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Minhas
netas: Vamos brincar de faz-de-conta. Vamos
fazer-de-conta que eu sou o professor, vocês são
minhas alunas, e eu lhes passo uma lição de casa:
fazer uma redação sobre o ovo. O que vocês
escreveriam? Se eu fosse uma de vocês, acho que minha
redação seria mais ou menos assim:
O OVO
“Os ovos são comprados em supermercados e guardados
em geladeiras. Eles vêm em caixinhas de papelão,
algumas com 6, outras com 12 ovos. Todos os ovos têm a
mesma forma, a forma oval. Eles se compõem de três
partes: a casca, a gema amarela e a clara transparente.
Os ovos são distinguidos pela cor da casca: há os ovos
de casca branca e os ovos de casca parda. Os ovos são
muito úteis na cozinha e podem ser comidos crus,
quentes, cozidos ou fritos. Em misturas eles são usados
para fazer ovos mexidos, omeletas, bolos, e pães. E há
também os doces: fios de ovos, papo-de-anjo. E mesmo
licores. Para serem usados é preciso quebrar a casca, o
que exige uma certa prática. Não se quebrando a casca
do jeito certo o ovo se arrebenta e a mão fica toda
lambuzada com a mistura de gema e clara. Os ovos
precisam ser tratados com muito cuidado, por causa da
sua fragilidade. De uma pessoa cheia de cuidados usa-se
dizer: “Está andando sobre ovos“. Se ficam
guardados durante muito tempo fora da geladeira, os ovos
apodrecem e fedem muito se quebrados. Por essa razão
eles são frequentemente usados por cidadãos
descontentes que os jogam nos políticos que os
enganaram. Não sei se a palavra “ovacionar“ vem
desse costume. Li num livro de ciências que os ovos
saem de dentro das galinhas. Eu acredito porque está
escrito no livro. Mas eu nunca vi uma galinha botando um
ovo. Li também no mesmo livro de ciências que os ovos,
se aquecidos a uma temperatura determinada durante 21
dias, produzem pintinhos, que são os filhinhos amarelos
das galinhas. Meu pai me disse que os ovos constituem um
problema filosófico impossível de ser resolvido. “O
que foi que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Se
dissermos que foi o ovo que veio primeiro, fica a
pergunta: onde estava a galinha que o botou? Se
dissermos que foi a galinha que veio primeiro, fica a
pergunta: e onde estava o ovo de onde ela teria de ter
saído como pintinho?“
Essa é uma redação que escrevi de brincadeira, para
contar a vocês a minha experiência com os ovos, quando
eu era pequeno, na roça. Os ovos que conheci são muito
diferentes dos ovos que vocês conhecem. As pessoas da
cidade, quando pensam em ovos, pensam nas comidas que
podem ser feitas com eles. Pensam do ovo para a
frente... Eu pensava do ovo para trás. O que me
fascinava era o nascimento dos ovos. Na roça os ovos não
se compravam em supermercados. Eles eram encontrados e
colhidos em ninhos. Que coisa mágica é um ninho!
Encontrar um ninho escondido no meio do mato, cheio de
ovos, é uma experiência de grande felicidade, inesquecível!
Gaston Bachelard: não se assustem com esse nome
complicado. Foi um homem maravilhoso, que escreveu
coisas incríveis. Espero que vocês, um dia, tenham a
alegria de viajar pelo mundo encantado que se encontra
nos seus livros, muito mais fantástico que o mundo do
Harry Potter. O mundo do Harry Potter, a gente sabe que
nunca existiu. Mas Bachelard mostra um mundo
maravilhoso, mágico, encantado, no meio do mundo real
em que vivemos. Para ele uma experiência mágica é
encontrar um ninho com uma passarinha a chocar seus
ovos, num arbusto do jardim. Para mim, cinco anos, não
havia nada que se comparasse em fascínio a uma galinha
botando um ovo. Ela, deitada no ninho, esforçando-se
para botar seu ovo diário. Eu, atrás, agachado,
observava atentamente o seu fiofó que pulsava, abrindo
e fechando, até que o ovo aparecia. Eu cutucava o ovo
com a ponta do dedo. Saído o ovo, a galinha se
levantava, observava sua obra e saía pelo quintal
cacarejando em altos brados o seu feito.
Como as galinhas são animais inteligentes!
Inteligentes, as galinhas? Que nada. Galinhas são
animais estúpidos. Inteligentes são os golfinhos, as
focas, os cães, os cavalos, os elefantes, os ursos.
Tanto que são animais de circo. Mas eu nunca soube de
uma galinha que fosse artista de circo.
A burrice das galinhas se revela num fato muito simples:
toda vez que um carro delas se aproxima, numa estrada,
elas atravessam a estrada correndo e gritando
espavoridas. Nunca aprendem que é mais seguro ficar
onde estavam. A despeito disso eu insisto: as galinhas são
inteligentes. Como é que a gente identifica a presença
da inteligência? É simples. Uma amiga, sabendo que
gosto de brinquedos, me deu um carrinho feito com uma
lata de sardinha e rodas cortadas de uma sandália
havaina. Quando vi o carrinho percebi logo que ele fora
feito por um menino pobre. Menino rico não faria carro
com lata de sardinha. Compraria um carinho na loja. O
dinheiro faz mal à inteligência. E percebi mais:
aquele menino, que eu não conhecia, era um menino
inteligente. Por que concluí que ele era inteligente?
