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Passei
boa parte de minha infância no sobradão do meu avô. Era um sobradão
colonial, daqueles que se vêem nas fotos de Ouro Preto e São João dei
Rei. A gente entrava por uma porta enorme. Nunca pude entender as razões
para portas tão altas, tão largas, tão grossas, como se gigantes fossem
os que moravam naquelas casas... A porta se abria para um longo e sombrio
corredor, ao fim do qual havia uma escada de três lances.
Terminada
a escada os caminhos se bifurcavam. À frente, outro longo corredor, que
conduzia para dentro do sobrado. Ao lado, a sala de visitas, lugar nobre
da casa onde se entrava por uma porta envidraçada, de vidros coloridos
azuis, vermelhos, amarelos e verdes, importados. Dentro era o teto
esculpido, os frisos dourados, os candelabros, os consolos de mármore com
vasos de cristal, estatuetas e bibelôs, os espelhos enormes, o piano
Pleyel, os sofás e as cadeiras de palhinha, símbolos de nobreza e
riqueza que eram exibidos aos visitantes. Portas com sacadas de ferro
fundido se abriam para a praça com seu jardim de palmeiras, tipuanas e ipês.
Dali se via passar não somente a banda, como também enterros e lúgubres
procissões da Semana Santa.
A
sala de visitas era imperativa. O arranjo dos móveis não dava lugar a dúvidas.
Os visitantes eram obrigados a se assentar nos lugares certos e a ver as
coisas determinadas. Não havia ali lugar para imprevistos. Tudo estava em
ordem. Cada coisa no seu lugar.
O
corredor levava para dentro da casa onde só eram admitidas pessoas íntimas.
Uma ampla sala de jantar, com oito janelas envidraçadas se abrindo para o
poente e uma outra janela solitária, que se abria para o sul. As janelas
eram protegidas pela sombra de uma velha trepadeira que, à noite, se
transformava em passarela de gambás.
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E
havia os quartos enormes, em fila. Era preciso atravessar o primeiro para
ir ao segundo, e pelo primeiro e o segundo se se desejava ir ao terceiro.
As
noites eram assombradas, regidas pelo carrilhão que batia, indiferente e
sem pressa, os quartos de hora - informação inútil que só servia para
tornar a insônia ainda mais torturante.
Era
um fascínio andar por aqueles quartos, salas, corredores, escadas. Mas o
que me fascinava era um quarto proibido, trancado o tempo todo, onde ninguém
entrava. Em outros tempos, quando a casa estivera cheia de filhos e de
empregadas, todos os quartos eram quartos normais, simplesmente. Mas
aconteceu o que sempre acontece: os filhos se casaram, os tempos de vacas
magras chegaram, foram-se as empregadas, morreram os pais, só ficaram três
filhas solteironas. Sem uso, aquele quarto foi transformado em depósito
de coisas velhas, onde não entrava nem vassoura nem espanador, porque não
era preciso.
Era
proibido entrar nele e a chave enorme ficava escondida. Eu compreendo a
proibição. Para as tias o quartão era o lugar das coisas feias, da
poeira que se acumulava, das teias de aranha. Menino não devia brincar
num lugar como aquele.
Mas
para mim era o quartão do mistério. Se não houvesse mistério, a chave
não ficaria escondida nem haveria a proibição de entrar. O quarto
proibido é sempre aquele em que a gente quer entrar. A mulher do Barba
Azul não se contentou com os 99 quartos e as 99 chaves: foi logo para o
centésimo quarto com a centésima chave, o único quarto onde ela não
tinha permissão para entrar. Assim somos nós, seres fascinados pelo mistério
e pelo proibido. A razão para esse gosto eu não entendo, mas sei que é
com ele que a alma humana é feita.
Pois
eu roubava a chave e, silenciosamente, entrava no quartão do mistério e
me trancava lá dentro. Pelo silêncio as tias imaginavam que eu deveria
estar longe, no jardim ou na rua. Mal sabiam...
O
quartão do mistério era um lugar encantado. Até mesmo aquilo que as
tias consideravam horror ajudava a compor a cena: a poeira acumulada sobre
os móveis, as teias de aranha, o cheiro de mofo - tudo dizia que ali o
tempo havia parado. O que era confirmado por um enorme relógio redondo,
dependurado na parede: ao contrário do carrilhão da varanda, que em
Minas é aquela sala de jantar imensa, que tocava a cada quarto de hora, o
relojão redondo estava parado desde sempre.
Tudo
era mágico. Os objetos emergiam de um mundo de sonhos. As duas cítaras,
com incrustações de madrepérola: por quanto tempo teriam estado naquele
limbo de silêncio? E as paletas de pintura? Estavam cobertas com tinta
dura. Qual teria sido o último toque do pincel, antes da morte? A
interrupção devia ter sido repentina, pois as bisnagas de tinta
endurecida ainda estavam pela metade. Já não serviam para nada, mas
ainda se podia sentir o seu perfume. Um gramofone, discos velhos, revistas
maravilhosas, canastras que haviam cruzado o oceano, bolsas, óculos
Trotzki, instrumentos de medicina que não mais se usavam, álbuns de
retratos amarelados de homens de colarinho engomado e mulheres de
anquinhas.
Acho
que meu fascínio pelo quarto do mistério se deveu ao fato de que, por
dentro, eu sou como ele. Minha alma é um quarto onde os objetos mais
estranhos estão colocados, um ao lado do outro, sem ordem, sem nenhuma
intenção de fazer sentido. Por oposição à sala, onde cada objeto está
colocado numa ordem precisa em relação aos outros, no quartão do mistério
não há ordem, não há arranjo: cada objeto é um universo completo, não
depende dos outros. E está explicada a razão para a minha profissão de
psicanalista: é que cada pessoa, com sua sala de visitas limpa e
ordenada, aberta à visitação geral, tem um fascinante quarto de mistério
onde só se penetra roubando a chave. Minha profissão é roubar chaves...
E até mandei gravar em madeira as palavras de um verso de Drummond:
"Trouxeste a chave?"
Alguns
analistas há que pensam como as minhas tias: acham que o quarto proibido
está cheio de coisas terríveis, restos de naufrágios, corpos
esquartejados detritos, excrementos, fedores. E é isso que encontram,
pois a gente só encontra o que está buscando. Mas, para mim, menino
naquele lugar proibido, as coisas terríveis são apenas molduras para
coisas encantadas, imobilizadas em sono, fora do tempo, como a Bela
Adormecida, em meio ao pó, às teias de aranha, às heras e plantas
selvagens, à espera de alguém que dará o beijo que quebrará o feitiço...
Assim
é esse quarto da minha casa. Nele cabe tudo: psicanálise, poesia, idéias
em gestação. E poderei mesmo incluir coisas que outras pessoas me
enviarem. Como o "Quarto do mistério" do sobrado do meu avô, não
são todos que gostarão de ficar nele. Só os amigos... (O quarto do mistério,
p. 9 - os dois últimos parágrafos originais foram substituídos neste
texto).
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