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Quando
os nossos antepassados, há milhões de anos - sofrendo
a chuva, o frio, o sol, o vento e o perigo dos bichos
selvagens - descobriram que numa caverna eles estariam
protegidos, eles inventaram a casa. Acontece que
cavernas são raras. Não existem em qualquer lugar. Sem
cavernas, com chuva, frio, sol, vento e bichos ferozes,
a inteligência dos homens começou a funcionar. É
sempre assim. A inteligência funciona quando o corpo
padece. E eles começaram a pensar em como construir uma
coisa que desse a proteção que uma caverna dava. E foi
assim que as casas foram inventadas. Toda casa é uma
caverna construída pelos homens, melhorada e enfeitada.
Também os nossos antepassados enfeitavam suas cavernas
com pinturas. A segurança não basta para fazer os
homens felizes. Eles querem a beleza. (Vocês já
visitaram uma caverna? Vocês poderiam pedir aos seus
pais que, para variar, não fossem para as praias
apinhadas nas próximas férias. Seria legal visitar uma
caverna... Existe até um esporte que consiste em
explorar cavernas.)
Foi assim que essa casa de pau-a-pique onde morei quando
criança foi inventada. Era uma casa boa. Protegia da
chuva, do frio, do calor do sol, das cobras, cães
selvagens e onças... Sim, havia onças... Era tão boa
que estou aqui, vivo. Aquela casa me protegeu. E porque
eu estou vivo, vocês estão vivas. Se eu tivesse
morrido vocês não existiriam, porque seus pais - meus
filhos - não teriam nascido...
Aquela era a casa melhor e mais bonita que eu conhecia.
As outras eram as choupanas dos caboclos, de chão
batido e sem pintura nas paredes. Na minha casa quando
chovia havia muitas goteiras. Chovia dentro de casa. O
jeito era por bacias, baldes e panelas no lugar onde a
água pingava. Era até gostoso dormir ouvindo o ping
– ping das goteiras. A água caia direto das telhas
porque a casa não tinha forro. Olhando para cima eu via
as telhas e os paus redondos do telhado. Via também os
ratos que passeavam pelas madeiras durante a noite.
Havia também gretas nas portas e janelas por onde, no
inverno, entrava um vento frio Mas, como eu já disse,
eu não conhecia casas melhores. Eu achava que as casas
eram assim. E eu não me sentia pobre e nem sofria.
Aquela era a minha casa, enfeitada com roseiras, dálias
no jardim, e malva perfumada em latinhas de massa de
tomate.
Minha casa era assim (seu pai, sua mãe ou professora
podem ajudar você a fazer uma planta): a porta da
frente dava para uma salinha de entrada. Era a sala onde
as visitas se assentavam para conversar. Tinha três
cadeiras, um banco de madeira e um baú. Três quartos
com uma cama com colchão de palha de milho e um armário.
E uma cozinha grande com uma mesa de madeira, dois
bancos compridos, um guarda-comida, e um fogão de
lenha.. Guarda-comida era um armário com porta de tela
fina onde se guardava a comida, pois geladeiras não
havia. O fogão de lenha ficava sempre aceso, com um
bule de café na chapa quente. A porta da frente era a
única que tinha fechadura. As outras portas e as
janelas eram fechadas com trancas e tramelas. Na porta
de entrada havia um buraquinho por onde passava um
barbante amarrado ao trinco. Qualquer pessoa que
chegasse podia puxar o barbante, abrir o trinco, entrar
na casa e ir tomar café na cozinha. Naquele tempo não
existia medo de ladrões e malfeitores. Todo mundo era
amigo. O medo só existia à noite... De noite era
escuro lá fora, as sombras davam medo e havia barulhos
estranhos. Os cães latiam. Galos com pesadelo cantavam
fora de hora. As noites eram misteriosas. De noite era
preciso que a casa estivesse bem fechada por causa dos
lobisomens e mulas sem cabeça que saiam dos seus
esconderijos, juntos com os bichos e assombrações.
Hoje não há mais. As luzes e a televisão fizeram com
que eles se mudassem para longe. Hoje as noites não têm
mistérios.
Os nossos antepassados que viviam nas cavernas
descobriram que uma caverna com uma fogueira dentro é
uma casa melhor. Fogo é melhoria: dá luz, calor,
espanta o medo, espanta os bichos. E, por acidente, eu
acho, eles descobriram que com o fogo se pode fazer
comida. A história da humanidade está ligada ao domínio
do fogo. (Vejam o filme “A guerra do fogo“ – é
divertido e instrutivo.)
