Nós ainda trocamos os chinelos...



Abaixo está uma carta deliciosa da Dina. Minha vontade era publicá-la! Uma mulher de 86 anos com a leveza, o humor e a vontade de viver como a Dina merecia voar para envergonhar e ressuscitar os mais jovens! Mas não pude faze-lo, por razões que vocês compreenderão. Mas agora ela morreu. Ela e suas cartas estão livres, além de quaisquer punições. Enquanto viva ela me autorizou a publicar o que quisesse depois da sua morte.

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Rubem, sempre você, fazendo com que eu recorde, relembre o passado...

Você escreveu no Correio Popular no seu espaço, sobre o sexo dos idosos, você citou Davi com a jovem bonita para aquecê-lo. E ele, moita. Você se esqueceu de Salomão, que possuía trezentas concubinas no serralho (1), no Harem, que quer dizer: lugar proibido. E fora elas, ainda tinha as esposas que residiam no palácio. Será que ele podia com tanta mulher? Eram muitas, e ele precisava de homens para cuidá-las; ajudá-las no banho e no vestir. Mas Salomão mandava castrá-los, e daí, os eunucos, que quer dizer: castrados.

Então, vamos ao fatos, no começo citado. Uma estorinha vivida e presenciada por mim. Era o ano 47. Eu tinha que trabalhar muito para sustentar meus filhos, ajudar, porque o pai deles, não gostava de trabalhar em fábricas, era oleiro, e ganhava pouco.

Até quarta-feira, eu lavava roupas para fora. Passava-as a ferro de carvão. O resto da semana ia fazer limpeza nas casas, onde moravam ingleses e alemães. Trabalhava às sextas-feiras para uma inglesa, ela tinha oitenta anos, o marido 82. Ela se chamava Miss Carr e ele Mister Carr. O nome eu nunca perguntei, eram “Miss e “Mister”.

Ele ainda trabalhava na cidade, sempre muito bem vestido, estatura média, e ela também. Ele vinha almoçar, naquela pontualidade britânica, ½ dia.

Ela fazia o almoço. Eu limpava a casa e lavava a roupa, que ela passava sentadinha numa cadeira. Eu arrumava a mesa, guardanapos em argolas de prata e coisas que tais e sempre flores na mesa.

Ele chegava, tirava o paletó, e o colarinho sobressaliente duro qual papelão. Se lavava e os dois iam para a mesa. Depois eu tirava a mesa, isto é, o que havia em cima, servia o cafezinho, e quando ia levá-lo, ela estava sentada no colo d’ele, e ele a beijava no rosto e em seus cabelos, cabelos que ela os trazia sempre azulados e ficavam assim agarradinhos como se fossem dois jovens. Eu achava lindo, e me perguntava: Será? Ele ia para o trabalho e ela ficava no portão, ele se voltava e acenava-lhe com a mão, até virar a esquina.

E um dia de manhã, eu arrumando o quarto d’ele, cada um dormia no seu. Aí encontrei dois chinelos, mas um era o d’ela.

Eu lhe disse: Miss, aqui tem um chinelo seu e outro do mister. E ela, com aquela carinha engraçada e de quem fôra bonita me disse, no seu português arrevezado: “Nós ainda trocamos chinelos...”

Eu arregalei os olhos e sorri, e vi n’aquela fraze tão natural e tão bela, que o amor, entre aqueles que se amam de verdade, nunca morre. Eu fiquei feliz com a felicidade e o amor que irradiava no rosto d’aquela velhinha simpática. (21-5-2001). Dina.

Faça disto o que lhe aprouver.

Aí está Rubem, o meu comentário e a sinopse do seu escrito.

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28-05: Recebi visita de um membro “superior”, superior para mim é somente o Criador, determinando para mim de não escrever coisas que não competem com o regulamento interno. Se eu teimar, terei de me retirar daqui. Rubem querido, não é essa minha vontade, aqui somos castrados, não tenho vontade própria. Não tenho para onde ir...

Se publicar algo meu não mencione o meu nome. Porque aqui não se pode escrever para jornais. É proibido. Depois eu explico o bode que já deu. Ficarei incógnita.

