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Quem
primeiro percebe são os poetas. Isso se deve ao fato de
que os seus olhos são diferentes. Por isso eles vêem
as coisas ao revés. Poesia são as coisas vistas ao
contrário. Não é coisa de pensamento, é coisa da visão.
Quando as pessoas, ao ouvir um poema, dizem que não
entenderam e pedem explicações, é porque elas puseram
o poema no lugar errado, no lugar onde moram os
pensamentos. Mas um poema não é para ser pensado na
cabeça. É para ser visto com os olhos.
Os poetas, por terem olhos diferentes, vêem também
diferente. Vêem o mundo ao contrário. A verdade deles
é o oposto à verdade dos adultos. Os adultos pensam
assim: as crianças nada sabem, quem sabe são os
adultos; por isso as crianças aprendem e os adultos
ensinam; infância é ponto de partida; a condição
adulta é o destino, ponto de chegada.
Os adultos querem andar para a frente. Progredir.
Evoluir. Os poetas sabem que a alma não deseja ir para
frente. A alma é movida pela saudade. A saudade não
deseja ir para a frente. Ela deseja voltar.
Andar para frente pode ser um equívoco. Aforismo de
Eliot: “Numa terra de fugitivos aquele que anda na
direção contrária parece estar fugindo.“ Por vezes
andar para frente é ficar cada vez mais longe. Os
adultos andam para frente. Os poetas parecem andar para
trás. Os adultos dizem que eles estão fugindo. Mas não.
Como os salmões, que deixam o mar e voltam às
nascentes de águas cristalinas onde nasceram, os poetas
desejam voltar às suas origens. É lá que mora a
verdade que os adultos esqueceram. Fogem da loucura da
vida adulta. Buscam reencontrar a simplicidade da infância.
Acho que é isso que Eliot queria dizer quando ele
escreveu: “E, ao final de nossa longa exploração,
chegaremos finalmente ao lugar de onde partimos e o
conheceremos então pela primeira vez.“
“Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura
de ser grande...“ A Adélia Prado está doente. Doente
de ser grande. Ser grande é estar doente. E doença
precisa ser tratada. Se não for tratada vira loucura.
Para se curar adultice é preciso tomar chá de infância,
virar criança de novo...
Para isso bom é ler a poesia do Manoel de Barros.
Manoel de Barros é uma criança. Quem lê o que ele
escreve vira criança. Ele brinca com as palavras. “O
que eu queria era fazer brinquedos com as palavras.
Fazer coisas desúteis. Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao acriançamento das palavras.“
Em busca do lugar de onde se partiu... A poesia do
Manoel de Barros anda para trás, para longe da loucura
do mundo adulto. Para isso ele não mede palavras:
“Preciso de atrapalhar as significâncias. O despropósito
é mais saudável que o solene. Para limpar as palavras
de alguma solenidade - uso bosta. Nasci para administrar
o à-toa, o em vão, o inútil. Prefiro as máquinas que
servem para não funcionar: quando cheias de areia, de
formiga e musgo - elas podem um dia milagrar de flores.
Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável.“ Um homem
como esse é um perigo em qualquer reunião de adultos sérios
e responsáveis.
Bernardo Soares, uma das entidades-Fernando Pessoa, é
explícito: os adultos são burros, as crianças são
inteligentes. “Sim, julgo às vezes, considerando a
diferença hedionda entre a inteligência das crianças
e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na infância
por um espírito da guarda, que nos empresta a própria
inteligência astral, e que depois, talvez com pena, mas
por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às
crias crescidas, ao cevado que é o nosso destino.“
Discordo só num ponto: a inteligência astral não nos
abandona em decorrência de uma lei mais alta. Ela nos
abandona por ser incompatível com a adultice. A inteligência
adulta é grave. Faz afundar. A inteligência infantil
é leve. Faz levitar.
Ricardo Reis - outra entidade-Fernando Pessoa - num
poema-sabedoria diz que o segredo é nos tornarmos discípulos
das crianças.
“Mestre, são plácidas todas as horas que nós
perdemos
Se no perdê-las, qual numa jarra, nós pomos flores.
Não há tristezas nem alegrias na nossa vida. Assim
saibamos,
Sábios incautos, não a viver mas decorrê-la,
tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças por nossas mestras e os olhos cheios
de Natureza.“
Quando os adultos ensinam nos tornamos cientistas:
aprendemos a ciência de dominar o mundo. Quando são as
crianças que ensinam nós nos tornamos sábios:
aprendemos a arte de viver.
Alberto Caeiro conta como Jesus Menino, cansado do céu,
fugiu e veio viver com ele como uma criança igual a
todas as outras.
“No céu era tudo falso, tudo em desacordo com flores
e árvores e pedras. No céu tinha de estar sempre sério...
Fugiu para o sol e desceu pelo primeiro raio que
apanhou. Hoje vive na minha aldeia comigo. É uma criança
bonita de riso natural.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me
como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na
mão e olha devagar para elas.
A Criança Nova que habita onde vivo dá-me uma mão a
mim e a outra a tudo que existe, e assim vamos os três
pelo caminho que houver, saltando e cantando e rindo e
gozando o nosso segredo comum que é o de saber por toda
a parte que não há mistério no mundo e que tudo vale
a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre. A direção do
meu olhar é o seu dedo apontando. O meu ouvido atento
alegremente a todas os sons são as cócegas que ele me
faz, brincando, nas orelhas. (...)
Depois ele adormece e eu deito-o. Levo-o ao colo para
dentro de casa e deito-o, despindo-o lentamente, como
seguindo um ritual muito limpo e todo materno até ele
estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma e às vezes acorda de
noite e brinca com os meus sonhos. Vira uns de pernas
para o ar. Põe uns em cima dos outros e bate palmas
sozinho sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais
pequeno. Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro da tua
casa. Despe o meu ser cansado e humano e deita-me na tua
cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu
tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar
até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é.“
O Natal é um poema. Nele Deus se revela como criança.
O Deus adulto é terrível: grave, sério, não ri, não
dorme, seus olhos estão sempre abertos e nem mesmo têm
pálpebras, jamais esquece, e registra tudo nos seus
livros de contabilidade que serão abertos no Dia do Juízo
para o acerto final de contas. O Deus adulto dá medo.
Nele não há amor. Isso nada tem a ver com uma criança:
criança é esquecimento, riso, brinquedo, um eterno
começo... Não é por acaso que o Menino Jesus tenha
fugido do Deus adulto.
Prefiro o Deus criança. No colo de um Deus criança eu
posso dormir tranquilo.
(Transparências da eternidade, Verus, 2002)
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