicos, eles não estão lidando só com
cirurgias heróicas, aparelhos sofisticados, bioquímicas
curativas: eles estão lidando com seres humanos.
O corpo humano é uma entidade sagrada
precisamente porque nele moram o sofrimento e a vontade
de viver. Lembro-me
da doutora Vilma Cloris de Carvalho,
professora de neuro-anatomia que, ao final do
ano, fazia realizar dentro das dependências do
Departamento de Anatomia, uma “Missa do Cadáver”
– uma liturgia comovente de que participei várias
vezes - para que seus alunos que, por meses, haviam
estado a lidar com “peças anatômicas”, se
lembrassem de que aquelas “peças” haviam sido
partes de um corpo vivo que ria, chorava, brincava,
fazia amor. Acho que a Vilma, amiga querida, merecia ser
agraciada com o título de Professora Emérita da
UNICAMP, como exemplo de competência científica e
compaixão médica. Ou então, sugiro que seus colegas e
ex-alunos plantem um árvore em sua homenagem. Bem na
entrada do Departamento de Anatomia. Eu estarei lá no
plantio... Pergunto:
se você fosse o marido, o que é que você faria com o
médico da minha fábula? Pois eu faria o mesmo que você... A ilustração dessa crônica é uma fotografia de Albert Schweitzer, filósofo, teólogo, organista, intérprete de Bach. Aos 30 anos deixou tudo para tornar-se médico e passou o resto de sua vida num lugarejo perdido no interior da África, Lambarene. Prêmio Nobel da Paz. Para ele o princípio ético supremo é a “reverência pela vida”. Os estudantes de medicina deveriam estudar a sua vida.
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