Cometi
uma indelicadeza imperdoável no meu artigo sobre o
vestibular. Desejo corrigi-la. Pois eu fiz uma lista de intelectuais
universitários que não passariam no vestibular:
eu, reitores, professores, professores de cursinho, professores
que preparam as questões que os jovens terão
de responder... Mas, por esquecimento, omiti dois nomes. Não
disse que o senhor Ministro da Educação, Critovam
Buarque e o senhor Secretário de Educação
do Estado de São Paulo, Gabriel Chalita, também
não passariam no vestibular. Fiquei temeroso de que
se ofendessem. Porque, não os incluindo na lista dos
que não passariam, seria possível que se concluísse
que eles, se fizessem os vestibulares, passariam. E isso é
uma ofensa. Ofensa porque, se eles passassem, seria sinal
de que possuem memórias perfeitas, memórias
que não se esquecem de nada. Ora, pessoas que têm
memórias que não se esquecem de nada, nos limites
do meu conhecimento, são os chamados “idiots
savants”, expressão criada pelo dr. J. Langdon
Down, em 1887. Sobre eles Oliver Sacks escreveu um fascinante
artigo no livro Um antropólogo em Marte ( Companhia
das Letras ). “Idiots savants” são idiotas,
incapazes de pensar racionalmente que, entretanto, tem memórias
prodigiosas que guardam tudo, completamente divorciadas da
sua inteligência. O dr. Langdon Down relata de um paciente
seu a quem ele deu o livro Declínio e a queda do Imperio
Romano. Ele leu o livro e o memorizou perfeitamente com uma
única leitura. Jorge Luis Borges tem um conto “Funes,
o memorioso”, sobre um homem que tinha memória
absolutamente perfeita e que, por isso mesmo, era totalmente
incapaz de pensar. A memória inteligente é a
memória que sabe esquecer. Nietzsche, se não
me engano no seu ensaio sobre Tales de Mileto, observa que
a característica da sabedoria é que ela sabe
discriminar entre as coisas dignas e as indignas de serem
aprendidas. As dignas de serem aprendidas ela as guarda; as
indignas, joga fora, esquece. O esquecimento é um mecanismo
de sabedoria controlador da memória, para que ela não
carregue pesos inúteis. Assim, corrijo minha indelicadeza:
o senhor Ministro da Educação, Cristovam Buarque
e o senhor Secretário da Educação do
Estado de São Paulo, Gabriel Chalita, também
não passariam no vestibular. Eles são pessoas
inteligentes. A sua memória sabe esquecer.
Alegra-me
saber que o sr. Ministro da Educação também
se sente incomodado com os vestibulares. Tanto assim que ousou
tocar na vaca sagrada e sugeriu, se estou bem informado, que
os vestibulares devem se restringir apenas a português
e matemática. Penso que ele foi movido pela idéia
da simplificação. Os vestibulares, como estão,
exigem conhecimento demais. É sofrimento demais para
os jovens. Simplificados, poderiam ser mais inteligentes.
Mas eu
penso que aquilo que o senhor Ministro deseja não vai
ser atingido por meio dessa reforma. Tudo ficará como
antes. Possivelmente piorado. O dr. Jay W. Forrester, do M.I.T,
elaborou uma nova lei social que recebeu o nome de “Lei
de Forrester”. Em termos simples, essa lei sustenta
que em situações complicadas, os esforços
para melhorar as coisas em geral tendem a piorá-las,
frequentemente piorá-la muito, e ocasionalmente torná-las
uma calamidade.” O que é uma versão complicada
do que disse Jesus: “Não se põe remendo
novo em roupa velha. O remendo acaba por arrancar parte da
roupa e o buraco fica maior...” Não há
maneiras de se melhorar os vestibulares.
Resumindo:
eu acho que câmara de torturas e sessões de tortura
vão continuar; o que vai acontecer é apenas
um re-arranjo nos equipamentos.
A palavra
“tortura” vem do Latim, “torquere”
( daí “torquês”) que significa “torcer”.
O objetivo de torcer é produzir dor a fim de que o
torturado faça o que o torturador deseja. Os instrumentos
de tortura e a educação, no passado, se valeu
da famosa palmatória! Os vestibulares podem ser comparados
a uma câmara de torturas porque ninguém se submete
a eles por prazer.
A proposta
do senhor Ministro terá como resultado a eliminação
de vários dos instrumentos de tortura ora em uso. Mas
sua outra consequência será o aperfeiçoamento
dos dois instrumentos a serem usados, português e matemática.
O “quantum” de dor não será diminuido;
será concentrado. O resultado não vai ser um
maior amor por português e matemática. Não
há tortura que possa provocar, num aluno, o amor pela
leitura. Mas isso, o amor pela leitura, é o fundamento
da língua. Paralelamente, física, química,
geografia, história passarão a formar o ról
dos saberes sem importância, ao lado das artes e da
poesia, por não cairem no vestibular.
Câmaras
de tortura não podem ser melhoradas. Câmaras
de tortura têm de ser abolidas. A aprendizagem tem de
ser uma experiência feliz..
Eu tenho
uma proposta diferente: proponho que as câmaras de tortura
sejam simplesmente abolidas. Me perguntarão: “E
como serão selecionados os alunos?” Acontece
que meu espaço chegou ao fim... Sobre isso falaremos
no próximo mês...
·
Sou o Rubem Alves , quase 70.. . Gilberto Dimenstein e eu
lançamos juntos o livro Fomos maus alunos ( Papirus
). Estou relendo o livro de Bachelard A poética do
devaneio. Seu capítulo sobre os devaneios de infância
é comovente, sábio, poético. Teria de
ser leitura obrigatória para todo psicólogo
e todo pedagogo.