Laudate Pueri



Cada um louva como pode. Os magos, ricos, trouxeram presentes caros, preparados por artistas e comprados em lojas de cristal; os pastores, pobres, trouxeram nas mãos coisas que eles mesmos haviam colhido: o brilho das estrelas nas noites tranqüilas, a música das flautas na solidão das colinas; o cheiro do capim molhado de orvalho; as vacas e os jumentos, sem nada poder colher ou comprar, louvaram a criança com seus olhares mansos e, musicalmente, binariamente, com o balanço dos seus rabos.

Eu também louvo do jeito como sei e posso: são cinco horas da manhã. A lua, um D brilhante, faz tranqüilamente o seu serviço de luz do meio do céu. Penso em você, que ainda não vi e nem pensa em mim, por não saber que eu existo. Me pergunto sobre o louvor que sei. Música, é claro. Não existe nada mais profundo. A alma, nos seus lugares onde as vozes perturbadas dos homens não atingem, onde tudo é silêncio, lá não há palavras. Lá só existe música. Os físicos de hoje, quanto mais sabidos mais tolos ficam. Esqueceram-se da sabedoria dos antigos. Dizem que no início de todas as coisas está a energia. Agora eu lhe pergunto, a você que nunca foi a nenhuma escola: o que é que vem primeiro - a música ou a instrumento? Qualquer tolo sabem que a música veio primeiro. Primeiro os homens ouviram a música com os ouvidos da alma. E tão fascinados ficaram que trataram de inventar instrumentos para que também os ouvidos do corpo a pudessem ouvir. Da música nasce a matéria. Os físicos antigos sabiam disto. Olhavam para os céus estrelados e ouviam a silenciosa música das esferas: cada astro era um globo de cristal, instrumento de uma orquestra na qual Deus tocava sua música. O evangelista escreveu: “No princípio era o Verbo“. Mas ele, distraído, se esqueceu de dizer que esse Verbo eram as palavras de uma canção. Ele prestou só atenção na letra. Caso contrário teria escrito: “No princípio era a Música.“

Posto que, com a sua chegada, o universo se inicia de novo, achei que seria próprio combinar o escuro da noite, o brilho da lua, a minha abençoada solidão de madrugada com a música, para assim louvar você. Não quero lhe oferecer só a música que existe nos vãos das minhas palavras. Quero lhe oferecer música pura. E foi assim que, no meio dos meus CDs procurei e achei: Laudate pueri - louvai a criança - George Friedrich Handel, Dietrich Buxtehude, Antonio Vivaldi. E é isso que ouço enquanto escrevo.

Prestando bem atenção você perceberá que seu nome é música - mínima música. Basta repetir alto, Ana Carolina, Ana Carolina, Ana Carolina - menina bailarina, que dança em câmara lenta, em passos binários - ou será o movimento das asas de uma gaivota, binários também - talvez não haja diferença - o que todos os bailarinos desejam é voar como pássaros, por isso saltam tão alto, suplicam aos deuses o milagre de transformar sua dança em vôo - desejam levitar, flutuar no ar.

Ritmo binário, tum-tum, tum-tum, tum-tum, assim bate o coração da mãe, a que seus ouvidos estiveram encostados por nove meses, e de tanto ouvi-lo ele ficou gravado no seu corpinho, que agora sabe que quando esse ritmo é ouvido o universo está em ordem. Tum-tum, tum-tum, tum-tum, não há o que temer, pode dormir. Assim batem as canções de ninar, assim balançam berços, assim batem as mãos no bumbum do nenezinho. Todos querem imitar o coração materno.

O que vou lhe dizer é um segredo, conversa entre avô e neta - os pais estão excluídos, não diga nada para eles. Aprenda: os adultos são uns tolos. É preciso que você não fique como eles. Claro que eles vão fazer de tudo para passar você na máquina xerox chamada escola. Resista. Se eu ainda estiver por perto eu a ajudarei. Palavra de avô. Pergunte à Mariana, sua priminha. Ela confirmará o que estou dizendo.

