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Minhas
Netas:
Um dia, faz tempo, eu levei vocês a passear na horta da
minha casa, lá na roça onde eu vivia. Vocês não
sabem o que é roça. Roça é um lugar longe da cidade,
onde os homens vivem para a terra. Eles aram, semeiam,
plantam, capinam, colhem... Era na roça que eu morava
quando era pequeno.
Na roça a horta era muito importante. Na cidade, quando
a gente está com fome, basta ir até a geladeira. Lá
estão guardadas e conservadas as coisas para serem
comidas. Se a geladeira está vazia, é só ir ao
supermercado. Na roça não havia nem geladeira e nem
supermercado. As coisas para serem comidas cresciam na
horta. E lá estávamos nós, passeando entre abóboras,
abobrinhas, xuxus, inhames, quiabos, mandiocas, jilós,
batatas doce, batatas roxas, batatas comuns, pés de
couve, ora-pro-nobis, almeirão, tomatinhos silvestres,
alhos, cebolas, vagem, milho... Tudo pra se comer.
Mas existe um longo caminho a ser percorrido da horta até
a boca. Veja os bichos. Para eles não existe caminho
algum a ser percorrido. Para os bichos as coisas que
crescem na horta são o prato de comida, do jeito como
crescem. Eles comem ali mesmo, sem maiores complicações.
As vacas abocanham pés inteiros de couve. Diante do pé
de ora-pro-nobis elas param porque suas folhas são
defendidas por espinhos afiados. Mas os cabritos não
respeitam nem mesmo os espinhos: eles comem tudo. Os
cavalos se deleitam com as espigas de milho maduro que
mastigam com a espiga seca. Os porcos enfiam os dentes
nas abobrinhas de casca macia e nas abóboras de casca
dura. De noite vêm os tatus, notáveis por suas unham
que fazem deles exímios cavadores de buracos e tocas. Tão
extraordinários eles são que até puseram o nome de
“tatuzão“ numa máquina enorme que foi usada para
fazer os túneis do metrô. Os tatus cheiram a terra,
identificam o lugar onde se encontram enterrados batatas
e outros tubérculos, cavam com suas unhas duras e se
banqueteam... (Tubérculo: vocês sabem o que é tubérculo?
Não? Mas vocês sabem o que é dicionário. A palavra
“tubérculo“ está lá no dicionário, no lugar
exato, determinado pela ordem alfabética. É muito
divertido consultar os dicionários. Há um jogo que se
faz com palavras difíceis, de sentido desconhecido.
Pena: esqueci o nome do jogo! É assim: o líder sorteia
um cartão no qual está escrita uma dessas palavras difíceis.
Os participantes, então, têm de “inventar“ um
sentido para elas. Se você quiser brincar e não tiver
o jogo, um dicionário serve. É só procurar uma
palavra cujo significado ninguém sabe...). E as lebres,
que saem à procura de comida logo depois do anoitecer.
Os passarinhos e insetos se banqueteam com o resto...
Imagine que você está na horta e com fome. O que é
que você comeria ali mesmo, tirando diretamente da
natureza, como fazem os bichos? Os tomatinhos, sim.
Redondos, vermelhos, azedinhos. Que mais? Milho?
Mandioca? Abóbora? Quiabo? Beringela? Xuxu? Jiló? Não.
Não seria possível comer essas coisas. Duras demais.
Sem gosto. O caminho entre as coisas que crescem na
horta e a boca dos bichos é curto. Direto. Mas o
caminho entre as coisas que crescem na horta e a nossa
boca é longo, indireto, passa por vários lugares
intermediários.
Veja o caso do milho. Milho maduro cru é muito duro, só
podem com ele os dentes dos cavalos e os bicos das
galinhas. Se eu tentar mastigar os grãos de milho
maduro meus dentes vão quebrar. Não tenho a menor idéia
de como foi que os homens de dentes e mandíbulas fracas
descobriram que seria possível transformar milho duro
em comida se os grãos fossem esmigalhados. A primeira máquina
de esmigalhar grãos de milho deve ter sido uma pedra
grande onde se colocavam os grãos de milho, e uma pedra
menor, arredondada, que era usada como martelo. Centenas
ou milhares de anos se passaram até que os pilões
foram inventados. Um pilão é um tronco de árvore com
um oco fundo onde se colocam os grãos e um pau roliço
que é usado para esmigalhar os grãos. O homem que
inventou o pilão era muito inteligente. Ele precisou
pensar antes de fazer o pilão. Antes que o pilão
existisse como objeto ele já existia na cabeça daquele
homem, como pensamento. Sem ter ido à escola ele sabia
e aplicava uma lei de física que se ensina na escola
– embora os alunos nem sempre a entendam. Essa lei diz
que “força = massa x aceleração“. O braço do pilão,
colocado sobre os grãos, dentro do oco, não esmigalha
os grãos. É preciso que alguém levante o braço de
madeira e o bata com força nos grãos que estão dentro
do oco. É essa mesma lei que explica por que a picareta
cava a terra, o martelo prega o prego, o machado corta a
árvore. Aí, depois de milhares de anos, um outro homem
pensou que seria possível substituir o braço pela força
da água. E assim se inventou o monjolo. Um monjolo é
um pilão movido a água. Inventado o monjolo o homem
podia descansar, enquanto aquela máquina trabalhava
para ele.
