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| Nossas verdades são só palpites |
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O
Luiz Carlos Lisboa, eu já era amigo dele antes de
conhecê-lo pessoalmente. Eu li, faz muitos anos, o seu
livro Nova Era. Li e percebi que, sem nunca nos
termos visto, éramos amigos. Quis comprar outros
exemplares para dar de presente aos meus filhos. Mas a
edição estava esgotada. O remédio foi fazer cópias
xerox. Tão sábio e tão poético que o li com o meu
grupo de poesia. O que encanta nos seus textos é, em
primeiro lugar, a sabedoria mansa. Depois, os textos são
curtos, menos que uma página. Finalmente, a música da
sua escritura. Kierkegaard dizia que a verdade mora não
na letra do texto mas na música que existe nos interstícios
das palavras. Fernando Pessoa também sabia disso.
Escreveu a um poeta (talvez ele mesmo ): “... e a
melodia que não havia se bem me lembro faz-me
chorar...” Na folha de papel estavam as palavras do
poema. Mas não eram elas que faziam chorar. O que fazia
chorar não eram as palavras mas uma melodia que saia
das entrelinhas... Todos os terapeutas deveriam prestar
atenção nessa lição. Prestar menos atenção no que
a pessoa está falando e mais na música que ele não
sabe que está fazendo. Vou
transcrever dois textos que se encontram no seu livro O
som do silêncio, publicado pela VERUS: “Um
brinquedo, uma roupa, a pequena cama – os objetos que
cercam a vida de uma criança conservam a sua energia
quando ela se ausenta para ir à escola ou viajar. Há
naquelas coisas uma vibração que se percebe
no ar. Aqueles que amam costumam também imantar
tudo o que tocam, e assim deixam um rastro perfumado por
onde passam.” “Ah,
o desperdício de falar, quando há tanta coisa a ouvir
de quem não tem nada a dizer. Às vezes somos como o
grito de uma serraria, escondendo o solo
perfeito de um violino. Só é preciso prestar
atenção e ficar em silêncio, para escutar a música
que vem do mundo. Nela estão as respostas que
procuramos, e nela está a certeza de que todas as
perguntas são fúteis quando somos felizes.’ Que
lindo presente para uma pessoa querida! Quem dá um
livro como esse está dizendo: “Acredito
que você é uma pessoa inteligente e sensíve”. À
noite estivemos na FNAC, para conversar com quem
quisesse. Havia muita gente. Para começar, uma surpresa
que não estava no programa. Entrou no palco o grupo
“Serenata Brasileira”, em roupas dos anos vinte ou
trinta, não sei bem. Eles cantam os antigos sucessos
das tradicionais serenatas numa afinação absoluta. Eu
estava assentado à mesa, de frente para o público.
Tive dois prazeres: o da música e o dos rostos que eu
via Todos sorriam. Sorrisos diferentes. O sorriso dos
jovens era só sorriso. O sorriso dos velhos estava
misturado com saudade.
Teve gente que chorou. Eu, quase... Todo mundo ficou
triste quando a música acabou. A música tem um poder
de ligar as pessoas que as palavras não têm (exceto a
dos poetas). E nós três teríamos de falar porque, se
fôssemos cantar, sairia tudo desafinado, muito embora o
poeta tenha dito que no peito dos desafinados também
mora um coração... Como
cantar nós não sabemos, por causa da desafinação,
passamos a fazer o que sabemosr: pensar, conversar, rir.
Que os temas fossem dados pelas perguntas do público!
Ficou logo claro que todos estavam curiosos com o título
do livro do Leonardo, Novas fronteiras da igreja.
Especialmente porque, como se sabe, ele é um herege. Em
outros tempos ele já teria sido queimado num edificante
Auto de Fé, numa das fogueiras da Inquisição. Que ele
é herege não é difamação minha. Foi ele mesmo que
confessou publicamente, até com um certo sorriso...
