O jardineiro


Faz tempo ganhei um presente maravilhoso: por conta da Fundação Rockefeller passei um mês na “Villa Serbelloni“. A “Villa Serbelloni“ é um palácio, em tempos idos morada de príncipes e princesas. Dizem as – não sei se boas ou más - línguas que o presidente John Kennedy teve um encontro amoroso com Sophia Loren naquele lugar. Se teve, o lugar foi bem escolhido. Hoje ela está destinada a fins menos românticos: é um centro de estudos e conferências. Para se ganhar presente igual ao meu basta que se tenha um projeto acadêmico passível de ser realizado em um mês. Se for aprovado o candidato passa um mês na “Villa Serbelloni“...

Quando cheguei foi um deslumbramento! Lá embaixo, o lago de Como, azul, suas margens pontilhadas com pequenas vilas. Ao fundo, os Alpes cobertos de neve. Ao redor, bosques e jardins – dezessete quilômetros para se caminhar em meio à beleza. E a cada quarto de hora se ouviam os sinos, os mesmos sinos que eram tocados há séculos. A beleza era prenúncio de um mês de felicidade!

Mas, passados uns poucos dias, a tristeza bateu. A beleza dos bosques e jardins era a mesma mas não me dava alegria. Comecei a ter saudades do meu jardim, jardinzinho que podia ser atravessado com duas dúzias de passos. Os jardins do palácio eram lindos, lindíssimos, muito mais lindos do que o meu. Mas não eram o MEU jardim. Eu não os amava. O jardim que eu amava era aquele onde estavam as plantas que eu havia plantado.

Senti-me igual ao Pequeno Príncipe. No seu pequeno asteróide ele tinha um jardim com uma rosa só. E ele imaginava que sua rosa era única, não havia nenhuma igual em todo o universo. Agora, caído nesse mundo, longe da sua rosa, ele estava aflito. Sozinha, quem cuidaria dela? Havia o perigo de que o carneiro a comesse... Foi então que, andando pelo mundo, ele passou por um mercado de flores. E lá ele viu o que nunca imaginara ver: centenas, milhares de rosas, todas iguais à sua rosa, sendo vendidas aos maços. O seu primeiro sentimento foi de espanto. “-Então, minha rosa não é a única! Ela me mentiu quando me fez acreditar que não havia outra igual... “ Ao espanto seguiu-se a tristeza: rosas, centenas, milhares... Seu jardinzinho era ridiculamente pequeno... Levou tempo para que ele compreendesse que sua rosa lhe dissera a verdade. “– Não! Essas rosas não são iguais à minha rosa. Não são iguais porque a minha rosa é a rosa de quem eu cuidei! Tirei as lagartas de suas folhas – nem todas é verdade, por causa das borboletas - , eu a reguei e pus uma mordaça na boca do carneiro, para que ele não comesse as suas folhas...“

Os adultos têm dificuldade de entender. As crianças são mais inteligentes, elas têm a inteligência do coração. Quando morre um cachorrinho e a criança chora, os grande se apressam em consolar: “- Não chore! Vamos comprar um outro cachorrinho igualzinho ao seu!“ Só a criança sabe que nenhum outro cachorrinho do mundo será igual ao seu cachorrinho que morreu...

Foi assim que me senti em meio aos jardins da “Villa Serbelloni“: eu queria voltar para casa para cuidar do meu jardinzinho! Aprendi então a primeira lição da jardinagem. Jardins bonitos há muitos. Mas só traz alegria o jardim que nascer dentro da gente. Vou repetir, porque é importante: só traz alegria o jardim que nascer dentro da gente. Plantar um jardim é como parir um filho. É preciso que o jardim se forme primeiro, como sonho. Li isso pela primeira vez nos escritos do místico Angelus Silesius: “Se você não tiver um jardim dentro de você, é certo que você nunca encontrará o Paraíso!“ Traduzindo: se o jardim não estiver dentro o jardim de fora não produzirá alegria.

Rickert tem um poeminha que diz assim: “Nossos dias são curtos mas com alegria os vemos passando se no seu lugar encontramos uma coisa mais preciosa crescendo: uma flor rara, exótica, alegria de um coração jardineiro... Uma criança que estamos ensinando. Um livrinho que estamos escrevendo.“ Se tivermos um coração jardineiro a passagem do tempo, a velhice chegando, a morte espreitando, deixam de ser uma experiência de dor. Plantar um jardim é uma liturgia para exorcizar a morte. Eu me alegro olhando para as árvores pequenas que estarão grandes depois que eu ficar encantado.

Conheci um homem muito rico, seu apartamento era imenso. Tendo muito dinheiro, ele contratou um decorador que encheu o seu apartamento com objetos caros e bonitos. Mas todos os objetos eram belos e mortos. Haviam sido comprados em lojas de objetos de decoração. Não haviam saído da alma daquele homem. Não havia “aconchego“. Aconchego existe quando os objetos têm o calor do corpo de alguém. O mesma coisa eu sinto quando olho para certos jardins. Especialmente os jardins dos edifícios de apartamentos. São todos iguais: pedras, troncos, bromélias, palmeiras, as mesmas plantas, que não precisam de cuidados. Os moradores passam por ele sem nada ver. Eles têm razão. O jardim não diz nada. Ele não é de ninguém. O jardim não faz diferença. Nem sequer pensam em cuidar dele. Não sofrem quando uma planta morre.

