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O
Manoel Moraes é meu amigo. Engenheiro por diploma, é
amante da natureza por vocação. Grande devorador de
livros, está sempre à procura de “conspiradores“,
isto é, pessoas que respiram o mesmo ar que ele. Faz
uns dias ele me trouxe um artigo xerografado. Autor:
Bruno Bettelheim. Bettelheim era um homem amorável e
inteligente. Amava as crianças. Passou a vida pensando
no que fazer para tornar as crianças mais felizes. O
artigo tem o título Os livros essenciais da nossa vida.
Falou sobre os livros que tiveram um significado
especial para ele. Fiquei feliz ao ver que ele citou
Martin Buber. Feliz por saber que nós dois bebemos da
mesma fonte. Buber também amava as crianças. Conta-se
que, numa festa em que ele estava sendo homenageado,
viu-se cercado por professores e filósofos que tentavam
impressioná-lo, falando coisas profundas e complicadas.
É sempre assim: todo mundo quer impressionar bem.
Buber, cansado daquilo tudo, delicadamente interrompeu a
conversa com um comentário: “Cada vez eu me sinto
mais distante dos adultos e mais próximo das crianças...“
Eu me lembro perfeitamente bem da primeira vez que li
Buber. Era de tarde, deitado numa rede, lá em Minas...
À medida em que eu lia a alegria ia tomando conta de
mim. Ficava alegre porque as palavras de Buber traziam
luz ao meu mundo interior. Naquilo que ele dizia, eu me
reconhecia.
O seu livro mais importante é Eu-Tu. Não seria
aceito como tese em nossas universidades. Não tem notas
de rodapé. Não cita fontes. Não enuncia teorias. Não
explica o método. Curto demais para uma tese. Mas, como
sabia Nietzsche, “pensamentos que chegam em pés de
pombas guiam o mundo...“
Lendo “Eu-Tu“ os meus olhos se abriram. Compreendi
aquilo que eu vivia sem compreender. Eu quero contar a
vocês o que eu vi.
Aqui o meu pensamento ficou paralisado. Não sabia como
contar a vocês o que vi. Resolvi dar uma caminhada. E lá
ia eu, absorto em meus pensamentos, quando, de repente,
bem à minha frente, uma explosão de cores: a terra
ejaculando flores - flores que estavam escondidas dentro
dela! Um ipê rosa florido! Já pensaram nisso? Que as
flores são os pensamentos da terra? A terra pensa
flores! Dentro dela, as flores ficam guardadas,
dormindo, mergulhadas na escuridão. Mas, pela magia de
uma árvore, os pensamentos da terra se oferecem aos
nossos olhos sob a forma de flores! Dentro da terra estão
todas as flores do mundo, à espera de árvores... A
terra sonha ipês! As árvores são os psicanalistas da
terra!
Aí descobri um jeito de explicar Martin Buber... Aquilo
que aconteceu, aconteceu comigo. Só comigo. Tive
vontade de abraçar aquela árvore, de comer as suas
flores. Fiquei agradecido por ser a natureza coisa tão
maravilhosa, sagrada! Mas sei que muitas pessoas já
haviam passado, estavam passando e irão passar por
aquele ipê sem se assombrar. Para elas aquele ipê é
apenas um objeto a mais, ao lado de postes, casas e
carros. Já contei de uma mulher que odiava um manso e
maravilhoso ipê amarelo que havia à frente de sua
casa. Ela odiava o ipê porque suas flores sujavam o chão!
Chão de ouro, coberto de flores amarelas, flores que
deveriam ficar lá! Seria necessário tirar os sapatos
dos pés para andar sobre elas! Mas aquela mulher não
via com os olhos. Via com a vassoura. E uma vassoura dá
sempre a mesma ordem: varrer, varrer! Tudo o que pode
ser varrido é lixo! E ela, para se livrar do trabalho,
envenenou o manso ipê. O ipê morreu. Não mais suja a
calçada da mulher.
Agora explico Buber. Para Buber as coisas, as árvores,
os bichos, as pessoas, não são coisas, árvores,
bichos e pessoas, nelas mesmas. Elas são a partir da
relação que estabelecemos com elas. Para a mulher da
vassoura o ipê amarelo era um objeto inerte, sem mistério.
Ela podia fazer com ele o que quisesse. Mas para mim os
ipês são um assombro, beleza, alegria, revelação do
mistério do universo.
