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O
telefone tocou. Era uma hora da madrugada. Quem poderia
ser? O que poderia ser? Atendo. “Pai, acordei você...“
Era a voz da Raquel, minha filha. “Acordou“ –
respondi numa mistura de mau humor e apreensão. “Pai,
o nosso prefeito, o Toninho, acaba de ser
assassinado...“ Para a Raquel o assassinato do
prefeito era muito mais que um evento político. O
Toninho tinha sido seu professor, na Faculdade de
Arquitetura. Ela estava compartilhando comigo a sua dor
e ódio pela perda de um amigo, um homem que ela
admirava. Meus pensamentos, ainda mergulhados na sonolência,
se transformaram num bloco de pedra: pura estupefação
e horror.
Senti a dor da perda do Toninho. Ele era um homem manso
que sonhava coisas bonitas para Campinas. Numa conversa,
faz uns meses, ele me disse que estava imaginando um
jeito de realizar, praticamente, aquela coisa de “política
e jardinagem“ sobre que eu havia escrito na Folha. E
fiquei contente...
Mas o que senti foi muito mais que a dor pela perda de
um homem bonito. Já havia passado por experiências
semelhantes. Quando meu amigo Elias Abrão, que havia
sido secretário de meio ambiente de Curitiba, secretário
de educação do estado do Paraná e era deputado,
morreu num desastre automobilístico, chorei como nunca
havia chorado em toda a minha vida. Mas a dor era
diferente. Minha dor pela morte do Elias Abrão foi dor
pela morte do Elias Abrão: nada mais. Dor num estado
puro. Mas a minha dor pela morte do Toninho está sendo
diferente. Porque a forma como ele morreu, assassinado,
estabelece entre todos nós uma difícil comunhão...
Nosso destino está ligado ao dele. Veio-me à memória
um texto sagrado que diz que Jesus, “vendo as multidões,
compadeceu-se delas, porque andavam desgarradas e
errantes como ovelhas que não têm pastor.“
Ovelhas são animais mansos, sem garras ou chifres,
incapazes de se defender. Morrem mansamente nos dentes
dos lobos. E dizem que nem mesmo balem. Morrem
silenciosamente. Essa é a razão por que é preciso que
haja pastores que as protejam. O pastor traz na mão o
cajado, arma para a defesa do seu rebanho. E quando tudo
está tranquilo, as ovelhas pastando, os lobos mantidos
à distância pelo pastor, ele pode se dedicar a tocar a
sua flauta. “Ainda quando eu andar pelo vale onde a
morte está à espreita, não temerei mal algum; a tua
vara e o teu cajado me defendem e consolam...“ (Salmo
23). Um dos corais mais lindos de Bach descreve essa
cena: “Mansamente pastam as ovelhas...“
Ah! Que imagem linda! Seria bom que fosse assim! Os
homens, as mulheres, os velhos, a crianças – todo
mundo “pastando“ pelas ruas da cidade nas noites
frescas, sem medo... Que mais poderíamos desejar? A
vida pode ser assim, se não houver medo.
E é para isso que pastor existe: para que não haja
medo. A ausência do medo é o pré-requisito para a
vida boa a que estamos destinados. Isso mesmo! Nisso os
místicos, os poetas e a psicanálise estão de acordo:
o coração está em busca de um mundo que possa ser
amado. Nas palavras de Bachelard “o universo tem, para
além de todas as misérias, um destino de
felicidade“. Mas essa imagem de felicidade que dava
sentido à nossa vida comum se transformou numa bolha de
sabão. Os poetas insistem em acreditar, continuam
soprado e falando de esperança – mas tão logo se
formam, as bolhas flutuam no ar e arrebentam.
O Toninho foi assassinado. O lobo ou os lobos – não
sei – estavam à espreita. E ele era como uma ovelha
– ia despreocupado, sem medo, inconsciente do perigo,
sem pastor que o protegesse. Foi essa imagem, a imagem
da fragilidade e do abandono diante dos lobos, que me
comoveu. Sinto dor pela morte do Toninho. Mas sinto uma
dor maior por nós mesmos, porque o que aconteceu com o
Toninho é um símbolo da condição de todos nós:
somos ovelhas sem pastor, à mercê dos lobos.
No tempo em que havia pastores os lobos eram trancados
em jaulas e as ovelhas pastavam soltas, mansamente.
Agora, sem pastores, as ovelhas se trancam em jaulas e
os lobos caminham soltos, tranquilamente. O medo nos
leva a nos encerrarmos em jaulas. Não nos atrevemos a
andar pelas ruas, pelos parques, pelos jardins, pelas
praças. Abandonados, deixaram de ser nossa propriedade.
Tornaram-se habitação dos lobos que neles ficam à
espreita. E eu me pergunto: de que valem todas as coisas
boas que se possam produzir numa sociedade se estamos
todos, todo o tempo, condenados ao medo?
Alguns explicam a nossa condição como sendo decorrente
das estruturas injustas de distribuição de renda: a
violência criminosa seria, então, uma simples consequência
da violência estrutural econômica, que seria a causa.
Duvido. Penso segundo a lógica dos negócios. Era
costume dizer: “O crime não compensa“. Isso era
verdadeiro num mundo onde os pastores protegiam as
ovelhas. Mas a nossa situação é outra. Vale agora uma
outra afirmação: “O crime compensa“. E compensa
porque o Estado – pastor supremo! – se tornou um
pastor sonolento, vagaroso, de cajado mole. O crime
compensa por causa da impunidade. O crime se transformou
num empreendimento econômico altamente lucrativo. E os
que se dedicam ao negócio do crime não são os pobres,
as vítimas das estruturas econômicas injustas. Será,
por acaso, possível convencer os lobos a comer capim
como as ovelhas? Os lobos só são convencidos pela força
dos cajados.
A morte do Toninho me dá grande tristeza, Mas o que me
dá tristeza maior é a falta de esperança. Por mais
que eu pense não consigo imaginar as ovelhas pastando
mansamente... Assim, só me resta uma alternativa:
trancar-me dentro da segurança precária do meu
apartamento e, enquanto escrevo esse artigo, ouvir o
coral de Bach. “Mansamente pastam as ovelhas...“
(Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 12/09/2001.)
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