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Caros amigos: aqui vão algumas notícias.

Uma visitante curiosa da minha casa observou que na minha casa falta um cômodo importantíssimo: um banheiro. E ela está absolutamente certa. Estou tomando providências para corrigir essa falta. Pois é certo que o banheiro, ao lado da cozinha, é um dos cômodos mais importantes da casa. Até já escrevi sobre “A importância cultural das privadas”. E no livro que escrevi para as minhas netas Quando eu era menino, em que conto a minha vida na roça, demoro-me explicando como se realizavam as funções fisiológicas, a casinha e os penicos. Estou escrevendo um livro que ainda não tem nome. E o desenvolvimento de uma idéia com que estou brincando há muito tempo: fazer um currículo baseado na casa, a casa como programa. E, é claro, teremos de visitar o banheiro, lugar que se presta a grandes lições de ecologia. O banheiro tem um vaso mágico: faz-se cocô dentro dele, aperta-se um botão, e o cocô desaparece. Há até um versinho que aparecia escrito nas paredes dos banheiros públicos: “ Puxei a valvulinha da latrina, o cocô estremeceu. Deu três passinhos de valsa, deu adeus e desceu...” Aí a gente pergunta à criança: “O que aconteceu com o cocô? Para onde foi ele?” Ocasião excelente para explicar Lavoisier, “no universo nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Então, o cocô  desapareceu da vista mas continua a existir noutro lugar. Qual? Um rio. Calculei que cada pessoa faz, em média, 200 gramas de  cocô por dia, uns mais, outros menos.

Agora entram a demografia e a matemática. Calcule. 1.000.000 de habitantes numa cidade fazem 200.000.000 de gramas de cocô. O que se segue é um exercício de transformação de gramas em quilos. Depois, de quilos em toneladas. Imagine a região metropolitana de São Paulo, 20.000.000 de habitantes, todas fazendo 200 gramas de cocô por dia. Pobre rio Tietê. Pobre rio Pinheiros... Multiplique o resultado por 365 para ver quantas toneladas de cocô são jogadas diáriamente nos rio. Faça o mesmo com a população mundial... Uma casa tem todo o material didático necessário para uma boa aprendizagem, aprendizagem que não se esquece mais...

Outros estão curiosos sobre como eu era antes de ser careca. E por falar em careca, sabiam que, segundo a Bíblia, Deus ama os carecas mais que os cabeludos? Um dia desses eu explico...

Assim, para matar a curioside, o Christin se prontificou a abrir uma sala na minha casa com o nome de “Album de Retratos”.

Comecei a escrever as minhas memórias. Memória é uma palavra enganosa. Memória é máquina fotográfica. A coisa tal como foi. Bachelard diz que crianças não têm memórias. Só fantasias. Acho que os grande também. Fantasia é uma tela de Monet: o que foi, transfigurado pela imaginação. Fantasia é obra de arte. Dentro de cada um mora um artista. Mas mesmo os fotógrafos sabem que uma foto sem fantasia não serve para nada. Estou soltando a fantasia a propósito de algumas pequenas evidências do passado, que não sei se são verdadeiras ou não. Vai um fragmento, sobre o costume de se colocar os retratos dos mortos nas salas de visita:

“O normal era que os mortos fossem transferidos para a galeria dos antepassados falecidos, na sala de visitas. Os mortos, do alto dos pregos em que estavam pendurados, vigiavam os vivos através do vidro dos seus ataúdes ovais, com olhos permanentemente abertos. Eram fotografias em preto e branco. Mas logo chegou o progresso e os fotógrafos passaram a maquiar os retratos com tons rosa, para que os mortos parecessem corados. Havia mesmo lugares em que a prova suprema de amor para com o falecido era ter o retrato do defunto, no caixão mortuário. Levei um susto a primeira vez que vi. Só fiquei pensando. Pensei que eu não gostaria de ter o retrato da pessoa amada no caixão, mãos cruzadas no peito, olhos fechados e algodão no nariz. Aí meu pensamento saltou para o humor. Fiquei intrigado. Como é que tiraram o retrato do morto? Não havia as máquinas fotográficas de hoje, pequenas e fáceis de manejar. Tirar retrato era um evento raro que requeria uma complicada parafernália, máquinas enormes e desajeitadas sobre um tripé, o fotógrafo com a cabeça enfiada dentro de um saco de pano negro, ligado à câmera, acho que para ajustar o foco. Ai me pus a imaginar a cena. Não era possível pendurar a máquina fotográfica no teto para fotografar o morto, de cima para baixo, deitado no caixão. O único jeito era por o defunto em pé. Imaginei dois homens fortes pegando o caixão pela cabeça e o levantando com cuidado, para que o defunto, duro, não caísse para frente. O fotógrafo preparava a sua máquina e posso imaginar que algum deles, levado pelo hábito, dissesse na hora “h”: “Por favor, não se mexa”. O defunto não se mexia e o fotógrafo apertava o botão e, depois dos banhos químicos sabidos, o negativo virava quadro emoldurado que era pregado na sala de visitas, para ser contemplado por todos os visitantes. Aquelas casas eram um velório permanente. (Relendo esse texto em que transformei uma coisa triste numa coisa ridícula, assustei-me com o meu preconceito. Eu me ria do afeto transformado pelo  mau gosto. Mas,  a máscara mortuária de Beethoven? Eu bem que gostaria de tê-la na minha sala? E a tela que Monet que pintou de sua mulher Camile, na urna funerária?) Não acredito que fosse por razões de amor. Costume, talvez. Como o luto. As mulheres andavam de preto e os homens punham uma tarja preta na lapela: faziam isso não por tristeza mas porque, se não o fizessem os outros iriam falar. Uma viúva de vestido colorido não podia ser mulher de respeito. O mais provável, eu acho, é que eram razões de medo. Era preciso fechar os mortos nos retratos para que eles não viessem  assombrar a casa durante a noite...”

Livros recém lançados: Dogmatismo e Tolerância, pelas Edições Loyola. Republicação de um livro antigo que estava fora dos catálogos.

A maçã e outros sabores, pela PAPIRUS.