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O
faraó, filho dos deuses, estava perturbado. Sonhara
dois sonhos estranhos, de sentido misterioso. No
primeiro deles ele via 7 vacas gordas e bonitas saindo
do rio Nilo, seguidas por 7 vacas magras e feias. E, a
despeito do fato de vacas serem animais vegetarianos, as
7 vacas magras e feias devoravam as 7 vacas gordas e
bonitas. No segundo sonho ele via 7 espigas bonitas e
cheias de grãos surgindo de uma haste, seguidas por 7
espigas feias e mirradas. E a mesma coisa acontecia: as
7 espigas feias e mirradas comiam as 7 espigas bonitas e
cheias de grãos. O faraó, não conseguindo compreender
o sentido dos sonhos, mandou chamar os sábios e intérpretes
que faziam parte do seu ministério. Mas também eles não
conseguiram decifrar o mistério dos sonhos. O
copeiro-mor do palácio, que passara uma temporada na
prisão, dirigiu-se então ao faraó e contou-lhe de um
jovem que conhecera na prisão, a quem os deuses haviam
dado o dom da interpretação dos sonhos. Era um hebreu,
de nome José. O faraó ordenou que José fosse trazido
à sua presença. Ao ouvir o relato dos sonhos do faraó,
José compreendeu imediatamente o seu sentido. E isso
foi o que ele disse: “Os dois sonhos têm o mesmo
sentido. As 7 vacas bonitas e gordas e as 7 espigas
bonitas e granadas são 7 anos de fartura que se seguirão.
As 7 vacas feias e magras e as 7 espigas feias e miradas
são 7 anos de fome que se seguirão à fartura.“
Alertado pela interpretação de José, o prudente faraó
tomou as providências administrativas necessárias:
ordenou que se construíssem celeiros por todo o país e
que se armazenassem grãos suficientes para os anos de
fome. E assim o Egito foi o único país a passar incólume
pelos anos das vacas magras. Isso está relatado nas
Sagradas Escrituras, no livro de Gênesis, a partir do
capítulo 41.
Entre os tesouros arqueológicos recentemente
recuperados de uma cidade egípcia submersa há séculos,
foi encontrada uma pedra onde se encontra um relato
diferente do que aconteceu. O que esse documento conta
é o seguinte: o faraó, ao ouvir a interpretação de
José, e olhando para os vales férteis e verdejantes às
margens do Nilo, não acreditou na profecia. Achou que
José era um espertalhão que tentava ludibriá-lo.
Assim, enviou-o de volta à prisão. E, de fato, por 7
anos as margens do Nilo continuaram férteis como sempre
tinham sido. Mas aí, repentinamente, veio uma seca
nunca vista. As águas do Nilo baixaram. Suas margens
secaram. As vacas morreram. As poucas espigas que
nasciam não tinham grãos.
Em pânico, o faraó convocou seus ministros. “Que
fazer?“ - ele perguntou. “- É preciso racionar os
alimentos, Majestade! Todo o país deve comer menos para
que não haja fome!“ “-Está certo!“ - disse o
faraó. “- Mas como faremos o racionamento?“ Os sábios
responderam: “ – É preciso que não haja injustiças.
Todos os cidadãos devem fazer o mesmo sacrifício!
Assim, propomos que todos no reino, sem distinções,
passem as comer 20% menos do que comiam. E como as
pessoas só obedecem sob ameaça, propomos que aqueles
que não comerem 20% menos sejam condenados a passar um
mês sem comer!“
O faraó gostou da sugestão. Soluções baseadas em números,
estatísticas e porcentagens são as mais científicas.
E assim ele fez publicar com édito que seus arautos
proclamaram pelo reino, anunciando o racionamento de
comida e as punições para os que insistissem em comer
muito.
Abdul El Gulash era um mercador que se enriquecera pela
fabricação de relíquias arqueológicas. De todo o
mundo vinham homens de negócios para comprar as suas
mercadorias que, já se sabia naquela época, eram um
excelente investimento para o futuro. Abdul era um fino
conhecedor de psicologia. Sabia que os melhores negócios
se fazem à volta de uma mesa farta regada a vinho.
