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O VELHO QUE ACORDOU MENINO Saiu publicado pela editora Planeta a primeira parte das minhas memórias, memórias de infância, com o título O Velho que acordou menino. Expliquei na orelha do livro: “São estórias da minha infância, em Minas Gerais, estórias muito antigas... Muitas delas eu não vivi. Tornaram-se memórias minhas porque as ouvi da boca de outros. Por que haveria alguém de se interessar pelas estórias que um velho ( detesto a palavra “idoso”...) conta sobre a sua infância? Porque, embora não saibamos, todos andamos pelos mesmos lugares. Bernardo Soares escreveu que arte é comunicar aos outros nossa identidade íntima com eles. No fundo somos idênticos. É o que torna possível a comunicação, a literatura. Alguém disse que a palavra “queijo” só tem sentido para alguém que já comeu queijo. Não é possível comunicar o gosto e o cheiro do queijo a quem nunca comeu queijo. A literatura é possível porque todos já comemos queijo. Todas as nossas infâncias são variações sobre os mesmos temas. As memórias contadas fazem ressoar, no leitor, o seu próprio passado adormecido. Assim, não se trata de um encontro com as memórias de um outro, diferentes das minhas. Trata-se de um reencontro com o nosso próprio passado. Se isso não acontecesse o texto escrito seria um texto morto. Murilo Mendes nos lembra que todos os textos são feitos com pedaços do autor. Acho que isso é verdadeiro dessas minhas memórias. Sobre elas posso dizer “Isso é o meu sangue, isso é o meu corpo”. Peço, portanto, aos meus leitores, que me leiam antropofagicamente... É a antropofagia que nos torna iguais. É a antropofagia que cria a comunhão.” Abaixo vão umas amostrinhas: PITIU
José Estanislau de Castro Vinhas, esse era o seu nome. Seu magnífico sobrenome já se encontrava nos almanaques que citei, prova de que ele era dorense de muitas gerações. Mas ninguém o conhecia pelo nome. Ele era o Pitiu. Rosto de profeta, longa barba grisalha, chapéu, gravata, paletó de três botões, todos abotoados, botas, esporas e um guarda-chuva. Aparecia montado na sua égua de cheiro bom. Era de casa. Chegava na casa da tia América – ah! Como eu gostaria que a tia América tivesse sido minha avó! Ela era mansa e gostava de crianças! Sua insuperável habilidade culinária eram os pasteis. Quando ela fazia pastéis, bacias cheias, a notícia corria rápida entre os primos: “Tia Merca ta dano pastel!” O Pitiu chegava, não batia na porta, puxava o barbante, e entrava pela casa. De verdade, ele era um da casa. Você não entendeu o barbante que se puxava? Explico. Não se tinha medo. Todo mundo era bem-vindo. As casas estavam abertas a quem quisesse. Em algumas casas a confiança era tanta que para facilitar as coisas amarrava-se um barbante no trinco da fechadura, no lado de dentro, que era passado por um orifíci na porta e ficava pendente do lado de fora. Não era preciso bater. Era só puxar o barbante e entrar gritando “Ô de casa! Ô de casa!” Havia um ar de mistério em torno do Pitiu. Morava sozinho na fazenda que herdara dos antepassados. Os detalhes da sua vida cotidiana eram ignorados. Relatava-se que uma vez foi visto de noite, assentado no pasto, encostado num cupim, lendo um jornal que iluminava com uma vela. Pode ser verdade, pode não ser. O povo inventa muito. Mas algo aconteceu que rompeu a placidez e monotonia da vida do Pitiu. Os viajantes que chegavam de jardineira traziam notícias assombrosas. A revolução estava em marcha. Tinha até aviões jogando bombas nas cidades. Os paulistas, armados até os dentes, se aproximavam com toda a sua malvadeza e braveza. Não se sabia aquilo de que seriam capazes! O medo tomou conta da cidade. Muita gente se preparou para fugir para os matos. Foi então que dentro daquele homem pacato, o Pitiu, despertou um general adormecido. Dirigiu-se ao posto telefônico e sem pedir licença e sem pedir que a telefonista fizesse uma ligação, agarrou o telefone e começou a berrar ordens: “Aqui é José Estanislau de Castro Vinhas. Dinamitem as pontes. Repito: dinamitem as pontes. É uma ordem.” E desligou o telefone, ante os olhos espantados da telefonista. Digam o que disserem: o fato é que funcionou: o Pitiu deu ordens a uma pessoa que não existia para que dinamitasse as pontes com uma dinamite que não existia e as tropas paulistas que não existiam foram impedidas de chegar a Boa Esperança. Passado esse episódio heróico José Estanislau de Castro Vinhas voltou a ser o Pitiu que sempre fora. Não houve outras revoluções que exigissem a sua ação.