Contou-nos de um jantar de homenagem que lhe ofereceram
Darci Ribeiro e Oscar Niemeyer, ambos ateus confessos,
para celebrá-lo como o primeiro herege brasileiro O
que é um herege? É uma pessoa que anda na direção
contrária. É alguém que diz o que foi proibido dizer.
O pecado dos hereges não é moral. Ninguém e herege
por ser um assassino ou fornicador. Esses são pecados
de que se pode arrepender, e que são resolvidos no
confessionário. O pecado dos hereges, ao contrário, não
é pecado de ação. É pecado de pensamento. E não há
formas de se arrepender daquilo que se pensa. Ele pensa
aquilo que é proibido pensar. Só há um jeito de curar
um herege: queimando-o na fogueira. Pois
o Leonardo, já há algum tempo, tem estado dizendo
coisas proibidas. Por elas foi levado ao Santo Ofício e
interrogado pelo guarda da fé, o Cardeal Ratzinger. O
Leonardo diz, brincando: “Tive a honra de me assentar na mesma cadeira em que se assentou
Galileu...” Galileu também foi herege por afirmar
uma coisa proibida, que a terra não era o centro do
universo. Ah! Como as religiões afirmam coisas
confusas! Felizmente se arrependem delas, passados
quinhentos anos... Outro herege famoso foi Jesus Cristo
que andava pela Palestina negando aquilo que sempre
tinha sido dito: “Ouvistes
o que foi dito aos antigos, eu, porém, vos digo... A
heresia do Leonardo tem a ver com aquilo que ele pensa
sobre a igreja. Para ele Jesus jamais imaginou uma
igreja hierárquica, burocrática, dotada de poder (
houve um período em que ela chegou a ter exércitos ) e
que pretende ser a única detentora da verdade, a
verdade inteira. Essa pretensão torna impossível o
ecumenismo oficial. Porque se uma instituição possui a
verdade toda, ela não precisa ouvir ninguém. Seria uma
perigosa perda de tempo. O pensamento do outro só pode
ser mentira. É o outro que tem de ouvi-la. Ela é
“mater et magistra” – mãe e mestra. Para o
Leonardo, ao contrário, a igreja é formada por todos
aqueles que sonham o mesmo sonho,
o sonho que está contido na poesia do Pai Nosso:
um mundo de fraternidade, sem misérias, sem vinganças,
sem violência. Perguntaram
ao Luiz Carlos Lisboa – que ama o Rio de Janeiro,
cidade mais linda não há – sobre essa estranha
coincidência: o Rio de Janeiro é uma das cidades mais
religiosas do Brasil e é a cidade mais violenta do
Brasil. Qual é a relação que existe entre religião e
violência? Ele lembrou que, na história do Ocidente,
as religiões sempre estiveram ligadas à violência. Os
maiores horrores já foram perpetrados por causa de
dogmas religiosos. Agora mesmo, para justificar a guerra
contra o Iraque, o presidente Bush declarou que
conversava com Cristo todas as manhãs. A loucura tem
fortes relações com a religião institucionalizada. Os
loucos pensam que suas idéias são as idéias de Deus.
Pensa-se que a violência criminal vai se resolver com a
violência policial. Mas onde se encontram as raízes da
violência? Elas não se encontram dentro de nós
mesmos? A violência só vai ser resolvida quando os
homens aprenderem a ser mansos. Mas isso exige uma
transformação espiritual. Era assim que pensavam Jesus
Cristo, São Francisco de Assis e Gandhi...
Foi
uma conversa gostosa, honesta, por vezes com um pouco de
pimenta, que era logo eliminada com o humor. O
que é necessário compreender é que ninguém tem a
verdade. Nós só damos palpites. No momento em que os
indivíduos compreenderem que suas verdades não passam
de palpites eles ficam mais tolerantes. E é gostoso
conversar mansamente, cada um ouvindo honestamente o que
os outros tem a dizer. (Correio Popular, Caderno C, 27/06/2004.)
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