O dente da Camila



Minhas netas: viajei para longe, de avião. Fui para outros espaços. Vi coisas que todo mundo vê, coisas que estão lá e podem ser fotografadas: praças, igrejas, mosteiros, castelos, cenários. Todo turista que se preza tem uma câmera fotográfica. Eles pensam que a câmera fotográfica é uma gaiola onde se podem prender as coisas que se viu. Mas a fotografia não prende nada. Porque aquele momento, quando eu estava olhando através do visor da câmera, com o dedo no botão, não existe mais. Agora é passado.

As coisas que vi, embora bonitas, não me fizeram feliz. Não me fazem falta. Mas as pessoas que conheci me fizeram feliz. Fazem-me falta. Também elas podem ser fotografadas. Mas, na fotografia delas, o que traz felicidade não é a fotografia: é a memória, a saudade, o desejo de estar junto de novo. O que realmente importa não pode ser fotografado. O Pequeno Príncipe disse: “o essencial é invisível para os olhos“. O jeito de sorrir, o carinho escondido nos gestos, a música da fala (já notaram que toda fala tem uma música? Algumas falas são suaves como o som de um oboé; trazem felicidade. Outras mais se parecem com o barulho dos pratos; causam espanto e medo...). Essas coisas não se guardam em fotografias. Se guardam na alma, num quarto chamado “saudade“. No quarto “saudade“ ficam guardadas as coisas que queremos que existam para sempre, pessoas e lugares/tempo para os quais gostaríamos de voltar... Quero voltar para lá. Não para ver museus, praças, castelos e shoppings. Quero voltar para me reencontrar com aquelas pessoas que me deram alegria. Sobre elas vou falar num outro dia.

Hoje temos de voltar a um outro lugar de saudade – pelo menos saudade minha: quando eu era menino. Tenho saudades do meu tempo de menino, sem luz elétrica, sem sorvete, sem brinquedos comprados, sem tênis, sem chicletes, sem telefone. Dentro de todos os adultos mora o desejo secreto de voltar à infância. Dizia o poeta português Fernando Pessoa: “Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças...“

Um avião pode me levar à Europa, em dez horas de vôo. Mas não há avião que me leve à infância, porque ela mora no passado. Não existe mais. Existe no quarto da saudade. E, como já disse, para se viajar pelo espaço da saudade é preciso voar numa máquina de tempo. A máquina de tempo que nos leva ao espaço da saudade se chama poesia. Os poetas são seres que constróem máquinas de tempo chamados “poemas“ – e por meio deles entramos no mundo encantado do nunca mais.

Vocês se lembram: estávamos na horta e sua alegria, em meio a pés de couve, abóboras, quiabo, cebolinhas, tomatinhos, mandioca, giló, abobrinhas verdes, agrião, ora-pro-nobis... Meu plano era continuar pela horta, pelo galinheiro, pelo chiqueiro, pelo curral... Mas aconteceu algo importantíssimo que fez minha poesia andar por outros caminhos.

A Camila, priminha de vocês, minhas netas, completou sete anos. Telefonou-me. “- Vovô!“ Havia entusiasmo, alegria, decisão e urgência na sua voz. “Ôi, Camila!“ – eu respondi. “- Meu dente caiu!“ - ela me comunicou triunfante! E com razão. Que acontecimento extraordinariamente importante na vida de uma criança é a queda do primeiro dente! Ela estava me dizendo, sem saber: “-Vovô! Eu estou ficando grande!“

Na minha infância havia muitas coisas boas que não existem mais. Isso é triste. Mas havia muitas coisas ruins que não existem mais. Isso é bom. Eu viajei na minha máquina de tempo para a minha infância e me lembrei de algo ruim de que não tenho saudades e nem quero que se repita: eu tinha dor de dentes! Naquele tempo não se sabia que os dentes são importantes e que devem ser cuidados com carinho.

Eu disse que o corpo, para viver, precisa tirar da natureza aquilo que ele não tem mas de que necessita. Ele não pode viver sem ar. Os pulmões chupam da natureza, o ar de que o corpo necessita. Ele precisa comer. A criancinha, para comer, só precisa saber chupar. A natureza foi sábia. Não deu dentes às criancinhas. Porque, se tivessem dentes, na gula de comer acabariam por morder o seio da mãe. E a mãe começaria a ter medo de amamentar o nenezinho. Chega um momento quando o leite não basta. O corpo quer comer. Aí, os dentes vão aparecendo, devagarinho. É uma festa quando o primeiro dente, rompendo a gengiva depois de muita coceira e dor, aparece. Enxadas, enxadões, rastelos e pás são ferramentas para se cultivar uma horta. Os dentes são as ferramentas de que o corpo dispõe para comer o que a horta produz. Sem dentes você conseguiria comer uma cenoura?

