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Minhas netas: vocês já pensaram em brincar com lixo?
Eu nunca havia pensado! Lixo é coisa suja, nojenta, não
é coisa com que se brinque! Pois eu me levantei hoje
com vontade de brincar com o lixo. Isso mesmo! Doideira?
Ao final vocês verão que doido não sou eu... Brinquei
assim: fui andando pela casa, prestando atenção em
todos os objetos e anotando num caderno aqueles que vão
se transformar em lixo. Lixo é tudo aquilo que não
serve para nada, que não é para ser guardado, que deve
ser jogado fora. Na minha casa há muitos objetos que
nunca jogarei fora. Dependendo de mim nunca virarão
lixo: meus livros, meus cds, meus quadros, fotografias
de pessoas queridas, objetos de arte, objetos que
pertenceram a pessoas que amo, como aquelas duas taças
de cristal, uma vermelha, a outra azul, que foram da
minha mãe... Outros objetos, entretanto, têm um
destino certo: o saco de lixo. Comecei no banheiro:
escovas de dente, aparelhos de barbear, tubos de pasta
de dente, fio dental, embalagens plásticas de shampoos,
de cremes, de remédios, papel higiênico. Continuei a
fazer minha lista no quarto: lâmpadas, pilhas dos mais
variados tipos, tênis, sapatos, roupas. Na cozinha a
lista ficou enorme: embalagens plásticas dos incontáveis
produtos de limpeza, embalagens de adoçantes, de leite,
de sucos, de catchup, arroz, fubá, doritos, sucrilhos,
aveia, macarrão, maizena, nescau, margarina, manteiga,
danone, de sopas prontas, garrafas plásticas de água
mineral, de coca-cola, de guaraná, de vinagre, latas de
refrigerantes, de cerveja, de azeite, de óleo, de
sardinha, de atum, de massa de tomate, de molhos,
garrafas de vidro das mais variadas formas, montes de
sacos de papel, de sacos de plástico, de jornais e os
próprios sacos plásticos onde se guarda o lixo. No
escritório: esferográficas, papéis usados. Na sala:
garrafas de Jack Daniels, de vinhos, de licores,
guardanapos. Na garagem: os pneus do carro e o próprio
carro, que vai ficar velho e será vendido para um
ferro-velho...
Lixo a gente põe nos sacos de lixo, vêm os lixeiros, põem
os sacos de lixo em caminhões, e o lixo desaparece da
nossa vista. Desaparece da nossa vista mas não
desaparece de verdade porque nada no mundo desaparece. O
lixo vai para um outro lugar, longe dos olhos. E a
montanha vai crescendo, crescendo, sem parar. Até
quando as montanhas de lixo poderão crescer?
Imagine, agora, que milhões ou mesmo bilhões de
pessoas estão produzindo lixo sem parar e livrando-se
dele por meio de sacos de lixo. Faz uns dias tive a
alegria rara de ouvir um homem inteligente e tranquilo
dando uma entrevista na televisão. Seu nome é
Washington Novaes, jornalista. Falou sobre o problema do
lixo. Disse que os cálculos já haviam sido feitos: o
lixo que se produz diariamente no mundo corresponde a um
quilo de lixo por pessoa. Isso, evidentemente, é uma média.
Se você não sabe o que é “média“ pergunte ao seu
pai ou ao seu professor. O fato é que há pessoas que não
produzem lixo algum, enquanto há outras que produzem
muitos quilos de lixo. Você quer saber quanto de lixo
é produzido diariamente no mundo? Faça o cálculo.
Quantos são os habitantes do mundo? Cada um deles
produzindo um quilo de lixo... Divida por mil: você terá
o resultado em toneladas. Peça a um professor –
preferencialmente o professor de ciências – para
fazer um cálculo do tamanho da montanha de lixo
produzido diariamente. Agora, multiplique por 365: você
terá o tamanho da montanha de lixo que é anualmente
produzida pelo progresso. Sim, sim! Pelo progresso.
Porque é o progresso que produz lixo. Todos os objetos
que, no meu apartamento, vão se transformar em lixo, são
produzidos pelo progresso. Sem o progresso eles não
existiriam. O progresso, assim, é um bicho muito
curioso: olhado de frente ele é colorido como um
periquito calepsita e canta bonito como um sabiá. Mas não
vá espiar o seu traseiro: dele saem incalculáveis
montanhas de fezes...
