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Queridos amigos: Bem-vindos à minha casa. No próximo dia 15 eu estarei “desfazendo” 71 anos de vida. Nunca imaginei que viveria tanto! Lembro-me de quando meu pai completou 60 anos. Eu, jovem, olhava para ele com compaixão pensando: “ O fim está próximo...” Mas eu, aos 71 anos, ainda me sinto meio como um adolescente. Gosto de viver. Não tenho medo de morrer. Tenho é tristeza. Lembro-me de uma velhinha, lá em Minas. Já havia ultrapassado os 90. Estava cega, na cama. Sua filha lhe lia a Bíblia – coisa que ela muito amava. Mas, de repente, ela fez um gesto, interrompeu a leitura e disse: “Filha, sei que a hora está chegando. Que pena! A vida é tão boa!” Não quero presentes. Tenho muito mais do que necessito. Estou fazendo um esforço para me livrar das coisas que tenho. Se vocês quiserem me dar um presente, dêem uma contribuição a alguma instituição que se dedica às crianças. Ou plantem uma árvore. Ou leiam um poema. Os pássaros já me deram o melhor presente. Veja esse texto de Bachelard: “ Ergo suavemente um galho; um pássaro está ali chocando os ovos. Não levanta vôo. Somente estremece um pouco. Tremo por fazê-lo tremer. Tenho medo que o pássaro que choca saiba que sou um homem, o ser que deixou de ter a confiança dos pássaros. Fico imóvel Lentamente se acalma – imagino eu! – o medo do pássaro e o meu medo de causar medo. Respiro melhor. Deixo o galho voltar ao seu lugar. Voltarei amanhã. Hoje, trago comigo uma alegria: os pássaros fizeram um ninho no meu jardim.” O mesmo aconteceu comigo. Um casal de sabiás fez um ninho num vaso de avenca à entrada do meu escritório. Fico comovido vendo os olhos da fêmea assentada sobre seus filhotes. Nasceram três. E só a mãe chegar para que eles abram seus bicos e gritem pedindo comida. Nada sabem sobre a vida. Mas já sabem que é preciso comer. Olhai as aves dos céus... Vai, como presente de aniversário, esse poeminha do Alberto Caeiro: “ Sejamos simples e calmos como os regatos e as árvores, e Deus amar-nos-á fazendo de nós belos como as árvores e os regatos, e dar-nos-á verdor na sua primavera, e um rio aonde ir ter quando acabemos...” Se me enviarem e-mails eu ficarei feliz. Mas não prometo responder. Não dou conta. A vida é curta. A arte é longa. Um abraço do Rubem Alves

Estou com o corpo cheio de pequenas feridinhas, pontos vermelhos. Nada grave. Marcas de micuins. Micuins são carrapatos tão pequenos que são praticamente invisíveis. Numa caminhada pelos campos de Pocinhos devo ter esbarrado num cacho dos ditos. Eles se espalham invisivelmente e a gente só os vai sentir depois de eles estarem agarrados na pele. Coceira. Olhando para as feridinhas pensei que foi isso que aconteceu com o Busch. Ele não sabia que o deserto era um ninho de micuins. Agora ele e os Estados Unidos estão sofrendo dessa coceira que não tem fim.

A propósito dos sabiás lembrei-me do que Manoel de Barros escreveu sobre eles: “A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir os seus encantos. A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá. Quem acumular muita informação perde o condão de adivinhar: divinare. Os sabiás divinam. ( Manoel de Barros, Livro sobre nada )

Para celebrar o aniversário do Bairro Escola Aprendiz ( link), a pedido do Gilberto Dimenstein eu escrevi, com a ajuda de um punhado de conspiradores, o livro Aprendiz de Mim – Um bairro que virou escola. Vão transcritas a última capa do livro, escrita pelo Gilberto, e a primeira orelha, escrita por mim. Esse projeto bagunça as idéias tradicionais do que é uma escola. Ao invés de uma escola em um lugar limitado de um bairro, é o bairro inteiro que vai se transformando em escola. Deveria ser lido por educadores, alunos e pais. ( Transcrever a última capa e a primeira orelha). ( Papirus Editora )

Os três reis: Acaba de sair essa estória, com lindas ilustrações das bordadeiras Antônia Zulma Diniz, Ângela, Marilu, Martha e Sávia, sobre desenhos de Demóstenes. Sei que você já deve ter visto muitos bordados. Esqueça os bordados que você já viu. Os bordados dessas mulheres, mãe e filhas, são diferentes de tudo o que eu vi em minha vida. Já ilustraram livros do Ziraldo, do Carlos Brandão, do Manoel de Barros e meus. E agora, de novo! Livro pra crianças, livro pra adultos. Edições Loyola.