05-06: Falando em ipês. Eu os amo, amarelos e roxos, porque branco e rosa, nunca os vi. Na casa da minha sobrinha que eu morava antes de vir aqui, havia um ipê. Dava flores amarelas; quando florescia, era aquela beleza espargindo ouro, pena que é de pouca duração. Mas minha sobrinha, tal e qual a mulher da vassoura, mandou cortá-lo. (...) Na rua Abolição, depois do jardim dos artistas, (que agora deve estar lindo, cheio de flores, árvores e uma infinidade de plantas) havia um e eu sempre ia com o Pedro para ver aquela maravilha que estava ainda começando... Tenho uma amiga, irmã de igreja, mora perto, nunca pergunto a ela do jardim, porque ela vae à igreja 2 vezes por dia... E para esses crentes não adianta falar em flores, árvores, ipês e outras coisas. Estão imbuídos na crença e se esquecem das coisas lindas que Deus nos oferece por intermédio das plantas, borboletas, abelhas e mamangavas, sugando o néctar das flores. Eles não vêm essas coisas. Estão fora do mundo, se arvoraram em celestiais e não terráqueos...

Quantas vezes já beijei árvores, minhas florinhas que agora já estão indo embora, eu a beijo todo dia e converso com elas, e a dama da noite que já deu flores, mas agora está descansando para uma outra florada.

09-06: Recebi sua carta e o livro que não foi bem recebido pela gerente (2). Aqui impera para mim a lei da censura. Desde que escrevi a carta do fogão e das vassouras de alecrim essa lei começou a vigorar só para mim. Cartas? Tenho de escrevê-las, não colar o envelope, dá-las abertas para o provedor ler e ver se pode enviar ao destinatário. Acho isso um absurdo. Estou sofrendo uma ditadura particular... Não tenho culpa se o Senhor me fez assim. Não passei do “be” “a” “bá”, mas Deus me faz ver e sentir as coisas...


[Obs: Eu, Rubem, falei que gostaria de publicar as cartas dela. Ela respondeu:]

“Só se for uma homenagem póstuma. Enquanto eu viver isso não será possível. Quando eu embarcar para paragens melhores – confio em Deus que elas existem – aí sim, porque serei inatingível. 15-06: Gosto dos meus bem-te-vis e dos pardais comilões. Quando não tem comida no recipiente onde eu coloco, eles chiam e alguns mais atrevidinhos vêm até a porta do meu quarto. Os bem-te-vis me chamam: Oi, Oi e a ajudante de cozinha me diz, seus namorados estão chamando... Eu vejo neles o dedo de Deus. Como disse Emily Dickinson, vale mais que uma missa... Meus 86 anos estão sendo idênticos aos da minha mãe. Ela era vaidosa e não se conformava com a velhice. Depois de muitas andanças e no vai e vem da vida eu fui aprender o ofício de cabelereira. Trabalhei num salão em Sto Amaro. Minha mãe, já bem velhinha vinha ficar comigo de vez em quando. Um dia em que lá foi disse-me. “Filha, grifa-me o cabelo. (Grifar, deixar crespo). Lavei-lhe a cabeça, secou no secador, em seguida puxei a cadeira de frente ao espelho e disse a ela: Mãe, sente-se aqui. Ela me olhou e disse: Bire-me a cadeira ao contrário. Eu perguntei-lhe: Por que? E me disse: Não quero me ber ao espelho. Não quero me ber belha...(3) E eu lhe fiz a vontade. Depois da permanente pronta penteei-a e lhe disse: Agora pode olhar no espelho porque a senhora ficou mais bonita. Ao que ela me respondeu: Pode ser que o cabelo ficou bem, mas a cara é a mesma. E não olhou no espelho...


1. Serralho: Era o Palácio do sultão, na Turquia; parte desse palácio habitado pelas mulheres do sultão; harém.

2. O livro enviado foi “Orações por um mundo melhor”, de Walter Rauschenbusch, PAULUS.

3. Em certas partes do Portugal pronuncia-se o “v” como “b”.

Coisa estranha: asilos evangélicos que são prisões, e prisões que abrem suas portas e janelas... Transcrevo trecho de uma carta que recebi, escrita com letra impecável: “Prezado escritor: Lhe escrevo em nome da pacífica população da Penitenciária de Presidente Bernardes/SP. A Biblioteca procura por todos os meios atender e estimular os anseios por leitura, cultura e educação dos mais de mil reeducandos e funcionários da penitenciária. Porém o acervo é insuficiente para esta missão. A leitura é um poderoso fator de reeducação e uma útil e piedosa substituta para a liberdade perdida...” No próximo domingo eu conto mais. Se, entretanto, alguém desejar entrar em contato com a referida penitenciaria para doar livros, pode escrever para: Eduardo Isaac Manzino Israel – Matr. 158.197 / Biblioteca da Penitenciária de Presidente Bernardes / Rodovia Raposo Tavares, km 586 / Caixa postal 097 / CEP 19.300-970 – Presidente Bernardes - SP

(Correio Popular, Caderno C, 02/09/2001.)