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Eu
era menino, lá em Minas, bola de gude no chão, pipa
voando no ar, pião rodando na mão... De dia brincando
naquela terra, de noite lutando distante guerra... Os
homens da vizinhança se reuniam à frente da nossa casa
para ouvir o rádio – era o único da redondeza –
notícias da guerra na Europa. E o Carlos Frias dizia
com sua voz dramática, fundo musical de “Moonlight
Serenade”: “E Stalingrado continua a
resistir.” Ao que, ouvindo isso o Zé da Cotinha – a
Cotinha era uma vizinha velha desdentada maledicente que
estava sempre pedindo uns pauzinhos de lenha emprestados
– o Zé da Cotinha anunciava com voz solene que ninguém
ousava contestar: “Pois hoje, à meia-noite,
Stalingrado vai mudar de nome. Vai se chamar
Hitlerlogrado...”
Era emocionante. O pai ia me mostrando, no enorme mapa
da Europa pendurado na parede da sala, os lugares que
tinham sido mencionados no rádio, lugares onde as
metralhadoras e os canhões faziam soar a “sinistra
melodia” da guerra. E eu imaginava a música do pistão
a tocar languidamente o “toque de silêncio”, ao
cair da noite, em memória daqueles que haviam sido
silenciados para sempre.
Quando a guerra acabou – eu tinha 12 anos –
perguntei ao meu pai: “Agora quais serão as notícias
que vão aparecer nos jornais?” Meu pai respondeu:
“Os jornais vão falar sobre política.” Pensei:
“Então vai ser muito chato...” Fiquei triste porque
a guerra tinha acabado. A guerra é mais emocionante que
a paz. Agora os jornais estão interessantes de novo. Não
mais as banalidades da corrupção de políticos
grotescos que vomitam eloquência com dedo em riste. Emoção
de verdade. Adrenalina. Ação. Guerra. Guerra com prenúncios
de fim do mundo. Fico hipnotizado pelas manchetes. Elas
me colocam no meio da emoção da ação. Essa é a razão
porque os filmes de guerra são campeões de bilheteria:
todo mundo quer experimentar as emoções da guerra sem
correr os seus perigos. A ação é rápida. Meu
pensamento, lerdo, não consegue segui-la. As imagens
tomam o lugar das idéias. Sou espectador de um filme de
guerra – um mero espectador. Foram outros os que
escreveram o “script”. Eu nada posso fazer além
de contemplar. Estou estupidificado intelectualmente e
paralisado praticamente.
* * *
O professor Bento Prado Jr. é filósofo, talvez o maior
filósofo brasileiro. Velho, mais ou menos a minha
idade. Escreve com clareza. Escreve com beleza.
Professor, pensou e ensinou o pensamento de outros. Sábio,
pensa e ensina os seus próprios pensamentos. Sabe que
sabedoria se ensina com poesia. Assim, virou poeta e
escreveu: “Na minha vida tão agitada, / na alma
exposta ao tormento de tanto vento – o lençol, no
varal, lá fora, que estala violento / contra si mesmo e
contra o Bento - , eis-me, finalmente, velho e sem idade
/ com o vendava l que, desde sempre, estrala, no espaço
onde se dispersam as estrelas. / Que fazer? Mudar o
mundo, justo em seu fim, ou, mais custoso ainda, a mim?
/ Nem um, nem outro: - cultivar docemente meu jardim.”
Esse poeminha me deu grande “felicidade de
palavras”: ele diz o que sinto. Lá fora, o vendaval
que estala violento, indiferente ao que sinto,
indiferente ao que penso. Nada posso fazer. Ele só faz
me emocionar, uma emoção estéril, uma ereção do
pensamento sem que haja ato de amor, orgasmo e fecundação.
Assim, fecho os jornais com suas manchetes de guerra que
me deixam na condição de espectador inútil, e me
volto para aquilo que posso fazer. Posso fazer amor com
o meu jardim. Meus pensamentos sobre o meu jardim não
serão inúteis. Do meu jardim eu posso cuidar.