A sabedoria da natureza me assombra. Tudo acontece tão certinho. A boca é uma oficina perfeita. E os dentes são ferramentas. Na frente, há os dentes que funcionam como o fio de uma faca. Imagine o fio da faca cortando nabos, cenouras, carne, pão. Deram o nome de “incisivos“ a estes dentes. “Incisivo“ vem de “incisão“, que significa “corte“. Ao lado deles estão os “caninos“ – de “cão“, dentes pontiagudos, de vampiro, próprios para fazer buracos, ponta de faca, instrumento de perfuração. E, lá no fundo, os molares. Antigamente havia uma profissão que desapareceu: os moleiros. Os moleiros eram donos de moinhos. Moinhos são máquinas de moer grãos. Há moinhos movidos a vento, como aqueles da Holanda e os moinhos contra os quais D. Quixote investiu com sua lança cavalgando seu corcel Rocinante (se você não sabe o que é um corcel consulte o dicionário. Se você não tem um dicionário, trate de comprar um. É muito divertido... na Escola da Ponte, que visitei em Portugal, as crianças, tão logo aprendam a ler, aprendem a consultar o dicionário). E há os moinhos movidos pela força da água, que são os que eram comuns no Brasil. O moinho é uma melhoria do pilão. Ele mói os grãos fazendo com que eles passem por baixo de uma pedra redonda, muito pesada, chamada “mó“, que vai girando e moendo. Daí o nome dos últimos dentes da oficina da boca serem “molares“: são as mós, os moinhos da boca, que moem as coisas duras. Milho maduro, só cavalo come. Moído vira fubá. Bolo de fubá, polentinha frita, que delícia!

O dente da Camila caiu. Que felicidade! Lembro-me de quando meu primeiro dente caiu. Primeiro ele ficou mole. Com o dedo, eu o fazia ir para um lado e para outro. Isso me dava aflição. Os grandes me ensinaram o truque: amarrar uma linha no dente e puxar com força. Amarrei a linha mas faltava-me coragem. A linha ficou pendurada, saindo pela boca. De vez em quando dava um puxãozinho. Até que, de repente, peguei a linha e puxei forte. O dente saiu. Ganhei uma pratinha de dois mil réis.

Fiquei feliz quando meu dente caiu porque ele me fez sofrer muito. Dor-de-dente. Doía tanto que eu tinha inveja das galinhas, por não terem dente. Sofri porque, naquele tempo, a gente não fazia como se faz hoje, escovar os dentes pela manhã, à noite e após cada refeição, com pasta e usando fio dental. A gente não sabia que era preciso cuidar. E nem sabia como cuidar. Chupava bala, comia rapadura, chupava cana e só escovava de manhã e à noite, quando escovava. Os pobres mesmo, não escovavam nunca. Sofriam dor-de-dente e só pensavam em ir ao dentista para arrancar o dente. Dentista era ... Tiradentes... Desejavam a felicidade galinácea de não terem dentes. Lá havia um homem pobre, sem um dente sequer: o Sapucaia. Queria ter dentes mas não tinha dinheiro para ir ao dentista e fazer dentadura. Uns malvados disseram a ele que comer pimenta diariamente, daquelas vermelhas, fazia nascer dente. Diariamente ele comia colheradas de pimenta. O Sapucaia morreu sem um só dente com a boca quente...

Quando caiu o meu dente ficou um buraco na frente...

Os grandes riam de mim. Diziam que eu tinha uma porteira aberta na boca. Eu nem ligava. Estava feliz por meu dente ter caído. Ficava passando a ponta da língua no buraco, para ter certeza de que ele, o buraco, estava lá. Eu sabia que um outro iria nascer. Mas os grandes, que riam de mim, com seus dentes esburacados, tinham um destino parecido com o do Sapucaia. Se não quisessem comer pimenta o remédio era botar dentadura, que se tirava da boca quando se ia dormir. O pior era que, perdidos os dentes, estavam também perdidos os beijos...


DICAS:

Peça que seu professor lhe explique esse milagre: que a árvore que está do lado de fora, com o apertar de um botão, se transforme em fotografia. Que coisa mais esquisita: fotografamos o tempo todo sem entender o que está acontecendo e sem ficar pasmos diante disso!

Pegue um mapa. Veja o espaço entre o Brasil e a Europa. Na Europa, Portugal. Em Portugal, Braga. Perto de Braga, se o seu mapa for bom, um lugarzinho bem pequeno: Vila das Aves. Nome lindo! Foi lá que eu fui...

Saiu o livro que eu tanto esperava! Foi lançado em Portugal. Acaba de ser lançado aqui. Sobre a Escola da Ponte: A escola com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir. Pela editora Papirus. Ficou lindo. Parabéns e obrigado à maravilhosa equipe da Papirus. (Correio Popular, Caderno C, 06/05/2001.)