O Pequeno Príncipe... Até me esqueci de perguntar se você, em sua longa viagem até essa terra, não passou por ele. Como ele é? É fácil saber. Mora num minúsculo asteróide, cuida de uma rosa, tem um carneirinho, e morre de rir quando se lembra dos adultos... Ele percebeu aquilo que só nós, crianças, percebemos: que eles, os adultos, são todos doidos. Por exemplo - foi ele que me disse isso: se a gente disser para um adulto que a casa da gente é branca, de janelas vermelhas, flores no jardim e pássaros no telhado, eles ficam olhando, cara espantada, como se fôssemos de um outro mundo. Agora, se a gente disser que mora numa casa que custou R$ 300.000,00 eles sorriem e dizem: “Mas que linda casa!“

Os adultos pensam que o maior e o mais caro são o melhor. Pensam que a alegria e os deuses vêm empacotados em embrulhos grandes. Por exemplo: quando falam em Deus pensam logo numa coisa grande, muito grande, terrível, do tamanho do universo, e ficam falando em coisas que o pensamento não entende, como tempo de bilhões de anos e distâncias de anos-luz. Não sabem que a alegria, o maravilhoso, o divino, estão ali pertinho, ao alcance da mão. Divina é uma gota de orvalho, uma amora roxa, uma cambalhota de tiziu, um raio de sol numa teia de aranha, a cor de uma joaninha, um bombom, uma bolinha de gude, um amigo, uma acertada de bilboquê: coisas pequenas, sem preço. Como você. Você é pequenininha e, ao preço de mercado, não deve valer muito. Mas você é mais maravilhosa que o universo inteiro. Porque você tem o poder de dar alegria e de sentir alegria. O universo não tem. Deus é alegria. Uma criança é alegria. Deus e uma criança têm isso em comum: ambos sabem que o universo é uma caixa de brinquedos. Deus vê o mundo com olhos de criança. Está sempre à procura de companheiros para brincar. Os grandes, doidões e perversos, pensam que Deus é como eles, de olho malvado, que os espiona em todos os lugares, para castigar. Você sabe que não é assim.

Sua boquinha no seio da sua mãe: sem saber nada você já sabe a filosofia essencial. No seio se encontra o resumo de tudo o que vale a pena ser sabido. Primeiro, que é importante viver. O leite dá vida. Mas o seio não é só o lugar do leite. É o lugar de deleite. Prazer. A gente vive para ter prazer. No seio se aprende que viver é bom. Viver é divino. O mundo é um corpo cheio de seios, um espaço cheio de Paraísos. Mas os seios e os Paraísos só aparecem àqueles que têm os olhos de criança.

Essas coisas que estou lhe dizendo são coisas que só aprendi direito depois que fiquei avô. Eu sabia delas quando era menino. Quando virei adulto fiquei sério e esqueci. Depois de ficar velho, esqueci as coisas de adulto e reaprendi o que havia esquecido.

Sabe, Ana Carolina: estou fazendo uma casa para vocês, minhas netas: você, a Mariana e a Camila, e os outros que vierem. Lá estou colocando minhas coisas de criança, brinquedos. Somente eles julgo dignos de serem preservados. Lá estão piões, bolas de gude, pipas, caleidoscópios, quebra-cabeças, bonecas, marionetes, fantoches, um mundaréu de objetos inúteis que não servem para nada mas que têm o poder de fazer sonhar, livros de estórias, de poesia, de contos, livros de figura, jardinzinhos, fontes, plantas, bonsais, quadros, posters, CDs. Essa é a minha casa, a minha herança: uma casa de brinquedo para vocês. Agora, que você chegou, e sem ter visto o seu rosto, eu olho para os meus brinquedos, e imagino vocês brincando com eles. Isso me faz feliz. E, quem sabe, até mesmo seus pais e outros adultos tornados crianças se juntarão a nós. Beijão do seu avô, companheiro de brincadeira.

(Transparências da eternidade, Verus, 2002)