Mário Quintana, um delicioso poeta gaúcho, brincou
dizendo que todas as invenções são fruto da preguiça.
Peça ao seu professor de ciências para lhe explicar
essa lei. É um engano pensar que ciência é coisa
moderna que só se faz em laboratórios. Para se fazer
ciência duas coisas apenas são necessárias: olhos e
inteligência. Laboratórios não substituem a inteligência.
Mas se descobriu que melhor que pancadas para triturar
os grãos era ralar os grãos. Como ralar os grãos
duros? Uma pedra embaixo. Em cima dela, os grãos. Sobre
os grãos, uma pedra redonda que devia girar, girar. A
princípio era uma pessoa que fazia a pedra girar.
Depois os homens aprenderam a usar a força da água
para fazer a pedra girar. Mas, para se usar a força da
água há de haver cachoeiras. Os homens que moravam em
lugares onde não havia cachoeiras pensaram, então, que
a força da água poderia ser substituída pela força
do vento. Essa pedra que a água ou o vento fazem girar
tem o nome de “mó“. Ainda hoje mós podem ser
vistas como enfeites de jardins, em sítios do interior.
E a máquina que faz girar a mó se chama “moinho“.
Você deve se lembrar dos moinhos de vento da Holanda e
dos moinhos de vento que D. Quixote atacou, pensando que
fossem gigantes!
Finalmente, depois de todo esse trabalho, temos o grão
duro do milho transformado em farinha. Orgulhoso, o
moleiro (é assim que era chamado o dono do moinho) toma
o produto da sua moderníssima máquina e leva-o para
sua mulher. Ela queria tanto fazer um bolo! Ela vai
ficar feliz! Mas ao examinar a farinha ela fica infeliz.
A farinha está cheia de pedaços de grãos e mesmo grãos
inteiros que escaparam da ação da mó. Com essa
farinha ela não vai poder fazer o bolo delicioso que
havia imaginado! E aí, para evitar a enorme trabalheira
de ir separando os grãos, um a um, manualmente, alguém
pensou uma peneira. Com uma peneira na mão a mulher
sorri. Derrama nela a farinha, roda a peneira num
sentido e no outro, a farinha não segue o movimento da
peneira, vai ficando para trás, e nesse escorregar para
trás a farinha vai passando pelos buracos da peneira e
caindo numa bacia. Os fragmentos e grãos de milho
indesejáveis não passam e ficam dentro da peneira,
ficando assim separados da farinha fina. Por que a
farinha não segue o movimento da peneira e vai ficando
para trás? Quem inventou a peneira já sabia que era
assim que acontecia. Milhares de anos depois os
cientistas descobriram o que o inventor da peneira já
sabia, e deram a isso o nome de “lei da inércia“.
Quando os passageiros de pé, num ônibus, são jogados
para trás, está acontecendo com eles a mesma coisa que
acontece com a farinha na peneira...
Outro dia eu conto mais...
APERITIVOS
1. “Mais valem dois marimbondos voando que um na mão“.
Sabedoria do Almanaque do Aluá (sape@ax.apc.org)
2. Muitos países, mais previdentes e inteligentes que o
nosso, já estão fazendo uso de moinhos para produzir
energia elétrica.
3. Acho Bom! O Centro Corsini está criando um espaço
dedicado exclusivamente a crianças e adolescentes que
sejam vítimas diretas ou indiretas da AIDS. Espaço
educacional, cujo objetivo será ajudar essas crianças
e adolescentes a viver bem e viver com alegria.
Funcionará num galpão – que deverá ser reformado,
para ficar bonito, funcional, com cores vivas e jardins!
As crianças e os adolescentes pedem doações!
Materiais de construção, livros, brinquedos, materiais
escolares, mão-de-obra, trabalho físico. Informações:
19 – 32566344.
4. Acho Bom! Voltaram, de Portugal, o Laerte, a Valéria
e a Márcia, do “Teatro do Grande Urso Navegante“.
Ademar Ferreira dos Santos, diretor do Centro de Formação
Camilo Castelo Branco, convidou-os para uma tournée
por escolas de Portugal, para produzir o espetáculo
“A Pipa e a Flor“. Levaram “A Pipa e a Flor“ a
55 escolas e foram aplaudidos, de pé, em um congresso
internacional de teatro. No Brasil as coisas têm sido
mais difíceis. O Laerte tentou interessar a prefeitura
de Campinas pelo espetáculo. Vendo que o espetáculo é
anunciado “Para Todas as Idades“, uma funcionária
lhe perguntou: “Que idades?“ “De 1 a 99 anos“,
respondeu o Laerte. Ela retrucou, sabida e categórica:
“Isso não existe!“ Pois eu digo que existe. A peça
estará sendo levada nos dias 11, 12, 18 e 19 de agosto,
sábado e domingo, às 16 horas, no auditório da Fundação
Síndrome de Down, Barão Geraldo (Rua José Antônio
Machado 430, perto do terminal de ônibus). Entrada
franca para crianças até 05 anos. Estudantes com
carteirinha: R$5.00. Adultos: R$10,00. Leve uma criança.
E/ou só a criança que mora em você. Ela vai gostar!
Haverá alguma diferença entre as escolas de Campinas e
as escolas de Portugal?
(Correio Popular, Caderno C, 05/08/2001.)

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