Há um tipo de relação que transforma tudo em objetos
mortos. Uma mulher se transforma em objeto para o homem
que faz uso dela para ter prazer. Um homem se transforma
em objeto para a mulher que o usa para obter status ou
segurança. Uma criança se transforma em objeto quando
seus pais a manipulam para realizar os seus sonhos. Para
um professor que só pensa no cumprimento do programa
todos os seus alunos são objetos. Para quem está atrás
de milagres Deus é um objeto que faz milagres. O
eleitor é um objeto que o político usa para ganhar
poder. Um doente, para o médico, pode ser apenas um
“portador de uma doença“. (Ah! Os professores e
alunos, à volta de um doente sobre quem nada sabem, nem
mesmo o nome, numa enfermaria de hospital! Ali não está
um ser humano! Ali está um “caso“ interessante...).
Buber deu a esse tipo de relação o nome de
“eu-isso“. Tocadas pela relação eu-isso, todas as
coisas, pessoas, animais, árvores, Deus, se transformam
em coisas que uso para atingir os meus propósitos. Eu
sou o centro do mundo. Tudo o que me cerca são utensílios
que uso para os meus propósitos.
Quando, ao contrário, meus olhos estão abertos para o
assombro e o mistério das coisas que me rodeiam, eu
refreio minha mão. Não posso usá-los como se fossem
ferramentas para os meus propósitos. São meus
companheiros – não importa se um ipê florido, um cãozinho,
um poema, uma criança que quer me vender um drops no
semáforo... Buber deu o nome de “eu-tu“ a essa relação.
Já falei que as nossas escolas são planejadas à
semelhança das linhas de montagem: as crianças são
“objetos“ a serem “formados“ segundo normas que
lhe são exteriores. Ao final, formadas, são objetos
portadores de saberes, centenas, milhares, todos iguais.
Pertencem ao mundo do eu-isso. Na relação eu-tu cada
criança é única – por ser uma companheira na minha
vida, companheira que nunca se repetirá, nunca haverá
uma igual.
No mundo do eu-isso se usa o poder porque o que desejo
é manipular o objeto. No mundo do eu-tu o poder nunca
é usado porque o que desejo é acolher, dentro de mim,
o objeto à minha frente.
Escrevi tudo isso porque tenho estado pensando na magia
da Escola da Ponte. Qual o seu segredo? Sua magia se
encontrará, por acaso, nos seus princípios pedagógicos?
Não. Definitivamente não. Princípios, quaisquer que
sejam, são normas gerais. Por isso eles pertencem ao
mundo do eu-isso. Se tentássemos reduplicar a Escola da
Ponte usando os mesmos princípios pedagógicos como
receitas, apenas conseguíssemos construir uma linha de
montagem mais gentil e, talvez, mais eficiente. Me
parece que o segredo da Escola da Ponte se encontra em
outro lugar. Ele se encontra no mesmo lugar do ipê
florido: o absoluto abandono do uso do poder e da
manipulação. Imaginem uma escola onde não há um
diretor. Todos os professores são diretores. Pela
simples razão de não haver quem tome as decisões
finais; onde “diretores“ não ousam e nem querem
usar do poder para fazer valer suas idéias. Onde as
decisões são todas compartilhadas. Onde os professores
não valem mais que as crianças. Onde os professores não
dão ordens e as crianças obedecem. Sabedoria, disse
Roland Barthes, é “nada de poder, uma pitada de saber
e o máximo possível de sabor...“
Qual a receita? Não há receitas. Não há receitas
para fazer o ipê florir. Não sei como o ipê floresce
e nem por que alguns têm flores rosa, outros flores
amarelas e outros flores brancas. Certo estava Angelus
Silésius: “A rosa não tem por quês; ela floresce
porque floresce.“ Assim é Escola da Ponte.
DICAS
A coisa mais importante para se fazer nesse domingo: ver
os ipês floridos! Mas, por favor: não olhe para eles
de dentro do carro. Saia. Fique debaixo deles e olhe
para cima. Se o céu estiver azul você verá aquelas
bolas de flores rosa contra o azul do céu. Você já
ensinou seu filho a ver? Pois trate de ensinar. Mostre a
árvore de longe. Mostre de perto. Mostre uma flor.
Explique a sua simetria: pentagonal.... Olhando para as
flores se aprende matemática, se aprende a pensar
abstratamente...
A propósito, esse poema de Emily Dickinson (1830-86):
“Alguns guardam o Domingo indo à Igreja - / Eu o
guardo ficando em casa - / Tendo um Sabiá como cantor -
/ E um Pomar por Santuário./ - Alguns guardam o Domingo
em vestes brancas - / Mas eu só uso minhas Asas - / E
ao invés do repicar dos sinos na Igreja - / nosso pássaro
canta na palmeira./ - É Deus que está pregando,
pregador admirável - / E o seu sermão é sempre curto.
/ Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final - /
eu o encontro o tempo todo no quintal.“
“Deus é assunto delicado de pensar; faz de conta um
ovo: se apertamos com força parte-se; se não seguramos
bem cai.“ (Dito do avô Celestino). (Correio Popular,
Caderno C, 10/06/2001.)
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