Não me esqueci não. Prometi a vocês, faz tempo, que
iria contar como era o mundo em que eu vivi, quando
menino. Falei sobre o “lixão“ (mil vezes mais terrível
que o “apagão“) só para dizer a vocês que lá na
roça onde eu vivi não havia lixo não. Porque não
havia essas coisas que o progresso produziu e que vão
se acumulando, acumulando... Havia coisas que a gente
jogava fora, sim. Mas elas eram biodegradáveis. Imagino
que vocês nunca ouviram essa palavra. “Bio“ vem do
grego “bios“, que quer dizer “vida“. Biodegradável
é aquilo que pode ser “comido“ pela vida, aquilo
que é alimento para a vida. Por exemplo: as folhas
mortas, numa floresta, são comida para o solo. O solo
come as folhas mortas e elas, as folhas mortas, se
transformam em fertilidade para o solo. Do solo assim
fertilizado nascem outras árvores. A natureza tem esse
poder maravilhoso de transformar a morte em vida. A Adélia
Prado – é preciso que vocês leiam os poemas da Adélia
– escreveu assim: “Eu sempre sonho que uma coisa
gera, nunca nada está morto. O que não parece vivo,
aduba. O que parece estático, espera.“
Os bichos eram os maravilhosos processadores das sobras
de comida. Dentre eles os mais eficientes eram os
porcos. Os porcos comiam qualquer coisa: sabugos de
milho, cascas de abóbora, sobras de mandioca, xuxus,
inhames, gilós... Pobrezinhos, nada sabiam do seu
destino. Comiam, engordavam – sem imaginar que seriam
transformados em linguiças, lombos, toucinho, torresmo
e costelinhas. As nossas sobras eram transformadas em
comidas para os porcos que, por sua vez, seriam
transformados em comida para nós. Como disse um
cientista antigo, Lavoisier, “na natureza nada se
cria; tudo se transforma.“ É um giro constante... As
galinhas eram outros processadores de sobras: cascas de
banana, bem picadinhas, couve, almeirão, milho,
repolho...
Pavlov é o nome de um cientista russo que ficou famoso
por sua pesquisa com cães. Cães gostam de carne. Só
de ver o bife a boca deles fica cheia de saliva. Mas cães
não salivam ao ouvir o som de um sino. Pois Pavlov
resolveu ensinar os cães a salivar ao ouvirem o som de
um sino. Ele fez assim: dava a um cão um pedaço de
carne ao mesmo tempo em que tocava um sino. Depois de
repetir essa coisa várias vezes seguidas ele não deu a
carne ao cão mas tocou o sino. Pois o cão, só de
ouvir o sino, salivou. A isso se dá o nome de
“reflexo condicionado“. Pois lá na roça, sem
nenhuma intenção científica, a gente criava reflexos
condicionados nas galinhas. Galinha não vem para perto
da gente se a gente bate o garfo no prato de metal. Mas
a gente, sem ter lido Pavlov, batia no prato de metal
enquanto dava as sobras de comida. Pois as galinhas, só
de ouvir o barulho do garfo batendo no prato, vinham
correndo... Esse experimento deveria ter sido publicado
nas revistas científicas internacionais! As pessoas da
roça sabem muito de psicologia, animal e humana...
Havia também coisas que não eram biodegradáveis.
Vidros e garrafas, por exemplo. Mas não eram jogados
fora. Eram guardados, lavados e vendidos. Vidros eram
vendidos a farmácias que os usavam de novo. E as
garrafas eram vendidas a armazéns. Desta forma, aquilo
que entre nós é jogado fora e contribui para aumentar
as montanhas de lixo, lá no mundo em que eu vivia
continuava a ser usado; não virava lixo. Latas vazias
eram raras e preciosas. Latas de massa de tomate eram
transformadas em canequinhas para tomar café. Latas
maiores eram usadas para guardar coisas ou como vasos
onde se plantavam flores e folhagens. Malva perfumada,
por exemplo. Num mundo de pobreza nada se joga fora.
Tudo é precioso. Tudo tem de ser usado de novo.
Chegará um dia, eu penso, em que as montanhas de lixo
se tornarão insuportáveis. E então – quem sabe? –
chegará a hora em que tomaremos consciência da doidice
do progresso – pois uma coisa que produz tanto lixo só
pode ser doida! Iremos reaprender, então, a sabedoria
da vida pobre. Talvez a pobreza faça mais bem à vida
que a riqueza...
APERITIVOS
1. No alto da serra, em Pocinhos do Rio Verde, tenho um
pequeno pedaço de terra. Separei um espaço onde planto
árvores para pessoas queridas que entram na canoa para
atravessar o rio, em direção à terceira margem. Vou
plantar mais um ipê. Para um jovem, filho de amigos
queridos, Carlos e Jane Fidalgo: Cristiano Gonçalves
Fidalgo: 1975-2001. E-mail do Carlos e da Jane:
fidalgo@gis.net .
2. Albert Camus: “Que pode um homem desejar de melhor
do que a pobreza? Não disse miséria, nem o trabalho
sem esperança do proletário moderno. Mas não vejo o
que pode desejar-se a mais do que a pobreza ligada a um
ócio activo.“
3. No mundo terrível que Huxley descreveu em O Admirável
Mundo Novo, as crianças aprendiam, enquanto
dormiam, a lição mais importante: “Jogar fora é
melhor que consertar, jogar fora é melhor que
consertar...“
4. De repente senti uma enorme saudade do texto de
Monteiro Lobato, Jeca Tatu. Pequeno, sem saber ler, eu
abria o livrinho e o “lia“ para quem quisesse. Eu o
sabia de cor. Gostava das ilustrações: Jeca Tatu dando
um murro no focinho de uma onça e dizendo: “Conheceu,
papuda?“ Será que alguém ainda guarda um exemplar?
Se tiver, eu compro... (Correio Popular, Caderno C,
24/06/2001.)

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