Compreendi as palavras de
Bachelard ao me lembrar daquele dia memorável, que
não pode ser esquecido. Era o fim de tarde, quando
a luz do dia que se vai se mistura com o escuro da noite que
chega e tudo fica indefinido. A indefinição
ficava mais indefinida ainda pela chuva fina que começava
a cair. Foi então que aconteceu: um barulho surdo,
metálico, sem melodia e sem ritmo, começou a
subir das ruas, dos apartamentos, dos escritórios,
barulho que não combinava com o momento... Fiquei assustado
porque não tinha na minha memória registro de
qualquer barulho urbano que se assemelhasse àquele
que enchia a tarde-noite de São Paulo. Eu estava no
quinto andar. Tomei o elevador para o térreo. Queria
saber o que estava acontecendo.
Quando, no térreo,
saí à rua, os rostos sorridentes dos motoristas
de táxi me fizeram lembrar. Os motoristas cansados,
ao fim do dia, usam as buzinas para exprimir sua irritação.
E eles estavam buzinando sem parar, mas sem que houvesse nenhuma
razão de tráfego para tal. Suas buzinas não
eram irritadas. Buzinavam e sorriam. Parecia que estavam felizes.
Aí me lembrei e entendi.
Olhei para cima e vi de onde vinha o barulho metálico:
as janelas e varandas dos apartamentos estavam cheias de pessoas
que batiam panelas com colheres. O barulho era ensurdecedor
e lindo, musicalmente... Aquele barulho era o canto de um
povo. A chuva caia um pouco mais forte, mas as pessoas que
andavam pelas ruas não demonstravam contrariedade.
Elas sorriam com a água a lhes escorrer pelo rosto.
Era o panelaço: uma cidade sem armas que buzinava e
batia tampas e panelas para derrotar um exército armado,
à semelhança do ocorrido na cidade de Jericó
cujas muralhas caíram pelo som das trombetas.
Chorei e me disse: “É
muito bonito! Uma estória para ser contada e repetida!
As crianças precisam saber...” E foi ali que
se formou na minha imaginação a estória
que escrevi O flautista mágico .
No artigo “Os Pássaros”,
dirigido às crianças, publicado no dia 21.07.09
nessa sessão, eu sugeri que, olhando para nossos sólidos
representantes no congresso, um escorando o outro, fica claro
que a maioria deles não está disposta a trocar
seu menu de costeletas, lombos e lingüiças por
uma modesta dieta vegetariana de alface e cenoura... Numa
alusão ao filme do Hitchcock, eu disse que era preciso
chamar os pássaros... Eles só sairão
do castelo de impunidade onde se encontram se os pássaros
os obrigarem.
Pássaros fomos nós,
naquela tarde do panelaço contra a ditadura. Pássaros
poderemos ser nós, agora...
Recebi agora, via internet,
a convocação dos pássaros, um manifesto
do qual vou citar alguns trechos.
“Esta é a hora:
7 de setembro às 17 horas! (...) No dia 7 de setembro
às 17 horas vamos paralisar o Brasil. Às 17
horas vamos promover um panelaço! Exija que as redes
de televisão, rádios, jornais, revistas e o
político de sua confiança divulguem esse movimento.
Mobilize sua escola, seu sindicato, sua igreja, seus amigos.
No dia 7 de setembro, às 17 horas, estenda na janela
uma bandeira, uma toalha, um pano qualquer! Bata panelas!
Toque cornetas! Se você estiver no carro, buzine! Vamos
fazer a nação tremer por um minuto!” As
hienas e os gambás fugirão dos pássaros!
Eu vou buzinar, vou tocar
sino, vou bater tampa e panela, estender bandeira, tocar a
Nona Sinfonia... Ninguém poderá dizer que eu
morri sem espernear...
ESTA
NA HORA