Assim, em parte da sua política de relações públicas
estavam festivais gastronômicos que ele oferecia
diariamente aos seus possíveis clientes. Em suas
despensas se encontravam as comidas mais refinadas:
carnes, peixes secos, aves, cebolas, pães, bolos,
manteiga, ovos de codorna, ovos de crocodilo, mel,
leite, queijos, azeite, figos, maçãs, tâmaras, uvas,
romãs, nozes. Anfitrião, ele tinham de banquetear-se
junto aos seus convidados. E seus hábitos gastronômicos
se revelavam nas dobras de gordura que cobriam o seu
corpo da cabeça aos pés.
Seraphim Ibn Shinfrim era um pobre artesão que
trabalhava na fábrica de Abdul El Gulash. Recebia um
salário miserável que apenas dava para comprar o
essencial para a sua sobrevivência e a de sua família,
mulher e 4 filhos. Carne, só em dias especiais de
festa. Suas refeições se resumiam em pão, sopa de
cebola, leite de camela e, eventualmente, queijo. Como não
podia deixar de ser, tanto Seraphim quanto sua mulher e
filhos eram esquálidos e pálidos.
Mas havia algo que unia os dois, Abdul e Seraphim: eles
eram patriotas, amavam o faraó e acreditavam que todas
as suas ordens eram divinas. Ao tomar conhecimento do édito
do faraó, ambos disseram: “É isso mesmo. É preciso
comer menos!“ Abdul El Gulash chamou o seu mordomo e
ordenou: “De hoje em diante, todas as comidas terão
de sofrer um corte de 20%. 20% menos carnes, 20% menos
frutas, 20% menos vinhos...“ Seraphim Ibn Shinfrim não
tinha nenhum mordomo. Assim, reuniu sua família e
anunciou: “Pela felicidade do reino do Egito, de hoje
em diante comeremos 20% menos carne, 20% menos sopa, 20%
menos leite...“ Afinal de contas, ambos sabiam que números,
estatísticas e porcentagens, não mentem...
Abdul El Gulash continuou gordo e banqueteando-se. 20% a
menos do que comia não lhe faziam diferença. Quanto a
Seraphim Ibn Shinfrim, consta que ele e sua família
morreram ao serem punidos com um mês sem comida, por não
terem conseguido comer 20% a menos do que comiam...
A CPFL me informou que tenho de consumir 20% menos
eletricidade do que consumo. Vivo só, num pequeno
apartamento. Viajo constantemente: na maior parte do
tempo, tudo, em minha casa, está desligado, com exceção
da geladeira. Televisão, faz 4 meses que não a ligo.
Minha média é de 82 kw. A CPFL não só me informou.
Ameaçou-me. Se não consumir 20% menos minha
eletricidade será cortada. Felizes são os Abdul El
Gulash, que se entregavam a orgias energéticas, todas
as lâmpadas acesas, todas as televisões acesas, todos
os aparelhos ligados... É fácil para os esbanjadores
economizar 20%! Pobre de mim, Seraphim Ibn Shinfrim, e
todos os que não esbanjavam, ou por necessidade ou por
consciência... Não sei onde cortar cortar os 20%. O
jeito é fazer um estoque de velas...
APERITIVOS
Os que pensam que a crise de energia é uma simples
consequência de um erro de planejamento do governo FHC
estão equivocados. Os padrões de gasto de energia,
implícitos na economia capitalista, mais cedo ou mais
tarde terão de produzir o “apagão“. Por uma razão
muito simples: o crescimento constante da economia
implica numa demanda sempre crescente de energia. Mas as
fontes produtoras de energia são limitadas. Mais cedo
ou mais tarde chegaremos ao limite. E, então, o “apagão“
será definitivo. Nós estamos fazendo a dívida. Nossos
filhos e netos terão de pagá-la. Não me consola saber
que eu estarei longe... As vacas magras estão chegando
com suas bocas abertas: eletricidade, derivados do petróleo,
água... Racionamento de água: já imaginaram?
Muitos “Josés“ têm estado a fazer profecias desse
momento. Mas não os levamos a sério. Seria bom reler o
livro “Os limites do crescimento“. Eu o li faz 30
anos. Sua tese é simples: uma economia baseada no
crescimento constante é inviável num planeta de
recursos finitos. O que ameaça o capitalismo não é um
inimigo de fora. São as suas exigências energéticas
que o levarão à catástrofe, arrastando todos nós.
Morrerá em virtude do crescimento. Tal como aconteceu
com os dinossauros. Mas as lagartixas continuam vivas e
felizes... (Correio Popular, Caderno C, 17/06/2001.)

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