Um psicanalista tem de ser um jardineiro a procura de um “jardim secreto“. Ele sabe da existência do “jardim secreto“ pelas plantas minúsculas que brotam nas fendas das nossas paredes de cimento. Toda pessoa tem um “jardim secreto“. Cecília Meireles descrevia o corpo de sua avó morta como um lugar onde cresciam “jardins de malva e trevo, com seus perfumes brancos e vermelhos“. Rilke, mais selvagem, via dentro de si mesmo um “bosque antiquíssimo e adormecido...“

Um paisagista tem de ser um psicanalista que procura adivinhar o jardim que cresce dentro das pessoas. Fazer jardins convencionais é fácil. A marca de um jardim convencional é que logo os olhos se acostumam... É preciso ter sensibilidade poética para ver o “jardim secreto“.

Todos estamos em busca de um jardim antiquíssimo. Todos queremos voltar para um jardim antiquíssimo. A alma não deseja novidades. A alma deseja aquilo que ela amou e perdeu. A alma quer sempre voltar. O “jardim secreto“ é o lugar para onde se volta...

Você gostaria de plantar um jardim mas o seu espaço é pequeno. Mas isso não é impedimento. Pode-se plantar um jardim em qualquer lugar. Há jardins que se plantam à volta das janelas e das portas. São lindas as trepadeiras floridas caindo pelas sacadas. Haverá coisa mais delicada que as efêmeras “Manhãs gloriosas“? Walt Whitman dizia que a flor de uma “Manhã Gloriosa“ lhe dava mais alegria que todos os livros de filosofia! As sacadas coloridas com gerânios vermelhos são, numa cidade, a revelação da alma dos seus habitantes!

“Síndrome do grande“ é uma perturbação oftálmica ainda não bem compreendida. Quem sofre dela só vê coisas grandes – não vê coisas pequenas. Para essa doença existe remédio. É só consultar um poeta japonês. Os japoneses sabem como educar os olhos para que eles se assombrem diante do pequeno. Por exemplo: minha amiga Meire, esposa do João Francisco, é uma poeta das dobraduras. Faz origamis minúsculos, maravilhosos, perfeitos. São hai-kais de papel. As borboletas grandes chamam logo a atenção. Mas os desenhos mais elaborados e delicados, eu os encontrei nas borboletas pequenas. E as minúsculas flores silvestres, que passam desapercebidas aos olhos que sofrem da “síndrome do grande“, exibem cores e simetrias assombrosas.

Com coisas pequenas, plantas e flores minúsculas, é possível fazer cenários e jardins dentro de um garrafa de boca larga (12 centímetros). Deita-se a garrafa. Dentro dela a gente constrói uma paisagem: pedras, areia, terra, cascas de árvore, musgos, mini-bromélias, plantas-miniatura, um pouco de água... Tapa-se a garrafa e está pronto o jardim. Ele assim vive por meses – e você poderá tê-lo na sua mesa de trabalho! Vamos! Anuncie o Paraíso! Plante um jardim!


APERITIVOS

Veja o filme O Jardim Secreto.

Hans Born, é marido da Tomiko, japonesa. Aquela do Blazer Vermelho e da estória do jardineiro que se apaixonou pela Fräulein. Mandou-me um e-mail. Sobre o filme Viver, do Kurosawa. Cena de que não me lembrava: o burocrata, no fim, já perto de morrer, balança no balanço do jardim que ajudara a construir, com o rosto transfigurado de paz. Se não me engano o filme do Bergman, Gritos e Sussurros, também termina numa cena de balanço. Peço ajuda ao Marcel, especialista em Bergman... Informou-me também o Hans que em Munique há uma área destinada a pequenos jardins que a prefeitura aluga à população. O povo cultiva flores e verduras. E coisa parecida existe também na Holanda.

Se vocês estiverem à cata de idéias para fazer um jardim, telefonem para 3243 6572. É o telefone da Raquel, minha filha, arquiteta-paisagista, com quem troco idéias sobre jardins. Ela é boa nisso!

Vocês podem imaginar uma cidade em que o “lixão“ alimenta um parque maravilhoso, bem ao seu lado, onde o povo vai para passear, fazer piqueniques e churrascos, às margens dos lagos com patos e gansos? Existe. No Brasil. Ipatinga/MG: www.ipatinga.mg.com.br

Gramado, cidade das hortênsias, do inverno charmoso, do inverno com fondue. Lá aconteceu um assassinato horrível. O senhor Knorr, muitos anos atrás começou a plantar um parque. Fui visitá-lo. Lugar fantástico, misterioso... Lembrei-me dos versos de Frost: “Os bosques são belos, sombrios, fundos...“ Voltei a Gramado. Eu só queria visitar o Parque Knorr de novo. Foi assassinado. Transformaram-no na morada de Papai Noel, com renas, trenós, 500.000 (isso mesmo!) lâmpadas que se acendem à noite. O sonho do senhor Knorr foi assassinado por gente que nada entende do mistério sagrado da natureza e pensa com idéias de playcenter. Não voltarei lá para não sofrer. (Correio Popular, Caderno C, 08/07/2001.)