Porque o carrinho que ele havia feito era um objeto
muito inteligente. Há objetos que são inteligentes,
como há objetos que são muito estúpidos. Sempre que
tivermos na mão um objeto inteligente – um livro, um
brinquedo, uma máquina, uma escultura – podemos
concluir: “Foi feito por uma pessoa inteligente.“
E agora eu pergunto a vocês: pode haver uma coisa mais
inteligente que o ovo? Se o ovo é um objeto inteligente
temos de concluir que a galinha que fez e botou o ovo,
é inteligente. Todas as aves do mundo botam ovos. Botam
ovos porque, mesmo antes de botarem um ovo, já mora
nelas a idéia inteligentíssima do ovo. As aves já
nascem com essa idéia. Temos, então, de concluir que
dentro da galinha, tal como acontece com todas as aves,
mora a idéia inteligentíssima do ovo. Mora aonde? Não
mora na cabeça da galinha, que é estúpida. Mora no
corpo da galinha, sem que a cabeça saiba disso. As
galinhas são estúpidas com a cabeça e inteligentíssimas
com o corpo. Existe também o contrário, entre os
humanos: pessoas que são inteligentíssimas com a cabeça
e totalmente estúpidas com o corpo.
O corpo da galinha sabe muito de geometria. Foi o ovo
que me contou. Porque o ovo é um objeto geométrico
construído segundo rigorosas relações matemáticas. A
galinha nada sabe sobre geometria, na cabeça. Mas o
corpo dela sabe. Prova disso é que ela bota esses
assombros geométricos.
Sabe muito também sobre anatomia. O ovo não é uma
esfera. Ele tem uma parte mais grossa e uma parte mais
fina. Há uma razão físico-anatômica para isso. É a
mesma razão por que os pregos têm uma ponta fina: para
entrar melhor no buraco. Você já enfiou uma linha no
buraco de uma agulha? Primeiro é preciso afinar a ponta
da linha com saliva e dedo. É a ponta afinada da linha
que entra no buraco da agulha. Depois que a ponta fina
passa pelo buraco, é fácil puxar a linha, fazendo
passar a parte grossa. Pois o ovo tem de ter uma ponta
fina para facilitar a sua passagem pelo fiofó da
galinha. Se não tivesse a ponta fina ia ser mais difícil,
ia doer mais...
O corpo das galinhas é também um grande conhecedor de
arquitetura. A forma do ovo dá resistência máxima aos
seus frágeis materiais. Se o ovo fosse chato ele se
quebraria quando a galinha se deitasse sobre ele, para
chocar os pintinhos. Quando eu era pequeno eu e os meus
amigos brincávamos de pegar um ovo, ponta fina na palma
da mão, ponta grossa contra os dedos pai-de-todos e o
seu-vizinho (espero que você tenha aprendido o nome dos
dedos, minguinho, seu-vizinho, pai-de-todos, fura-bolo,
mata-piolho) e apertar. Pois o ovo não quebrava. Mas não
vá fazer essa experiência com esses ovos brancos, de
granja. São ovos degenerados. Esses ovos se quebram, só
de olhar. A forma do ovo faz com que as forças que
sobre ele se exercem não o quebrem. É o mesmo princípio
que os arquitetos usam para fazer arcos de janela, de
portas e abóbadas gigantescas das catedrais em estilo
românico, antes do concreto e do ferro. Se você não
sabe o que é o estilo românico, pergunte ao seu
professor de história. Aquilo que os arquitetos
aprenderam depois de muito pensar, o corpo das galinhas
sabe por nascimento, sem precisar pensar.
Mas há ainda um outro assombro: a casca do ovo não
pode ser muito mole porque, se fosse, o ovo se quebraria
quando a galinha pisasse nele. A casca tem de ser dura o
suficiente para suportar o peso da galinha, sem quebrar.
Mas a casca também não pode ser muito dura. Como vocês
sabem, as galinhas “chocam“ os ovos. Deitam-se sobre
eles por 21 dias para, com o seu calor, realizar a
transformação da gema em pintinho. Quem foi que
ensinou isso para a galinha? Ninguém. O corpo dela
nasceu sabendo. A idéia já está lá. Ao cabo de 21
dias os pintinhos estão prontos para sair. Para isso
eles têm de quebrar a casca do ovo com o bico. Ora, se
a casca do ovo fosse muito dura o pintinho não
conseguiria furar a casca e morreria. Como é que a
galinha faz esse complicado cálculo físico de resistência
de materiais, casca nem muito mole e nem muito dura? Não
sei. Só sei que ela sabe. Há um saber no seu corpo que
faz cálculos engenhariais exatos.
O nosso corpo é assim: ele sabe muitas coisas que a
nossa cabeça não sabe. Se dependêssemos, para viver,
dos conhecimentos que temos na nossa cabeça, há muito
teríamos desaparecido da terra. O corpo é muito sábio.
Acham que estou doido? Vocês já ouviram falar em
Guimarães Rosa, o escritor? Pois ele disse: “O corpo
não traslada, mas muito sabe, adivinha se não
entende...“ Com o que, Nietzsche, o filósofo que mais
amo, concorda: “Há mais razão no seu corpo que na
sua melhor sabedoria“...
Os gregos antigos, filósofos, diziam que a gente começa
a pensar quando a gente fica abobalhado diante de um
fato corriqueiro. Haverá coisa mais corriqueira que um
ovo? Pois o ovo me faz pensar...
(Correio Popular, Caderno C, 03/02/2002.)

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