Nas manchetes dos jornais, as emoções fortes da morte,
rápida e barulhenta. Minhas idéias perturbadas. Nas
plantas do meu jardim, as emoções brandas da vida,
mansa e silenciosa. Penso pensamentos alegres.
* * *
Quem terá sido? De uma coisa estou certo: tinha de ser
jardineiro, tinha de ser poeta e tinha de ser educador.
Tudo junto. Se jardineiro, poeta e educador não
estivessem juntos a metáfora não teria aparecido.
“Jardim de Infância!” Foi isso o que esse
desconhecido exclamou ao ver a criançada alegremente
aprendendo. E todos concordaram. “É isso mesmo!” -
responderam em coro. Tanto que o nome ficou, muito
embora o nome do poeta-jardineiro-educador tenha sido
esquecido.
Crianças e jardins – como se parecem! Nos dois a vida
aparece, exuberante, alegre e mansa. Alguns não
gostaram do nome “jardim”. Acharam que o ensino dos
saberes é coisa séria, não é brinquedo, não é
coisa de criança, ensinam-se os saberes às crianças
precisamente para que elas deixem de ser crianças e se
tornem adultos produtivos. Jardim não é espaço
produtivo. Produtivas são as hortas. Assim, trataram de
fazer com que o nome “jardim de infância” tivesse
vida curta – como uma bolha de sabão. Logo as crianças
saem do jardim e entram para a escola de verdade que não
é jardim. Se fosse, se chamaria jardim. Se não se
chama jardim é porque não é. Que coisa é essa escola
que não é jardim eu não sei direito. Às vezes
imagino que ela é uma linha de montagem – as crianças-flores
sendo transformadas em peças de uma máquina.
Pois estou muito alegre porque Campinas, nesse momento
em que as manchetes dos jornais estão cheias de violência,
crimes e morte, está recebendo a visita de um educador
que acha que a escola tem de ser um jardim, do princípio
ao fim. É o professor José Pacheco, acompanhado da
esposa Fátima – da Escola da Ponte, aquela sobre que
escrevi, em Portugal: a escola com que sempre sonhei sem
imaginar que pudesse existir...
Imagino que todo mundo deve estar curioso sobre os princípios
básicos da sua jardinagem pedagógica... Isso é fácil.
Posso resumir os princípios pedagógicos da Escola da
Ponte em poucas palavras.
Posso também resumir os princípios da jardinagem em
poucas palavras.
E os princípios do casamento feliz em poucas palavras.
Até mesmo os princípios da arte de escrever em poucas
palavras.
Mas há um problema que não sei resolver: o
conhecimento dos princípios nem faz jardins bonitos,
nem casamentos felizes e nem literatura bonita. Princípios
funcionam bem quando o que se deseja é a produção de
uma linha de montagem. Não funcionam bem quando o que
se deseja é a criação de um jardim... Princípios
pedagógicos não fazem escolas-jardins...
Martin Buber, um maravilhoso filósofo que pôs palavras
nos meus sentimentos, disse que o que faz o mundo humano
não são as coisas. São as relações. O Paraíso era
um lugar maravilhoso, onde se encontravam todas as
coisas capazes de trazer felicidade. Mas houve um
momento em que a beleza do jardim foi destruída por uma
perturbação nas relações. Homem e mulher se olharam
com olhos tortos, tiveram vergonha um do outro, e se
cobriram. Tiveram medo de Deus, e se esconderam. E o
Paraíso foi perdido. Veja o nosso mundo. Com a riqueza
que temos e o conhecimento que produzimos, temos condições
de reconstruir o Paraíso. E, no entanto, nossa riqueza
e nossa ciência produziram um Inferno. Por quê? Porque
as relações entre as pessoas e os povos estão podres,
vazias de amor, cheias de morte. Isso vale para tudo.
Assim acontece com países, empresas, universidades,
casas, escolas...
