Era o
meu penúltimo dia como professor visitante nos Estados
Unidos. Os alunos começaram a vir ao meu escritório
para se despedirem. Entrou uma jovem, longos cabelos ruivos,
sardas. Olhou para mim, sorriu e disse: “ Na na noite
passada sonhei com você. Sonhei que você era um
palhaço...” Ela sorria. Sua voz tinha música.
Era um carinho.
Perguntado
sobre o seu nome o Demônio respondeu a Jesus: “
Meu nome é Legião, porque somos muitos”,
afirmação que é confirmada pela psicanálise.
A moça estava certa. No meu caso, dentre a Legião
que mora no meu corpo, um deles é um palhaço
brincalhão. Sua companhia já me causou embaraço.
Não me causa mais. Ao contrário, me dá
um delicioso sentimento de leveza. Além disso, descobri
que ele era e é frequentador de alguns dos pensadores
que mais admiro. Nietzsche, que dizia que a verdade, para
ser verdade, tem de ser acompanhada por um riso. Kolakowski,
que escreveu um lindo ensaio entitulado “ O sacerdote
e o bufão”. Octávio Paz, que afirma ser
missão do intelectual fazer rir pelos seus pensamentos
e fazer pensar por suas piadas.
O problema
está em que, normalmente, as pessoas não se
dão conta de que o riso é virtude filosófica.
“Ridendo dicere severum”, afirmava Nietzsche:
rindo, dizer as coisas sérias. Talvez em virtude de
feitiços teológicos - no livro do Humbero Ecco,
O nome da rosa , o irmão Pedro amaldiçoava o
riso como coisa demoníaca - fomos levados a ligar o
riso à leviandade e à falta de seriedade. Assim,
estou sempre correndo o risco de ver as coisas que digo com
a seriedade do riso serem ignoradas como nada mais que uma
brincadeira.
É
o caso da minha velha proposta para a solução
da monstruosidade dos vestibulares, a meu ver uma das maiores
pragas da educação brasileira. Os vestibulares
são escorpiões com ferrões na cabeça
e no rabo. Na cabeça, o ferrão pica para frente,
aqueles que estão tentando entrar na universidade.
No rabo, ele pica para trás: as crianças e os
adolescentes: escolas boas são as que os preparam os
vestibulares. E assim, os ditos exames, que são elaborados
apenas como guilhotina para degolar os menos espertos que
querem entrar, se estabelecem como camisas-de-força
para o pensamento dos que estão apenas começando:
são elevados à condição de norma
mal-dita para o ensino de primeiro e segundo graus. A maior
importância dos vestibulares está precisamente
nisso: as deformações que eles impõem
sobre a educação que os antecede.
Os vestibulares
podem ser melhorados. Qualquer melhoria, entretanto, não
compensa os estragos que fazem. Ao invés de serem melhorados,
proponho que sejam abolidos. Como é que podem ser abolidos?
Fala-se em adotar o modelo americano: a seleção
se faria pelos currículos escolares. Essa solução
é muito pior que os atuais vestibulares. Ela criaria
uma “liga” de escolas de elite, caminho indispensável
para a entrada nas universidades, tal como acontece nos USA,
aumentando assim as vantagens dos ricos sobre os pobres.
Fala então
o bufão, lembrando os leitores de que, por absurda
que possa parecer, a sua proposta é coisa séria.
Proponho
que o vestibular seja substituido por um sorteio. Todos os
que concluirem o segundo grau poderão entrar no sorteio.
Vantagens:
1. Os
pobres poderiam ter esperanças de entrar na universidade.
Nenhuma outra solução é tão democrática
quanto esta.
2. Os
cursinhos seriam automaticamente fechados. O dinheiro que
neles gastam as classes média e rica seriam economizados.
3. O ensino
do primeiro e do segundo graus ficaria livre da camisa-de-força
que os vestibulares lhes impõe. As propostas educacionais
teriam de ser avaliadas, então, pelo seu valor cultural,
como educação, e não por sua capacidade
para ensinar técnicas para passar nos vestibulares.
4. As
classes médias e ricas, liberadas dos gastos com os
cursinhos, e diante do fato de que seus filhos não
são sorteados, teriam à sua disposição
recursos financeiro substanciais que poderiam ser investidos
na criação de excelentes universidades particulares,
à semelhança do que ocorre nos Estados Unidos.
Os pobres teriam mais chances de acesso à educação
univeristária pública gratuita e os ricos poderiam
criar suas próprias instituições de ensino
superior, sem que o governo tivesse de lançar mão
de seus recursos.
Objeção:
o sorteio permitiria o acesso às universidades de qualquer
estudante, mesmo aqueles que estudaram nas piores escolas
e tiraram as piores notas, contribuindo assim para piorar
o nível já baixíssimo da nossa educação.
Contestação:
esse perigo seria evitado por um exame nacional, ao final
do segundo grau, que teria por objetivo determinar aqueles
que cumpriram as exigências mínimas de conhecimento
estabelecidas pela lei. Um exame não classificatório,
que teria apenas duas notas: aprovado, reprovado. Os aprovados
todos poderiam entrar no sorteio. Esse exame, por sua vez,
se constituiria num instrumento para que o Ministério
da Educação avaliasse o desempenho das escolas.
A proposta
tem defeitos e injustiças - infinitamente menores que
aqueles dos vestibulares.
Acho que
o pallhaço merece, pelo menos, ser ouvido e ser levado
em consideração...