Hoje é fácil acender o fogão: gira-se um botão para
o gás sair, aperta-se outro botão para produzir uma
faisca, e o fogo está aceso. Naquele tempo era
complicado fazer fogo. Exigia um longo preparo e uma
arte delicada. Primeiro, era preciso catar lenha no
mato. Ainda hoje, nas regiões mais pobres do Brasil, a
gente pode ver as mulheres levando feixes de lenha
equilibrados miraculosamente em suas cabeças. Era
preciso ter achas grossas de lenha, para o fogo que fica
queimando, e gravetos pequenos, para o foguinho inicial
de curta duração, necessário para se acender as achas
grossas. A arte começava na forma de trançar paus
grossos com os gravetos. Fósforos já havia. A gente
risca os fósforos sem pensar. Paus de fósforo deveriam
ser objeto de estudo, nas escolas. Já pensei mesmo em
oferecer um curso sobre a história do pau de fósforo,
história que começa quando um ancestral nosso pegou,
pela primeira vez, um pau que um raio incendiara. Num
pau de fósforo está resumida a luta dos homens, através
dos milênios, para dominar o fogo. Objeto técnico incrível.
É esfregar a cabeça dele numa superfície áspera e
ele acende. Os paus já estão trançados no fogão. Não
havia álcool para ajudar. Não havia jornais para
queimar. Capim seco, sim. Tudo arranjado do jeito certo,
encosta-se o fósforo aceso no capim. E o milagre
acontece: o fogo. Quando o fogo é aceso anuncia-se a
comida: o café, o biscoito, o bolo de fubá, o feijão,
o frango ensopado. Ainda hoje eu fico comovido quando,
viajando pelo interior, vejo a fumaça saindo da chaminé
das casas dos pobres. Casa de rico não tem chaminé.
Fogão de lenha aceso anuncia que existe vida naquela
casa. Fogão de rico não faz fumaça. Por isso é que
comida feita em fogão de lenha é mais gostosa.
Mas, e os pobres que não têm caixa de fósforo? Aí
está um segredo: depois de acabado o fogo, as brasas
podem ser guardadas, debaixo da cinza. É preciso que
sejam cobertas de cinza. Caso contrário apagam. Você
olha para o fogão, tudo apagado – e não sabe que é
só mexer na cinza com um pau para que as brasas
vermelhas apareçam. Aí, as brasas, colocadas debaixo
dos gravetos e do capim – é só soprar. Não precisa
fósforo: o sopro acende as brasas. E o milagre
acontece. Brasas debaixo das cinzas: essa imagem é
usada como metáfora (se você não sabe o que é metáfora
pergunte ao pai, mãe, professora) para algo que
acontece com a gente. Tivemos um grande amor que nos fez
sofrer. O tempo passou. Agora tudo parece esquecido. Não
está. Está como as brasas debaixo das cinzas: basta um
sopro para que o fogo se acenda e a paixão volte...
Fernando Pessoa tem um verso em que ele fala de um
“anjo que com suas asas soprou as brasas de ignoto
lar...“
Mas, e se as brasas se apagarem? O jeito é pedir fogo
emprestado para uma vizinha. “- A senhora me empresta
um pau de lenha aceso?“ “Claro! Pode levar!“ Com o
pau de lenha aceso na mão ela saía correndo para que
ele chegasse aceso à sua casa. Tinha de correr para que
o fogo não se apagasse. Quem pede fogo emprestado não
tem tempo para conversa fiada. Daí um ditado que se diz
a quem chegou e saiu, rapidinho: “Veio buscar fogo?“
Numa cidade onde morei depois de grande, Lavras do
Funil, havia uma “Rua do Fogo“. Acho que ainda tem.
Nunca entendi a razão desse nome. Aí meu irmão Ismael
me explicou: nos tempos antigos, muito antigos, fósforo
era objeto de luxo. Não se encontrava fácil. Alguém,
então, teve uma idéia brilhante: vender fogo. Assim,
naquela casa havia fogo aceso sempre, dia e noite. Se
faltasse fogo na casa de alguém era só ir até a
“Rua do Fogo“ e comprar fogo.
Fazer uma fogueirinha é coisa gostosa. É por isso que
os pais gostam de fazer churrasco. Eles se sentem
voltando às suas origens, às cavernas, onde o
churrasco apareceu, por acidente, quando um pedaço de
carne crua caiu no braseiro enquanto nossos antepassados
dormiam. Quando acordaram, ficaram bravos: carne
queimada. Como não tinham nada mais para comer, comeram
a carne queimada mesmo. E perceberam que ela era
gostosa. Não existe culinária mais primitiva que o
churrasco...
DICAS
Se você quiser dar um presente a uma pessoa que você
considera inteligente, dê o livrinho “A Chama de uma
Vela“, de Bachelard. É lindo. É sobre a magia do
fogo. Mais precisamente: a magia de uma vela acesa. Na
minha casa, de noite, a gente acendia as velas e as
lamparinas... Ainda me lembro do cheiro e da chama
bruxoleante... (Correio Popular, Caderno C, 04/02/2001.)
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