MARILU
Ai, Marilu, aquele sorriso vermelho de baton, olhar lânguido, colar de pérolas, cabelo a la garçonne, seios opulentos, espremidos prá cima, querendo saltar pelo decote da blusa, mostrando o estreito vale de carne macia que levava aos picos do de-leite, bem disse o pensador francês que erótico é o pedacinho de carne que aparece no decote, porque não mostra mas sugere, no mundo das sugestões tudo é possível, era ver pra ter vontade de enfiar o dedo, não se sabe quantos homens sonharam entrar naquele vale espremido de delícias, os homens, os adolescentes, os velhos, todos ficavam doidos, pensavam indecências, viravam a cabeça quando ela passava, muito certa a expressão que diz “está com a cabeça virada”, mas ela era mulher honesta, casada com médico recém mudado para a cidade. Mais imaginosos e práticos que os homens foram os adolescentes que realizaram seus sonhos pelo poder da poesia. As metonímias, ah, as metonímias... Acontecia que Da. Marilu e seu grave marido, ao invés do café da tarde, pão de queijo, biscoito, bolo de fubá, chupavam laranjas, muitas laranjas, bom para os rins, diurético. Como não havia coleta de lixo as chupas de laranja eram jogadas no terreno vazio ao lado, cheio de árvores, procedimento ecologicamene correto, sem que nem o doutor e nem dona Marilu sua mulher pudessem imaginar a poesia que mora numa chupa de laranja, bem disse o Manoel de Barros que “tudo o que se pode medir com cuspe em distância é matéria para poesia”. Só que, no presente caso, não era a distância do cuspe, era a distância de outra coisa... Diferentes de todas as demais, que eram bagaço nojento, babujadas, aquelas chupas haviam sido chupadas por Da. Marilu, tinham um pouco da sua boca, um pouco da sua saliva, não se via mas estava lá, e a meninada pulava o muro e ia fazer amor com as chupas de laranja chupadas por Da. Marilu, sem pensar que entre elas poderia haver fios do bigode do marido dela, e as chupas de laranja, pela magia das metonímias, se transformavam em partes do corpo da Da. Marilu, boca, seios, umbigo, o perfumado jardim secreto escondido entre as pernas, e já os jovens corpos eram possuídos pelo frenesi do amor e não se pode fazer conta de quantos milhões de espermatozóides foram ali heideggerianamente “lançados” nesse mundo... Consta que nasceu naquele lugar um canteiro de margaridas sem que ninguém as tivesse plantado
OS CENTAUROS
O barulho de ferro batendo nas pedras me acordava de madrugada. O ruído das ferraduras se misturava com o relinchar dos cavalos. Eu me levantava e abria a única bandeira da janela. Só um pouquinho porque tinha medo de que me vissem. Eram seres misteriosos, misturas de homens e cavalos que, na bruma da manhã me faziam imaginar centauros. Das ventas dos cavalos saia fumaça quando relinchavam. Como se fossem dragões. Do ângulo pelo qual os observava através da fresta da janela não me era possível ver os rostos dos soldados. Via-os pelas costas, inumeráveis, iam vagarosamente, a passo. Um exército inteiro de soldados dotados de força descomunal, a caminho de uma batalha. Que iam para uma batalha era certo: os fuzis pendentes dos coldres, ao lado direito das selas, esperavam a hora do fogo. Passado o último centauro eu fechava a janela, voltava para a cama e ficava a imaginar a batalha, até dormir.
ZÉ SAPÉ
Quando se sabe pouco se imagina muito. O Riobaldo sabia disso advertia: “O senhor deve ficar prevenido: esse povo diverte por demais com a baboseira, dum traque de jumento formam tufão de ventania. Por gosto de rebuliço. Querem-porque-querem inventar maravilhas glorionas, depois eles mesmos acabam temendo e crendo. Parece que todo o mundo carece disso. Eu acho...”. Na minha roça, tão longe do sertão do Riobaldo, era assim mesmo. O que confirma o dito: todo mundo carece disso... Os homens se reuniam ao fim do dia pra contar causos. Não era pra saber. Era pra imaginar. Brincadeira que se levava a sério. As coisas inventadas têm mais força que as não inventadas. Todo mundo sabia que o contador de causos estava mentindo. Mas seria falta de educação dizer a ele que as coisas que ele contava eram invenção. Assim, todo mundo fazia de contas que ele não estava mentindo. Tinha de fazer de contas senão não tinha graça, não dava medo, não dava assombro. Depois de um causo portentoso a coisa certa a se dizer era “Mas isso não é nada...” Aí aquele que disse começava a contar as suas maravilhas inventadas. Ninguém se interessava por fatos verdadeiros. Fato verdadeiro não dá espanto. O espanto mora no inventado. Os fatos verdadeiros só servem para neles se amarrar a fantasia, feito prego pra se pendurar um quadro. O prego ninguém vê. Os homens da cidade diziam que eram mentiras. Pois eu digo que ali estava o nascedouro do realismo fantástico. Bem diz o Manoel de Barros que o que não existe é mais bonito do que o que existe. Dentre todos os contadores de “causos” lá na roça o mais imaginoso era o Zé Sapé. Foi assim que, numa roda, depois de um ”causo” ele disse “mas isso não é nada” e passou a relatar o que lhe acontecera. Relatou, com a gravidade que convém a uma pessoa que só diz verdades. Era depois do almoço. O sol estava no alto do céu, queimando. Deu-lhe uma dor de barriga. Procurou um lugar adequado para obrar. Não podia ter mato alto, porque o mato alto espeta e faz cócegas no traseiro. E tinha de agachar na direção da subida do morro, pra obra não escorrer na direção do pé. Apertado pela necessidade, nem olhou direito. Desafivelou o cinto, baixou as calças, agachou e desapertou-se. Terminada a obra, feita a limpeza com um chumaço de capim, levantou as calças, apertou o cinturão... Aí ele explicou: “Todo mundo gosta de vê o que feiz. Eu virei pra vê. E num é que eu tinha obrado bem na cabeça de uma urutu que tava durmino, aquentano o sor di meio-dia? E a danada num acordâ...” Acho que se o Zé Sapé tivesse contado o seu “causo” aos autores bíblicos, o texto sagrado seria diferente. Lá, onde se diz que a mulher pisaria na cabeça da serpente e a serpente lhe morderia o calcanhar estaria escrito: “E o homem obrará na cabeça da urutu e a urutu não morderá o seu traseiro”...
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