O segredo da Escola da Ponte não se encontra nos seus
princípios pedagógicos. Ele se encontra nas relações
entre pessoas que ali convivem e trabalham. Acontece que
a qualidade das relações não pode ser produzida por
princípios que se ensinam em cursos de capacitação.
“Mundos melhores não são feitos; eles simplesmente
nascem” – disse Cummings. A mesma coisa vale para as
instituições e organizações: é preciso que a relações
nasçam... Uma planta, para nascer, tem de ser plantada.
E que semente é essa que foi plantada, nasceu e
floresce na Escola da Ponte?
Eu acho que é uma semente que o José Pacheco plantou,
sem saber que estava plantando. Plantou sem intenção,
simplesmente sendo o que ele é, sem precisar fazer força.
O José Pacheco plantou mansidão...
Mansidão é o abandono voluntário do exercício do
poder. “Professor José Pacheco” – uma pessoa
conversava com ele ao telefone, faz uns dias –
“tenho de preencher formulários relativos à sua
vinda ao Brasil. No item relativo à sua função o que
coloco? Diretor?” Responde José Pacheco do outro lado
do oceano, quase gaguejando: “Não... não... Aqui não
temos um diretor. Todos os professores são diretores.
Coloque ...” segue-se um silêncio – “coloque
‘coordenador de projetos’”. É verdade. Na Escola
da Ponte não há uma pessoa que tenha a última
palavra. O poder não pertence a ninguém; pertence a
todos. As idéias não são monopólio de ninguém. São
propriedade de todos. O poder não estando localizado
numa diretoria, não existe tensão entre
“diretoria” e subordinados. E nem a possibilidade de
greve... por não haver um detentor do poder a ser
dobrado pela força. E nem uma instância superior que
use força para intimidar os mais fracos: o professor
que manda o aluno para a diretoria... Se há questões
de disciplina a serem resolvidas, serão os próprios
alunos que as resolverão – pois são eles que cuidam
que ninguém estrague o seu jardim. E se todos
participam, em igualdade, do cuidado desse jardim, o
solo não é propício para o desenvolvimento da grande
praga, responsável pelo envenenamento das relações
humanas: a inveja. Não digo que ela não exista... Mas,
se aparece, brota mirrada, envergonhada, não tem tempo
de se transformar em maledicência e conspiração, é fácil
de ser arrancada...
Visão do profeta Isaías (cap. 6:11-13). Estas eram as
manchetes dos jornais no tempo em que ele vivia: as
cidades devastadas, sem habitantes; as casas vazias, sem
moradores; e os campos totalmente assolados. Nesse cenário
de fim de mundo Deus lhe diz: será como o carvalho, que
mesmo depois de cortado, continua a brotar...
A Escola da Ponte é um broto verde, um anúncio de
jardim em meio ao deserto.
Bem-vindos, José Pacheco e Fátima...
Aperitivos
1. “Bem-aventurados os mansos porque eles herdarão a
terra”.
2. “São as palavras mais tranquilas que trazem a
tempestade. Pensamentos que caminham com pés de pés de
pomba – são eles que guiam o mundo.” (Nietzsche)
3. Albert Camus: “Já se disse que as grandes idéias
vêm ao mundo mansamente, como pombas. Talvez, então,
se ouvirmos com atenção, escutaremos, em meio ao estrépito
de impérios e nações, um discreto bater de asas, o
suave acordar da vida e da esperança. Alguns dirão que
tal esperança jaz numa nação; outros, num homem. Eu
creio, ao contrário, que ela é despertada,
revivificada, alimentada por milhões de indivíduos
solitários, cujos atos e trabalho, diariamente, negam
as fronteiras e as implicações mais cruas da história.
Como resultado, brilha por um breve momento a verdade
sempre ameaçada de que cada e todo homem, sobre a base
dos seus próprios sofrimentos e alegrias, constrói
para todos...” (Albert Camus)
4. “Não há império que valha que por ele se parta
uma boneca de criança.” (Bernardo Soares)
(Correio Popular, Caderno C, 30/09/2001.)

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